A definição clássica apresentada por David Sackett e colaboradores descreve a medicina baseada em evidências como o uso consciente, explícito e criterioso da melhor evidência disponível para tomar decisões sobre o cuidado de pacientes individuais. Essa abordagem também destaca que a evidência científica, sozinha, não é suficiente: ela precisa ser integrada à experiência clínica.
Por isso, dizer que uma conduta é baseada em evidências não significa simplesmente encontrar um artigo científico que apoie determinada prática. É necessário avaliar se a pesquisa é confiável, se responde à pergunta clínica e se seus resultados podem ser aplicados àquele paciente.
Essa distinção é importante porque nem toda publicação científica apresenta o mesmo grau de confiabilidade. Um estudo pode ter limitações metodológicas, uma amostra muito específica ou resultados que não podem ser generalizados para todas as pessoas.
A MBE também surgiu em um contexto de expansão da pesquisa clínica e de aumento da quantidade de informações disponíveis para os profissionais de saúde. A proposta era tornar mais explícito o processo de localizar, avaliar e utilizar evidências relevantes na tomada de decisões.
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Quais são os componentes da Medicina Baseada em Evidências?
Na formulação clássica, a MBE integra quatro elementos principais: a melhor evidência científica disponível, a experiência clínica do profissional, os valores e preferências do paciente e contexto. As circunstâncias individuais também fazem parte da aplicação da abordagem, enquanto formulações contemporâneas dão maior destaque ao contexto em que a decisão acontece.
Nenhum desses elementos, isoladamente, é suficiente para definir uma conduta.
Evidência científica
É o conhecimento produzido por pesquisas que pode ajudar a responder uma determinada questão clínica. Dependendo da pergunta, podem ser relevantes ensaios clínicos, estudos observacionais, revisões sistemáticas, pesquisas sobre testes diagnósticos, prognóstico e outras formas de investigação.
A ideia não é considerar qualquer publicação como igualmente confiável. A qualidade metodológica e a adequação do estudo à pergunta clínica precisam ser avaliadas antes que seus resultados sejam utilizados na tomada de decisão.
Experiência clínica
A experiência do profissional ajuda a interpretar os resultados das pesquisas e aplicá-los a situações concretas. É por meio dela que o médico avalia aspectos como características do paciente, possíveis diagnósticos, riscos, benefícios e limitações das opções disponíveis.
A definição clássica da MBE deixa claro que a experiência clínica não deve ser eliminada pela evidência científica. Os dois elementos devem ser integrados, porque uma evidência pode não ser diretamente aplicável a todos os pacientes.
Valores e preferências do paciente
Uma decisão clínica também precisa considerar aquilo que é importante para a pessoa atendida. Preferências, objetivos, tolerância a riscos, expectativas e circunstâncias individuais podem influenciar a escolha entre diferentes alternativas.
Por exemplo, duas opções de tratamento podem apresentar benefícios semelhantes, mas efeitos adversos diferentes. Nesse cenário, a preferência do paciente pode fazer parte da decisão sobre qual alternativa será adotada.
Contexto e recursos disponíveis
A decisão também acontece dentro de um contexto específico. A disponibilidade de medicamentos, exames, profissionais, equipamentos e outros recursos pode influenciar a possibilidade de aplicar determinada evidência na prática.
Além disso, características sociais, familiares e organizacionais podem interferir na forma como uma conduta será realizada. Por isso, uma evidência científica precisa ser interpretada dentro da realidade em que será aplicada, e não de maneira isolada.
| Componente |
O que representa |
Pergunta orientadora |
| Evidência científica |
Resultados de pesquisas avaliados quanto à qualidade e relevância |
O que as melhores evidências disponíveis mostram? |
| Experiência clínica |
Conhecimento e julgamento desenvolvidos pelo profissional |
Como essa evidência se aplica à situação clínica? |
| Valores do paciente |
Preferências, prioridades e tolerância a riscos |
O que é mais importante para esta pessoa? |
| Contexto e recursos |
Condições clínicas, institucionais e materiais disponíveis |
O que é possível aplicar neste contexto? |
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Quais são as etapas da Medicina Baseada em Evidências?
A MBE não se resume ao resultado final de uma pesquisa. Ela envolve um processo estruturado de tomada de decisão, que pode ser organizado em cinco etapas: formular a pergunta, buscar as evidências, avaliá-las criticamente, integrá-las à situação do paciente e avaliar o próprio desempenho.
1. Formular uma pergunta clínica
O primeiro passo é transformar uma dúvida que surgiu durante o atendimento em uma pergunta que possa ser respondida por meio da literatura científica.
Uma pergunta genérica como “qual é o melhor tratamento para hipertensão?” é muito ampla. Uma questão mais específica pode envolver determinado perfil de paciente, uma intervenção, uma comparação e um desfecho que se deseja analisar.
Uma ferramenta frequentemente utilizada para estruturar esse tipo de pergunta é o PICO, formado por:
- P: população ou paciente;
- I: intervenção;
- C: comparação;
- O: desfecho (outcome).
Essa estrutura ajuda a direcionar a busca e a encontrar estudos mais relacionados ao problema clínico apresentado.
2. Buscar as melhores evidências disponíveis
Depois de definir a pergunta, é necessário procurar informações capazes de respondê-la.
Essa busca pode envolver bases de dados científicas, revisões sistemáticas, diretrizes clínicas e estudos primários, dependendo do tipo de dúvida. O objetivo é localizar evidências relevantes e confiáveis, e não simplesmente encontrar o primeiro artigo que confirme uma hipótese.
A estratégia de busca também precisa considerar o tipo de pergunta. Questões sobre diagnóstico, tratamento, prognóstico ou prevenção podem exigir desenhos de estudo diferentes.
3. Avaliar criticamente as evidências
Encontrar um estudo não significa que seus resultados devem ser imediatamente utilizados.
É necessário analisar aspectos como qualidade metodológica, risco de viés, tamanho e precisão do efeito, características da amostra e aplicabilidade dos resultados.
Também é importante verificar se o estudo realmente responde à pergunta formulada. Uma pesquisa pode ser metodologicamente bem conduzida, mas ainda assim não ser diretamente aplicável a determinado paciente ou contexto.
4. Integrar a evidência ao caso clínico
Depois da avaliação, o conhecimento obtido precisa ser combinado com a experiência profissional e com as características da pessoa atendida.
Considere, por exemplo, um paciente idoso com pressão arterial elevada e função renal reduzida. O profissional pode buscar evidências sobre diferentes tratamentos anti-hipertensivos, avaliar a qualidade dessas pesquisas e, em seguida, verificar se os participantes dos estudos apresentam características semelhantes às do paciente.
A decisão final também deve considerar riscos, benefícios, preferências do paciente e condições disponíveis para o tratamento.
Esse processo demonstra por que medicina baseada em evidências não é sinônimo de seguir uma recomendação automaticamente. A evidência orienta a decisão, mas sua aplicação depende do contexto.
5. Avaliar os resultados
A última etapa consiste em verificar o que aconteceu depois da decisão.
O profissional pode analisar se o resultado esperado foi alcançado, se surgiram efeitos adversos, se a conduta precisa ser modificada e se a própria decisão poderia ter sido conduzida de outra maneira.
Assim, a MBE também funciona como um processo de aprendizado contínuo. A literatura pode mudar, novas evidências podem surgir e a experiência acumulada com os pacientes pode modificar a maneira como determinadas decisões são tomadas.
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