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Débora Garofalo é a primeira brasileira finalista do Global Teacher Prize

por Isabela Giordan em 14/03/19 430 visualizações
O aluno que eu quero que saia daqui é aquele que está preparado e que sabe que não é essa comunidade que determina o que eles podem ser na vida, quem determina o que eles podem ser na vida são eles mesmos. 

Nascida e criada em São Paulo (SP), a professora de informática Débora Garofalo está transformando a vida de alunos de uma escola da rede pública da cidade com o auxílio da tecnologia . E, como resultado do seu esforço, ela se tornou a primeira mulher brasileira finalista do Global Teacher Prize, considerado o "Nobel da Educação".

Foto: divulgação

Como tudo começou?

Formada em Letras e Pedagogia e mestranda em Educação, Débora é professora há 14 anos, mas foi há quatro que ela conquistou o cargo de orientadora de informática educacional e começou a mudar a forma com que os alunos da EMEF Almirante Ary Parreiras enxergavam o ambiente escolar. 

"Me inquietava um pouco saber que os nossos alunos saiam tão despreparados do nosso Ensino Médio. Então, quando eu vim para cá, surgiu a oportunidade de ser professora de tecnologias e eu pensei 'preciso introduzir na vida dessas crianças a programação e a robótica'", conta em entrevista para o Sala de Estudosprojeto da plataforma Quero Bolsa, criado para ouvir quem pensa, quem faz e quem teve a vida transformada para educação.

Por isso, Débora começou a se aproximar dos alunos para descobrir quais eram os problemas impactavam o dia a dia daquela comunidade e que poderiam ser solucionados com o uso da tecnologia, assim surgiu o Projeto Robótica com Sucata

"Eu olhei para essa questão do lixo e percebi que ele tinha esse potencial transformador, e o projeto nasceu daí, de olhar um pouco para essa comunidade e ter essa possibilidade de transformação", relembra a professora.

Nele, os alunos utilizam materiais recicláveis, que são recolhidos pelos próprios estudantes no bairro em que moram, para criar novas tecnologias. O primeiro protótipo a sair do rascunho foi um carrinho movido a bexiga, que, ao funcionar, chamou a atenção de todos da turma e foi o pontapé inicial para a mudança que o projeto traria para os alunos e para a comunidade.

Com o sucesso da ideia, a turma cresceu e, agora, Débora é responsável por mais de 1000 alunos no Robótica com Sucata. No total, já foram reciclados mais de 700 quilos de sucata e desenvolvidos diversos produtos em sala de aula como, por exemplo, um semáforo, uma mão-mecânica e um aspirador de pó.

Foto: divulgação

Desde o início do projeto, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), indicador de qualidade das escolas de Ensino Básico do Ministério da Educação (MEC), subiu de 4.2 para 5.2. Além disso, neste ano, um ex-aluno da turma de robótica foi aprovado no curso de Física da Universidade de São Paulo (USP), uma das universidade mais concorridas do Brasil.

Para Débora, além de todo o ganho intelectual que os alunos estão conquistando, o grande resultado do projeto é que os alunos mudaram a concepção que tinham sobre si.

Por estar localizada em uma comunidade carente, muitos dessas alunos foram obrigadas a crescer ao redor da violência e da pobreza, com muitos acreditando que aquele era o destino deles, mas, com a possibilidade de se tornar um criador e descobrir que eles também são capazes fazer algo com as próprias mãos, conseguiram mudar de perspectiva.

"Eram crianças que tinham a autoestima extremamente baixa e, de repente, eles se descobrem como fazedores e criadores com um potencial enorme de transformar o lixo em objetos incríveis. O aluno que eu quero que saia daqui é aquele que está preparado e que sabe que não é essa comunidade que determina o que eles podem ser na vida, quem determina o que eles podem ser na vida são eles mesmos", comemora a professora.

Mulher na tecnologia?

Apesar do bom resultado do projeto, Débora teve que lidar com a desconfiança dos alunos, principalmente dos meninos, sobre a sua capacidade em ensinar informática e programação. 

Isso aconteceu devido à ideia machista, mas perpetuada na sociedade, de que lugar de mulher não é na tecnologia. Com isso, a professora precisou se provar diversas vezes para que eles tivessem a certeza de que ela era capacidade para as aulas.

Veja também: 11 mulheres que mudaram a educação no mundo

"No começo não foi fácil, porque eu era mulher e senti dos meus alunos meninos, de 11 a 14 anos, também fruto dessa comunidade que é muito machista, que eles ficavam me testando o tempo todo. Principalmente para saber se eu tinha os conhecimentos que eu ensinava eles a aplicar. Ai, com muita sutiliza e diálogo, eu mostrava para eles que sim, eu tinha esse conhecimento, mas que eu estava ali para aprender com eles", recorda.

Hoje em dia, além de ser não só uma autoridade sobre o assunto na comunidade, ela ainda é um exemplo para diversas meninas que cresceram ouvindo que não tinham capacidade para aprender sobre programação e robótica.

Seja na sala de aula, em congressos ou no Nobel da Educação, Débora se tornou algo muito maior do que o projeto que surgiu uma escola da periferia de São Paulo, hoje ela é inspiração para meninos, meninas, homens, mulheres e docentes em todo mundo. 

O resultado do Global Teacher Prize será divulgado no dia 24 de março de 2019 no Fórum Global de Educação e Habilidades, realizado em Dubai.

Saiba mais: “Nobel da Educação”: conheça o Global Teacher Prize
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