Contudo, a possibilidade de manter a dupla jornada de trabalho e estudo está diretamente ligada à renda. Os dados evidenciam abismos sociais:
- Por classe: Na classe A/B, 48% dos jovens conciliam as duas atividades. Na classe D/E, o índice despenca para apenas 16%. Consequentemente, a necessidade de apenas trabalhar salta de 28% (A/B) para 47% (D/E).
Outro fator de sobrecarga que afeta diretamente o desenvolvimento profissional é a divisão desigual das tarefas de cuidado.
Metade dos entrevistados é responsável pelos afazeres domésticos, mas o peso é desproporcional entre os gêneros: 60% das mulheres realizam os cuidados da casa, contra 40% dos homens.
Barreiras de entrada e o valor da experiência prática
Mesmo com um alto índice de ocupação geral, a busca por novas oportunidades é desafiadora. Seis em cada dez jovens procuraram emprego no último ano e 20% seguem em busca de uma vaga atualmente.
Ao elencar os principais obstáculos para conseguir um trabalho, os jovens apontam:
- Falta de experiência profissional (49%)
- Alta concorrência por vagas (39%)
- Dificuldade de deslocamento/transporte (28%)
- Falta de qualificação adequada (25%)
Para contornar a falta de experiência, o chamado “QI” (Quem Indica) e o foco no ensino prático ganham força. A pesquisa revelou que 77% dos jovens que já trabalharam conseguiram a vaga por indicação.
Além disso, 91% consideram os cursos técnicos e profissionalizantes a rota mais rápida para o mercado de trabalho, e nove em cada dez acreditam que aprendem mais na prática do que no modelo educacional tradicional.
Tecnologia, futuro e a busca por autonomia
A pesquisa também mediu as expectativas e os temores da juventude em relação ao futuro das profissões.
A tecnologia desponta como a principal ameaça para o grupo: 90% dos jovens temem que a inteligência artificial elimine muitos empregos nos próximos anos, e metade tem receio de perder oportunidades diretas para a IA.
Apesar das incertezas tecnológicas, o interesse pelas áreas de Saúde (25%) e Tecnologia (22%) lidera as projeções de carreira dos entrevistados.
Outro dado que chama a atenção é a mudança de perfil de contratação desejada. A estabilidade inicial da carteira assinada é o desejo atual de 30% dos jovens. Porém, ao projetarem suas carreiras para os próximos cinco anos, o interesse pelo vínculo formal cai pela metade (16%).
Para os especialistas do Observatório Fundação Itaú, o movimento não representa uma rejeição ao modelo formal, mas sim um projeto de construção de vida, em que os jovens buscam estabilidade para investir em autonomia no futuro.
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