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Universidades

À espera de condições sanitárias, universidades começam a planejar volta às aulas presenciais

por Mathias Sallit em 28/07/20

Os campi universitários do Brasil contam com o movimento de cerca de 6,4 milhões de estudantes matriculados, segundo o Censo da Educação Superior de 2018, o mais recente publicado pelo Ministério da Educação (MEC). Desde o mês de março, quando a pandemia do coronavírus começou a afetar o país de forma mais severa, esse fluxo de alunos foi interrompido e as salas de aula e corredores das universidades ficaram vazias.

A partir daquele momento inicial, instituições de todo o país começaram a buscar alternativas de aprendizagem para atender às necessidades de estudantes e professores.

(Foto: Ares Soares/Unifor/Reprodução)
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Ensino híbrido, máscaras, distanciamento e salas ao ar livre são algumas das medidas tomadas pelas universidades no Brasil e no mundo

Muitas precisaram adaptar todos os seus cursos para o ensino a distância (EaD), inclusive com autorização do MEC para que graduações presenciais, como Direito e Medicina, seguissem online. "Em seis dias, migramos toda a universidade do presencial para aulas remotas, não ficamos nem um dia sem aula", conta o vice-reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Vidal Martins.

Houve também faculdades, que suspenderam completamente as aulas e decidiram usar os esforços para adaptar e organizar o conteúdo das disciplinas para um retorno remoto durante o ano, caso de muitas instituições públicas estaduais e federais.

Em julho, o período de distanciamento social completou quatro meses, e os números da pandemia no país continuam a inviabilizar o retorno da normalidade acadêmica para os estudantes. Durante esse tempo, e percebendo a situação se estendendo, as instituições se preparam para um retorno de forma gradual, que possa garantir a segurança de estudantes, professores e funcionários e não afetar de maneira tão drástica o aprendizado dos cursos.

Para guiar as universidades, governos estaduais e federal começaram a definir medidas para formalizar os protocolos de retorno dessas atividades de forma organizada. O MEC publicou no início do mês as diretrizes que devem ser tomadas pelas instituições federais para que seus alunos possam voltar ao campus.

Entre as medidas de segurança necessárias estão o uso de máscara, o distanciamento de 1,5 metro entre os alunos, a disponibilização de álcool em gel e a ventilação do ambiente. Contudo, não há uniformidade entre as taxas de contágio em todo o Brasil, fato que dificulta que o protocolo estipule prazos para o retorno.

"Isso deve ser muito setorizado conforme a região do país", afirma a infectologista Raquel Stucchi, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). "Não dá para ter uma regra única, portanto a decisão de voltar ou não às aulas deve levar em conta o grau de transmissão do vírus em cada região", completa a médica.

Para Raquel, as universidades devem se adaptar para que as salas de aula possam ter espaço necessário para o distanciamento entre os alunos, disponibilização de equipamentos de higiene e uso de máscaras por todos. Além disso, ela ressalta a importância de monitorar toda a comunidade acadêmica para que possíveis casos de contágio não aconteçam. "Você vai precisar de um tempo para adaptação dos espaços e do que você precisa para dar segurança para os alunos e toda a comunidade que trabalha na universidade."

"Não considero cedo pensar já em uma possível retomada, não acho que é precoce. Ela, sem dúvida nenhuma, deverá ser de uma forma adaptada e deve priorizar, principalmente, quem está no último ano da faculdade para não comprometer muito as expectativas, a procura de um trabalho, ou consolidação já de um trabalho, como um trainee, para que ele possa tocar a vida adiante", explica a infectologista.
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Como as universidades têm trabalhado para voltar a receber estudantes

Desde o início da pandemia, algumas instituições mostraram cautela e declararam que o retorno às atividades presenciais não deveria acontecer ainda em 2020. Essa preocupação se deu principalmente devido à dificuldade para um desenvolvimento de uma vacina ou remédio eficaz contra a Covid-19 no curto prazo.

No dia 22 de julho, reitores de dez universidades públicas do Rio de Janeiro assinaram uma nota conjunta em que consideram "bastante improvável" que as aulas presenciais possam ser normalizadas neste ano.

Com atividades acadêmicas suspensas desde março, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) começa a iniciar a transição para a "fase 3" de seu plano de cinco etapas até a volta à normalidade. Nesta terceira etapa, prevista para começar em 10 de agosto, estudantes iniciam o retorno às aulas de maneira totalmente remota.

(Foto: Artur Moês/Coordcom/UFRJ)
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Força-tarefa da UFRJ estuda possibilidades de retorno parcial em 2020 ou 2021

As fases foram estudadas por uma força-tarefa da universidade chamada Grupo de Trabalho (GT) Pós-Pandemia, que conta com 60 pessoas, entre técnicos, estudantes e professores de diferentes áreas. O grupo debate as melhores formas de se viabilizar um retorno, tanto em relação à biossegurança, como ao aprendizado e condições de trabalho.

"Queremos seguir tudo aquilo que cientificamente acreditamos, em termos de recomendações dos epidemiologistas sobre contágio, o que é mais seguro para ter alguma atividade presencial na universidade, e ao mesmo tempo assegurar as condições institucionais para esse funcionamento", explica Eduardo Raupp, pró-reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças e coordenador do GT Pós-Pandemia da UFRJ.

Para avançar à "fase 4", o cenário da pandemia precisa apresentar melhoras nas taxas de contágio e ocupação de leitos em hospitais, além da redução do número de casos e óbitos por Covid-19 no Rio de Janeiro.

Nessa etapa, as aulas começam a acontecer no modelo híbrido, com rodízio de alunos entre atividades presenciais e remotas. O GT Pós-Pandemia avalia que até o início de agosto exista um prazo para tomar essa decisão e estudar a possibilidade de iniciar a quarta fase ainda em 2020.

A "fase 5" indica retorno à normalidade, com todas as aulas e trabalhos presenciais. Para isso, o plano da UFRJ aponta a necessidade de uma vacina ou medicamento contra a Covid-19 disponível. "As condições que a gente vivia e trabalhava antes são impraticáveis em um contexto de algum contágio", afirma Eduardo. "As pessoas podem dizer que estamos sendo excessivamente cautelosos, mas a gente prefere assim", completa o coordenador.

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Para o início do retorno remoto, a UFRJ também priorizou oferecer auxílios emergenciais para que estudantes em vulnerabilidade possam ter acesso aos recursos tecnológicos, tanto dispositivos como conexão à internet, e pudessem acompanhar as aulas.

"Temos uma situação na universidade, que, muito por desconhecimento, as pessoas ainda acham que a universidade é um local de estudantes privilegiados", conta Eduardo. "Mas a situação mudou muito nos últimos anos e a gente tem um percentual muito grande dos alunos que têm dificuldades e ficaram mais vulneráveis ainda nesse contexto da pandemia."

Veja mais: Ensino remoto aumenta as desigualdades educacionais e pode afetar desempenho no Enem

Atividades práticas e da área da saúde são prioridade

(Foto: Divulgação/Santa Casa SP)
FCM/Santa Casa pandemia
Desde junho, alunos da Santa Casa de SP já realizam atividades práticas no campus

As discussões das universidades colocam as atividades práticas como a prioridade para as primeiras etapas de retomada. Desde junho, a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo já recebe alunos de Medicina e Enfermagem que estão nos últimos anos, período de internato e práticas dos estudantes em ambientes hospitalares.

A faculdade voltará com as aulas de todos os cinco cursos da área da saúde da instituição já no dia 3 de agosto, seguindo o formato híbrido e de forma escalonada, para que haja espaço físico seguro para as turmas.

"Fizemos esse escalonamento e vamos colocar os alunos em anfiteatros com mais de 200 lugares", conta José Eduardo Lutaif Dolci, diretor da faculdade da Santa Casa. "Tudo será feito com o máximo rigor possível, dentro do que é preconizado pelas autoridades sanitárias competentes. Nós vamos voltar, mas vamos voltar com segurança", garante o médico.

Modelos de ensino híbrido, como o da Santa Casa, aparecem como tendência para que as universidades comecem a reabrir os campi de forma gradual para os estudantes. No Paraná, a PUCPR remanejou os conteúdos de todos os seus cursos para que, sem perda de qualidade na aprendizagem, as atividades práticas que precisam ser presenciais aconteçam apenas quando as condições sanitárias estejam em "bandeira amarela", de acordo com o governo do Estado.

"Cada coordenador de curso definiu claramente quais são as atividades práticas que exigem presencialidade e precisam do espaço presencial, e as outras que também são práticas mas não exigem", explica o vice-reitor Vidal Martins. "Se ele precisar ficar o semestre inteiro remoto, o aluno já sabe o que ele vai ter de prática remota e o que poderemos esperar o presencial. Desta forma, ele não fica inseguro e sabe que vai ter o curso de qualidade", completa.

(Foto: Divulgação/PUCPR)
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Ainda sem estipular datas para retorno ao campus, atividades práticas serão prioridade na PUCPR

Depois de ter o pico da pandemia entre o final de maio e início de junho, Manaus, uma das cinco cidades com mais casos de pessoas infectadas pelo coronavírus no Brasil, começa a estabilizar os números, o que possibilita que as instituições pensem em uma retomada.

Universidade públicas e privadas do Amazonas precisarão seguir normas estipuladas pela Fundação de Vigilância em Saúde para receber alunos de forma presencial. A Universidade do Estado do Amazonas (UEA) estipula uma data para o ensino passar do remoto para o híbrido no início de outubro.

De acordo com Kelly Christiane Silva de Souza, pró-reitora de Ensino de Graduação da UEA, a prioridade desse período é das atividades práticas e do preparo para professores e alunos se adaptarem às tecnologias necessárias.

Ela conta que os estudantes que não se sentirem seguros para retornar às atividades presencias terão flexibilização para trancar as disciplinas e retomá-las no futuro. "Tentamos buscar as melhores formas possíveis para garantir tanto a questão do direito ao ensino e à aprendizagem de qualidade, como também que o aluno que optar por não estudar nesse momento não tenha grandes prejuízos na sua caminhada acadêmica", conta Kelly.

Salas de aula ao ar livre viram alternativa

No Ceará, as instituições aguardam sinalização do Governo estadual para voltar a receber estudantes nos campi. Em Fortaleza, outra cidade que figura entre as cinco com mais casos de Covid-19 no país, a Universidade de Fortaleza (Unifor) aproveitou a estrutura do campus para pensar uma forma inovadora e segura de dar aula: adaptando a área externa do campus para a realização de atividades.

(Foto: Ares Soares/Unifor/Reprodução)
unifor salas ao ar livre volta as aulas
Três salas de aula ao ar livre já foram instaladas na Unifor

“O nosso Campus tem uma cobertura vegetal esplendorosa, propícia, pelos aspectos de microclima natural e sombreamento, para abrigar as salas de ar ao ar livre", contou Euler Muniz, professor de Arquitetura e Urbanismo e assessor de Planejamento Curricular da Vice-Reitoria de Graduação da Unifor ao portal da faculdade.

“Claro que vamos programar aulas de disciplinas mais adequadas para as salas de aula ao ar livre, levando-se em conta conteúdos e dinâmicas específicas, que estejam relacionadas a esse novo ambiente”, completa.

No exterior, universidades viram exemplo para retomada

Segundo Eduardo Raupp, o GT Pós-Pandemia da UFRJ se espelha em uma lista das principais universidades do mundo para consultar iniciativas que já tiveram sucesso e possam inspirar ações da instituição carioca. Para isso, a equipe usa o rankings universitários internacionais, e procuram exemplo de universidades mais bem posicionadas de países como Estados Unidos, Portugal, Espanha, Inglaterra e China.

Nos Estados Unidos, país com o maior número de óbitos pela Covid-19 no mundo, as universidades se preparam para abrir os campi e retomar atividades presenciais no semestre de outono, com início das aulas ainda no final de agosto.

(Foto: Reprodução)
A Universidade de Michigan, nos EUA, tem retorno agendado para o dia 31 de agosto

A Universidade de Michigan (U-M), estado localizado ao norte e que somou cerca de 87 mil casos do coronavírus e mais de 6 mil mortes até o dia 27 de julho, está com o calendário preparado para o retorno no dia 31 de agosto ao seu principal campus, na cidade de Ann Arbor. Para organizar toda a retomada, a universidade contou com o apoio de uma equipe de especialistas em saúde pública, que orienta todas as necessidades para um retorno seguro.

"A universidade estabeleceu diversos comitês e grupos de trabalho para focar nos diferentes aspectos do plano de retorno ao campus para o semestre de outono", conta Rick Fitzgerald, diretor de relações públicas da U-M. 

É muito comum que grande parte dos estudantes norte-americanos vivam no próprio campus universitário. Em Michigan, várias medidas têm sido tomadas para uma experiência segura de retorno para todas as atividades acadêmicas e a socialização entre os alunos.

"Nos salões da residência no campus, planos estão sendo desenvolvidos para aumentar eventos e encontros virtuais para manter os estudantes conectados. Todo mundo no campus - professores, funcionários e estudantes - precisará usar máscara, dentro dos prédios e na área externa do campus para manter todos nós o mais seguro possível", explica o diretor da U-M.

"Nossa sensação é que a maioria dos estudantes está ansiosa para voltar ao campus no semestre do outono, mas muitos também estão preocupados com a situação da pandemia em Ann Arbor quando as aulas voltarem", conta o diretor de relações públicas da Universidade de Michigan, Rick Fitzgerald.

(Foto: Reprodução)
maior estádio do mundo
Com capacidade para mais de 107 mil pessoas, o estádio da Universidade de Michigan é o segundo maior do mundo

Uma das principais paixões dos estudantes nos EUA, os esportes universitários também terão de ser adaptados para um possível retorno. O estádio da Universidade de Michigan é o segundo maior do mundo, com capacidade para mais de 107 mil torcedores, aglomeração que não deve acontecer tão cedo nas arquibancadas.

 "Ainda não sabemos, por exemplo, se o time de futebol americano da U-M vai jogar neste outono. Contudo, a Atlética da universidade tem desenvolvido um plano para limitar o número de torcedores no estádio, se os jogos forem aprovados", relata Rick.

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