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Português

Função emotiva

Bianca Ferraz
Publicado por Bianca Ferraz
Última atualização: 10/5/2019

Introdução

O linguista Roman Jackobson foi o estudioso responsável por desenvolver a teoria segundo a qual existem seis funções da linguagem.

Essa teoria se baseia na ideia de que os atos de linguagem podem ser divididos em seis componentes:

  • Emissor
  • Receptor
  • Mensagem
  • Contexto
  • Canal
  • Código

Cada um desses componentes se refere a uma determinada função da linguagem, de acordo com seus objetivos e características. Assim, ao focar em um desses componentes, um texto se aproxima mais da função da linguagem a qual esse componente se relaciona.

É válido ressaltar que, em um texto, diferentes funções da linguagem podem estar presentes. Mas, de acordo com o objetivo da produção, é possível identificar qual das funções é predominante.

De acordo com a divisão proposta pelo linguista, a função emotiva, que pode ser chamada também de expressiva, se caracteriza pelo foco no próprio emissor da mensagem, ou seja, ao enunciador do texto.

Por conta desse foco, os textos em que predomina a função emotiva são subjetivos, isto é, baseados em sentimentos ou opiniões próprias de seu emissor.

A centralização do emissor e de seus sentimentos costuma ficar clara pelo uso da primeira pessoa e de outros recursos linguísticos, como as reticências, as exclamações e as interjeições.

Todos esses elementos são mobilizados a fim de construir uma mensagem pautada pelos sentimentos do enunciador, caracterizando, assim, sua subjetividade.

As características da função emotiva ou expressiva

A função emotiva (ou expressiva) da linguagem é caracterizada, em primeiro lugar, pela sua subjetividade, ou seja, ela se constrói a partir de um ponto de vista pessoal do emissor da mensagem. Com isso, seu objetivo principal é de transmitir os sentimentos e as emoções do emissor, utilizando, para tal objetivo, a primeira pessoa, seja ela do singular ou do plural.

Para transmitir sentimentos e emoções pessoais, o texto em que predomina a função emotiva se vale, também, do uso de recursos de pontuação, como as reticências, as exclamações e as interrogações, além da ocorrência de interjeições.

A função emotiva da linguagem pode ser encontrada, de modo geral, em poemas, mas aparece, também, em outros tipos de produção do nosso dia a dia, como em depoimentos, entrevistas, cartas pessoais, memórias, autobiografias e músicas.

Legenda: A expressão das emoções do emissor é a principal característica da função emotiva ou expressiva

Exemplos de uso da função emotiva

Como já foi dito anteriormente, a função emotiva (ou expressiva) se faz presente, principalmente, em poemas.

Veja, a seguir, um poema de autoria de Cecília Meireles:

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.

Perceba que, nesse poema, é possível observar, em primeiro lugar, o uso da primeira pessoa do singular, o que caracteriza a subjetividade de textos em que a função emotiva é predominante.

Além disso, pode-se ver que as percepções e os sentimentos do emissor da mensagem assumem grande importância, destacando, portanto, a função emotiva da linguagem, que busca construir a mensagem a partir de um ponto de vista pessoal.

A função emotiva ou expressiva pode aparecer aliada à outra função da linguagem, a exemplo do que ocorre em muitos poemas que, pela sua natureza, apresentam a função poética da linguagem e, por transmitirem sentimentos pessoais, são formados, também, pela função emotiva.

Assim, vale reforçar que um mesmo texto pode apresentar diferentes funções da linguagem, mas haverá uma que é predominante.

Referências

JAKOBSON, Roman. 1960. Lingüística e poética. In: _____ . Lingüística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 1991


Exercícios

Exercício 1
(UNISUL/2016)

Leia o texto “Eu sei, mas não devia”, de Marina Colasanti:

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(Do livro "Eu sei, mas não devia", Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1996, p.9)

Todo texto utiliza-se de recursos para enfatizar a intenção (ou intenções) de quem o escreve. Portanto, quanto à “função de linguagem” predominante nesse texto, temos:

Ilustração: Rapaz corpulento de camiseta, short e tênis acenando

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