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Literatura

Dom Casmurro

Bárbara Gonçalves
Publicado por Bárbara Gonçalves
Última atualização: 10/1/2019

Introdução

"Olhos de ressaca": você conhece essa expressão? Ela é uma das metáforas mais bonitas da literatura brasileira, utilizada para descrever a força misteriosa dos olhos de uma moça amada. Ela foi escrita por Machado de Assis no romance Dom Casmurro. O livro tem um enredo marcado pelos temas do amor, do ciúme e da traição.

Capa da Primeira edição de Dom Casmurro, de 1899.

Capa da Primeira edição de Dom Casmurro, de 1899.

A Obra

Dom Casmurro é um romance realista voltado para a análise psicológica que foi publicado pela primeira vez em 1899. Ele é ambientado no Rio de Janeiro do Segundo Reinado e narrado em primeira pessoa por Bento Santiago, ou Bentinho, um homem branco e rico. 

Ele conta sua própria história desde a adolescência com o objetivo de tentar compreender se sua esposa, Capitu, era desde o início como ele a via após o casamento: uma mulher com inclinação à falsidade e à dissimulação.

O contexto histórico aparece de forma clara no enredo, que trabalha o tema das relações sociais. A elite brasileira da época é apresentada em sua ambiguidade: ao mesmo tempo em que parece progressista, não deixa de ser autoritária e patriarcal.

A linguagem do livro é culta e cheia de referências, mas também tem um tom de informalidade. O narrador é irônico e ousado e frequentemente se dirige ao leitor, parecendo conversar conosco. Ele provoca e até mesmo insulta seu próprio público-alvo. O objetivo disso era prender a atenção de quem estava lendo. Além disso, a intertextualidade e a metalinguagem são utilizadas.

Críticos literários consideram Dom Casmurro como o terceiro livro da "trilogia realista" de Machado de Assis, mas ele também apresenta características que retomam o Romantismo. 

A estrutura da história não é linear, ou seja, não segue uma ordem cronológica. Os eventos, reflexões e lembranças são contados conforme Bentinho deseja e na medida em que chegam à sua memória.

Dom Casmurro foi traduzido para diversas línguas desde sua primeira publicação. Também foi e ainda é adaptado de muitas formas e por diferentes mídias, como o cinema, a música, a televisão, o teatro, os quadrinhos e a própria literatura. 

Quem foi Machado de Assis?

Machado de Assis teve uma infância difícil no Rio de Janeiro. Era pobre e negro no Rio de Janeiro, além de gago e epilético. Porém, aprendeu muito estudando sozinho, ou seja, era autodidata.

Ele se tornou um dos maiores nomes da literatura brasileira e o fundador da Academia Brasileira de Letras. Escreveu em vários gêneros literários, tendo sido poeta, dramaturgo, romancista, contista, cronista, jornalista, folhetinista e crítico literário.

Machado de Assis causou uma revolução de conteúdo e estilo com sua obras inaugurando o Realismo na literatura brasileira. Além disso, o autor foi um observador atento do seu momento histórico (a virada do século XIX para o XX). Testemunhou a Abolição da Escravatura (1898) e a mudança política brasileira do Império para a República (1899) e fez análises que aparecem em suas histórias.

Enredo da obra

Bento Santiago é o narrador e personagem principal da história. Ele também é conhecido pelo apelido de Dom Casmurro. O adjetivo "casmurro" significa pessoa teimosa, fechada em si mesma, e foi atribuído a Bentinho quando ele era um senhor de idade e decidiu escrever um livro sobre suas histórias. Nesse momento, os outros personagens envolvidos (Capitu e Escobar) já estavam mortos.

Essas histórias começam contando que quando estava grávida, a mãe de Bentinho, chamada Dona Glória, fez uma promessa de que ele se tornaria padre. Porém, o que ela não esperava é que no início da adolescência seu filho se apaixonasse pela filha dos vizinhos, Capitu, e que essa paixão fosse recíproca.

Capitu tenta impedir que ele vá para o seminário, mas não consegue. Bentinho vai, mas planeja não se ordenar padre e, ao invés disso, ir para a faculdade de direito. É no seminário que ele conhece aquele que viria se tornar seu melhor amigo, Escobar.

Escobar também não tem vocação para a vida religiosa e consegue escapar do seminário junto com Bentinho. Para cumprir sua promessa, Dona Glória pagou as despesas para que um menino órfão se tornasse padre no lugar de seu filho. Bentinho se torna advogado, acaba se casando com Capitu e tendo um filho chamado Ezequiel. Escobar também arranja uma esposa.

Tudo ia bem para esses personagens, até que Bentinho, louco de ciúmes, começa a acreditar que Capitu estava cometendo adultério com seu amigo Escobar. Ele quase não se comunica com a própria esposa e somente os olhares e gestos da moça, não suas palavras, é que o fazem desconfiar da possível traição

Ele também duvida da própria paternidade, pensando que Ezequiel pode ser na verdade filho de Escobar. Nas últimas linhas do livro ele diz: "(...) que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... "

Capitu traiu ou não traiu Bentinho?

Nunca saberemos com certeza. Machado de Assis não nos dá provas em nenhum dos dois sentidos. A inovação do livro sobre o tema do ciúme e da traição é justamente apresentar um único ponto de vista: o de Bentinho, ou Dom Casmurro, nosso narrador-personagem que garante que foi traído. Ele toma por realidade fatos que podem ter sido imaginados e as versões das outras personagens não tem lugar na história. O ângulo da própria Capitu, em especial, é inacessível ao leitor. 

Ler Dom Casmurro é uma experiência muito envolvente e interessante. Ao mesmo tempo em que o livro diz muito sobre o Rio de Janeiro Imperial, ele também explora temas que seguem importantes e atuais.

O contato com os personagens de Machado de Assis, que são seres humanos palpáveis com mais defeitos do que virtudes, nos aproxima de uma análise de parte da sociedade brasileira do século XIX. Ele nos faz viajar no tempo, mas também nos ajuda a pensar sobre aspectos da nossa própria vida e da nossa própria sociedade. 


Exercícios

Exercício 1
(PUCCAMP-SP)

O trecho abaixo é parte do último capítulo de Dom Casmurro, de Machado de Assis:

“O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. I: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti”. Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.”

Invocando aqui a memória e o testemunho do leitor de sua história, o narrador arremata a narrativa:

Ilustração: Rapaz corpulento de camiseta, short e tênis acenando

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