Naturalismo no Brasil: características, autores e principais obras
Publicado por Fábio Vieira | Última atualização: 3/8/2026Índice
Introdução
O Naturalismo no Brasil levou ao romance a ambição de observar conflitos sociais e comportamentos humanos com vocabulário próximo ao das ciências do século XIX. A escola denuncia desigualdades, mas também reproduz teorias deterministas e preconceitos de seu tempo, aspecto decisivo para uma leitura crítica no Enem.
Resumo: o que você precisa saber
- O marco convencional é O mulato, de Aluísio Azevedo, publicado em 1881.
- Determinismo, influência do meio, hereditariedade, coletividade e materialidade corporal são traços recorrentes.
- O cortiço transforma o espaço coletivo em agente da narrativa e expõe relações de classe, raça e exploração.
- A leitura atual deve reconhecer tanto a crítica social quanto os limites racistas e biologizantes do século XIX.
Como o Naturalismo se formou?
A estética dialoga com Émile Zola, com o positivismo e com interpretações deterministas então apresentadas como científicas. O romance seria uma espécie de laboratório: personagens submetidas a condições de ambiente, corpo e sociedade revelariam mecanismos do comportamento. Hoje, muitas dessas teorias estão superadas, mas sua presença explica a composição das obras.
No Brasil, abolição, urbanização, imigração, crise do Império e desigualdade racial oferecem matéria ao romance. Em 1881, O mulato critica racismo e hipocrisia em São Luís. No mesmo ano, Memórias póstumas de Brás Cubas marca o Realismo machadiano, mostrando que escolas coexistem e adotam estratégias diferentes.
Quais são as características naturalistas?
O narrador tende a observar personagens de fora, descrevendo corpo, ambiente e impulsos. Espaços coletivos, como cortiços e pensões, recebem grande importância. A linguagem pode aproximar seres humanos do mundo animal, procedimento chamado zoomorfização, e mostrar ações como efeito de forças que parecem escapar à vontade individual.
O determinismo articula três eixos frequentes: hereditariedade, meio e momento histórico. Isso não significa que todo episódio seja explicado pelos três ao mesmo tempo. Em uma questão, é preciso verificar qual relação o trecho efetivamente constrói. Veja a síntese do Naturalismo no Manual do Enem.
Como interpretar O cortiço?
O romance de 1890 acompanha o enriquecimento de João Romão, a exploração de Bertoleza e a transformação de uma habitação coletiva no Rio de Janeiro. O cortiço não é mero cenário: ruídos, calor, trabalho, festas e conflitos fazem dele uma entidade dinâmica. A ascensão de João Romão depende de acumulação, violência e apagamento das pessoas que explora.
Bertoleza é central para perceber a articulação entre escravidão, gênero e classe. Mesmo após a Abolição, sua vulnerabilidade é utilizada pelo comerciante. Rita Baiana, Jerônimo, Pombinha e outros personagens são construídos por esquemas deterministas; a obra critica a sociedade, mas também recorre a estereótipos raciais e sexuais.
Uma leitura atual deve sustentar as duas dimensões: o romance oferece diagnóstico poderoso da exploração e, ao mesmo tempo, está preso a discursos pseudocientíficos do século XIX. Avaliar essa tensão é mais produtivo do que tratar a obra como documento neutro.
Naturalismo e Realismo: qual é a diferença?
O Realismo de Machado de Assis privilegia ironia, foco narrativo instável e autoengano das elites. O Naturalismo de Aluísio Azevedo enfatiza coletividade, corpo e pressão do meio. Ambos criticam a sociedade e recusam a idealização romântica, mas constroem conhecimento literário por meios diferentes.
Também não se deve confundir autor e narrador. Uma descrição preconceituosa pode integrar o sistema de valores da obra sem ser uma declaração direta do escritor. Ainda assim, o leitor deve examinar os efeitos do texto e os limites históricos de sua representação.
Como resolver questões sobre Naturalismo?
Marque no fragmento referências a corpo, instinto, calor, espaço, multidão ou hereditariedade. Depois observe se essas imagens explicam o comportamento. A resposta correta geralmente conecta recurso formal e visão de mundo, em vez de apenas apontar vocabulário descritivo.
Pegadinhas comuns incluem chamar qualquer descrição minuciosa de Naturalismo, confundir zoomorfização com fábula e supor que crítica ao racismo elimina estereótipos raciais. Compare o trecho com o romance romântico, que tende a idealizar indivíduo e amor, e com Machado, cuja ironia revela contradições por outro caminho.
Exercício de fixação
Em uma narrativa, o ambiente abafado e a vida coletiva são apresentados como forças que moldam desejos e conflitos das personagens. Esse procedimento exemplifica:
- A) determinismo do meio.
- B) idealização indianista.
- C) impessoalidade parnasiana.
- D) nacionalismo épico.
- E) metalinguagem concretista.
Gabarito: A. O espaço atua sobre o comportamento, traço central do determinismo naturalista. É preciso observar a relação causal construída, não apenas a presença de descrição.
Conclusão
O Naturalismo brasileiro combina investigação social, técnica narrativa e teorias hoje contestadas. Ler O cortiço exige compreender o papel do espaço coletivo, a exploração econômica e os estereótipos do período. Compare com o Realismo para consolidar as diferenças.
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Referências
- BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 43. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
- CANDIDO, Antonio. De cortiço a cortiço. In: CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004.
- AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1890.
