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Literatura

A Hora da Estrela

Bárbara Gonçalves
Publicado por Bárbara Gonçalves
Última atualização: 8/1/2019

Introdução

Em 1977, Clarice Lispector lançou seu último romance, intitulado A Hora da Estrela. Nele, um narrador fictício, chamado Rodrigo S. M., escreve sobre a vida da jovem Macabéa e faz reflexões sobre suas superstições e ideais. A obra é repleta de questões filosóficas e existenciais, como é típico de sua autora. Além disso, traz uma longa ponderação sobre a condição humana.

A obra

A Hora da Estrela é o retrato da jovem datilógrafa alagoana Macabéa, que migra para o Rio de Janeiro e tem novas experiências na cidade grande. A narrativa traz conflitos e reflexões existenciais da protagonista e também daquele que conta sua história, Rodrigo S. M.

O livro possui, na realidade, 13 títulos. Segundo a autora, isso ajuda o leitor a desvendar a obra, já que eles se tratam de momentos marcantes da narrativa, que não se divide em capítulos.

Nessa obra, é possível identificar algumas das principais características da chamada terceira fase modernista brasileira, entre elas:

  • análises psicológicas profundas das personagens;
  • intimismo;
  • fluxo de consciência (ou seja, digressões, escassez de pontuação e metalinguagem), explicitado por uma linguagem elaborada.

Outra característica própria das obras de Clarice Lispector, que também aparece em A Hora da Estrela, é a presença de monólogos, nos quais o personagem fala consigo mesmo expressando seus pensamentos e conflitos internos.

O próprio narrador passa parte considerável do livro ponderando suas razões e questionamentos para contar a história de Macabéa. Muitas vezes, a linguagem se sobrepõe aos fatos da história dela.

Como veremos mais adiante, o enredo é fragmentado e não conta com uma estrutura tradicional, linear, de narrativa. É a isso que se deve a dificuldade de classificarmos esse e outros livros de Clarice Lispector segundo um gênero literário específico.

Quem foi Clarice Lispector?

Clarice Lispector nasceu em 1920 na Ucrânia, mas se naturalizou brasileira e afirmava não ter relação alguma com o país de nascimento. Quando questionada, dizia ser pernambucana.

Considerada uma das mais relevantes escritoras brasileiras do século XX, ela produziu uma grande variedade de gêneros literários, como romances, contos, livros infantis e ensaios, além de obras que mesclam características de diversos gêneros. A subjetividade é uma característica comum aos seus textos.

A autora também dominava pelo menos sete idiomas e realizou muitos trabalhos como tradutora durante toda a sua vida.

Personagens comuns em momentos cotidianos estão muitos presentes em sua produção literária. Geralmente, esses personagens passam por um momento de epifania, o que significa que eles subitamente têm um pensamento iluminado que ajuda a compreender a essência de algo.

Enredo

Como já dissemos, A Hora da Estrela é um romance que trata da história de Macabéa, uma moça extremamente ingênua que tenta sobreviver e se adaptar em meio a uma cultura diferente da sua. Depois de uma infância difícil, solitária e violenta, ela migra com sua tia de Alagoas para o Rio de Janeiro.

Sua vida é simples e pobre, e nela não acontecem grandes reviravoltas ou emoções. Ela segue solitária e cheia de manias. Em certo momento, a personagem inicia um namoro com o também pobre e migrante Olímpico de Jesus.

Porém, esse relacionamento não dura muito tempo, já que ele abandona Macabéa para ficar com Glória. Colega de trabalho de Macabéa, Glória era filha de um açougueiro e um casamento com ela representaria para Olímpico uma ascensão social e financeira.

Depois do fim do seu namoro, Macabéa vai ao médico em busca de um diagnóstico para as dores que vinha sentindo e sai com a informação de que havia contraído tuberculose.

Embora Macabéa não tivesse contado para ninguém sobre seu sofrimento, Glória percebe que havia algo errado com sua colega e a aconselha a se consultar com uma cartomante. Macabéa faz isso e sai com a esperança de que seu futuro seria feliz. Segundo a cartomante, a protagonista se casaria com um homem bonito, loiro, estrangeiro.

Assim que sai na rua depois dessa revelação, porém, acontece um anticlímax. As perspectivas do leitor e da própria personagem são frustradas, pois ela morre vítima de um atropelamento. Ironicamente, nesse momento, a promessa da cartomante de certa forma se cumpre: é uma Mercedes conduzida por um homem loiro que a atropela. 

Os episódios da história de Macabéa são contados para nós de forma intercalada com as reflexões do narrador, que também é um personagem do livro. Ele teria visto Macabéa enquanto andava pelas ruas do Rio de Janeiro e tido uma epifania, identificando nela um ponto de desespero no meio da multidão.

Rodrigo S. M., no decorrer do livro, questiona as formas de denúncia das mazelas sociais e se sente culpado pela sua condição social e financeira privilegiada. Ao mesmo tempo, ele reflete sobre a construção de obras literárias, o ato de escrever e a limitação da literatura como forma de expressar e solucionar problemas existenciais e sociais.


Exercícios

Exercício 1
(ENEM/2013)

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.

[...]

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. [...] Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.

Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes. 

(LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro:  Rocco, 1998 (fragmento).

A elaboração de uma voz narrativa peculiar acompanha a trajetória literária de Clarice Lispector, culminada com a obra A hora da estrela, de 1977, ano da morte da escritora. Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade porque o narrador:

Ilustração: Rapaz corpulento de camiseta, short e tênis acenando

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