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Apagão dos professores: veja repertórios para usar na redação

Pesquisa aponta envelhecimento dos docentes e queda na presença de jovens na carreira; especialistas explicam como abordar o “apagão de professores” em uma redação e indicam repertórios



Em resumo:

  • Pesquisa recente mostra queda de 31,1% no número de professores de até 24 anos no ensino médio entre 2015 e 2023, enquanto o grupo com 60 anos ou mais cresceu 104,5%;
  • “Pedagogia do Oprimido”, “Sociedade do Cansaço”, “Sociedade dos Poetas Mortos” e o PNE estão entre os repertórios possíveis para uma redação do Enem sobre “apagão dos professores”;
  • Baixa remuneração, sobrecarga, condições de trabalho e desvalorização podem funcionar como causas, enquanto precarização da aprendizagem, sobrecarga e desigualdade educacional podem ser exploradas como consequências.

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Dados divulgados pelo Instituto Semesp mostram que, entre 2015 e 2023, o número de professores do ensino médio com até 24 anos caiu 31,1%, passando de cerca de 17 mil para 12 mil. No sentido contrário, o contingente de docentes com 60 anos ou mais aumentou 104,5%, de aproximadamente 18 mil para 37 mil.

O levantamento chama atenção para um problema de renovação da categoria e um possível “apagão dos professores” no Brasil. Isso porque à medida que uma parcela dos profissionais se aproxima da aposentadoria, será necessário atrair novos docentes em quantidade suficiente para ocupar essas vagas.

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Para a Diretora de Soluções Complementares na Cogna Educação, Luciana Patrocínio, o problema envolve tanto o envelhecimento da categoria quanto a dificuldade de atrair jovens para a profissão.

“Por trás desse cenário estão fatores como baixos salários, sobrecarga de trabalho, precarização das condições profissionais e a persistente desvalorização social do professor, especialmente na rede pública”, enumera Patrocínio.

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Dada a importância do tema, juntamente com a tradição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em cobrar temas sociais na redação, o “apagão dos professores” pode cair na prova. E quais argumentos, repertórios, obras e propostas de intervenção podem ser associados ao assunto? Veja a seguir!

Apagão de professores

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O que é o apagão dos professores?

A expressão “apagão dos professores” é utilizada para descrever o risco de falta de docentes em quantidade suficiente para atender à educação básica nos próximos anos.

A segunda edição do estudo do Instituto Semesp concentra a análise no ensino médio e observa justamente a capacidade de renovação do quadro docente, considerando o envelhecimento dos profissionais e a entrada de professores mais jovens.

Para medir esse cenário, o levantamento utiliza a Taxa de Renovação Docente, que relaciona o número de professores com até 24 anos ao de profissionais com 60 anos ou mais. Quanto menor o índice, maior o alerta para dificuldades na renovação.

Algumas áreas já apresentam índices baixos. No levantamento mais recente, Geografia registrou taxa de 0,216, o equivalente a aproximadamente um professor jovem para cada cinco professores mais velhos. História aparece com 0,234; Língua Portuguesa, com 0,240; Sociologia, com 0,263; Filosofia, com 0,274; e Artes, com 0,278.

A projeção apresentada pelo estudo indica que a taxa média pode chegar a 0,17 em 2040, cenário equivalente a aproximadamente um professor de até 24 anos para cada seis docentes com 60 anos ou mais.

Na prática, a falta de profissionais já é percebida em algumas escolas. A professora de Língua Inglesa da Secretaria de Estado da Educação de Goiás, Bárbara Liz, relata que a unidade em que trabalha começou o ano letivo com déficit de docentes.

Segundo a professora, a ausência dos profissionais teve reflexos na organização das aulas e na aprendizagem: “a gente viveu janeiro, fevereiro e março sem a quantidade adequada de professores por sala, o que atrapalha todo o processo. Era complicado para dar aula e para gerir os alunos, porque eles tiveram que ter vários tipos de reagrupamento e recomposições de aprendizagem.”

Bárbara Liz afirma também perceber uma redução na procura de estudantes por estágios nas escolas. Segundo ela, colegas mais experientes relatam que era mais frequente receber futuros professores interessados em estagiar nas unidades de ensino.

Apagão dos professores pode ser tema da redação do Enem 2026?

Não é possível saber antecipadamente qual será o tema da redação do Enem 2026. O Inep mantém a proposta em sigilo até a aplicação da prova.

A Cartilha do Participante de 2026 informa que o candidato deverá escrever um texto dissertativo-argumentativo sobre um tema de ordem social, científica, cultural ou política, defendendo um ponto de vista com argumentos consistentes e apresentando uma proposta de intervenção.

Na avaliação de Luciana Patrocínio, o apagão dos professores possui características compatíveis com o perfil de assuntos que podem ser explorados pelo exame.

“Considerando que o assunto nunca foi abordado anteriormente e se adequa aos perfis de tema exigidos pelo exame, é possível que ele seja a temática escolhida para a prova de redação em 2026. Isso pois o Enem costuma privilegiar problemáticas sociais intrínsecas ao contexto brasileiro, como é o caso do apagão dos professores”, afirma Patrocínio.

Independentemente de aparecer ou não no Enem, conhecer a discussão pode ajudar o estudante a ampliar seu repertório sobre educação, valorização profissional, desigualdade educacional, mercado de trabalho e políticas públicas.

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Quais argumentos usar em uma redação sobre apagão dos professores?

Uma redação sobre o tema pode partir de diferentes causas para explicar por que o Brasil enfrenta dificuldades para renovar seu quadro docente. Luciana Patrocínio destaca quatro eixos que podem ser desenvolvidos pelo candidato: baixa remuneração, desvalorização social, sobrecarga profissional e condições precárias de trabalho.

A questão salarial pode ser associada à atratividade da carreira. Dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) citados pelo estudo mostram que, em 2025, professores do ensino médio recebiam aproximadamente R$ 6,5 mil mensais, enquanto trabalhadores com ensino superior completo tinham renda mensal média de R$ 8,1 mil. Isso significa uma diferença de cerca de 20%.

A sobrecarga também pode aparecer na argumentação. Segundo Patrocínio, “as tarefas não se resumem à sala de aula, pois é preciso ainda planejar as aulas, elaborar e corrigir provas, participar de reuniões e de formações específicas, entre outras atribuições.”

Bárbara Liz descreve percepção semelhante a partir da experiência em sala de aula: “a remuneração, mesmo quando é a melhor possível, ainda não é condizente com a carga de trabalho e com o tempo que o professor dedica às atividades. É um trabalho que não para praticamente em nenhum momento.”

A professora ainda acrescenta que o acúmulo de responsabilidades que ultrapassam o conteúdo das disciplinas também interfere na experiência profissional. “Professor, com ou até sem escolha, se vê precisando ser muitas pessoas em um”, aponta Bárbara Liz.

Quais consequências do apagão dos professores podem aparecer na redação?

Uma possibilidade é dividir a argumentação entre causas e consequências. Luciana Patrocínio aponta três efeitos que podem ser explorados: aumento da precarização da aprendizagem, maior sobrecarga dos profissionais que permanecerem na carreira e ampliação das desigualdades educacionais.

A especialista chama atenção ainda para o impacto desigual do problema: “regiões historicamente mais marginalizadas, que sofrem com falta de infraestrutura e já enfrentam dificuldades para captar professores, seriam as mais prejudicadas, acentuando ainda mais as disparidades sociais.”

O relato de Bárbara Liz oferece outro caminho argumentativo: discutir não apenas quantos professores estarão disponíveis, mas também os impactos que uma reposição insuficiente ou pouco estruturada pode provocar na formação dos estudantes. “Isso vai tornar a educação cada vez mais rasa, escassa, sem intencionalidade pedagógica e sem a busca de uma formação cidadã”, explica a professora.

A professora ainda relaciona a atuação docente ao desenvolvimento de competências que ultrapassam o conteúdo curricular: “muito antes de saber uma fórmula, de saber uma regra gramatical, o aluno precisa saber conviver em sociedade, ter os seus direitos básicos, ter capacidade argumentativa, interpretativa e de mundo.”

Quais repertórios usar sobre o apagão dos professores?

A Cartilha do Enem orienta que o participante mobilize conhecimentos construídos ao longo de sua formação e os articule à argumentação.

A Diretora de Soluções Complementares na Cogna Educação reforça que a escolha deve estar vinculada ao argumento desenvolvido: “para a escolha dos repertórios, é importante ter em mente que eles devem estar diretamente relacionados à temática para que haja um aproveitamento produtivo no texto.”

A orientação coincide com os critérios apresentados pelo Inep: o repertório precisa contribuir efetivamente para o desenvolvimento da argumentação, e não simplesmente aparecer como uma referência isolada.

Para uma redação sobre o apagão dos professores, Luciana Patrocínio sugere quatro repertórios:

  • “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire: a obra pode ser relacionada ao papel da educação na formação social e crítica dos indivíduos. Em uma redação, o estudante pode utilizar o pensamento de Freire para discutir por que a valorização do professor também está relacionada à própria função social da educação.
  • “Sociedade do Cansaço”, de Byung-Chul Han: a obra pode ajudar a desenvolver uma argumentação sobre sobrecarga, excesso de responsabilidades e esgotamento no trabalho, relacionando esses elementos às condições enfrentadas por professores.
  • “Sociedade dos Poetas Mortos”: o filme permite abordar o papel do professor na formação crítica dos estudantes e a influência que o educador pode exercer para além da transmissão de conteúdos.
  • Plano Nacional de Educação (PNE): pode servir de referência para discutir políticas de valorização dos profissionais da educação e estabelecer uma relação entre objetivos estabelecidos pelo poder público e os desafios encontrados na realidade.

Como usar a pesquisa sobre o apagão dos professores como repertório?

A própria pesquisa do Instituto Semesp pode funcionar como repertório sociocultural em uma redação sobre educação. O candidato não precisa memorizar todos os números. Um dado representativo já pode ajudar a sustentar a argumentação.

Um exemplo é a inversão geracional observada no ensino médio: enquanto o número de professores com até 24 anos caiu 31,1% entre 2015 e 2023, o de docentes com 60 anos ou mais cresceu 104,5% no mesmo período.

O dado poderia aparecer no desenvolvimento para comprovar uma tese sobre a dificuldade de renovação do quadro docente.

Outra possibilidade é utilizar a projeção para 2040. Segundo o estudo, a Taxa de Renovação Docente pode cair para 0,17, chegando a uma relação aproximada de um professor jovem para cada seis professores com 60 anos ou mais.

Nesse caso, o repertório estatístico deve ser seguido de análise: o candidato pode explicar que o envelhecimento do quadro, quando combinado à baixa entrada de novos profissionais, cria dificuldades para substituir os docentes que deixarão a carreira.

Qual proposta de intervenção usar para o apagão dos professores?

No modelo do Enem, o participante precisa apresentar uma proposta de intervenção articulada ao que foi discutido no texto e que respeite os direitos humanos. Luciana Patrocínio lembra que uma proposta completa pode contemplar agente, ação, meio, efeito e detalhamento.

Entre os possíveis agentes relacionados ao tema, a especialista cita o Ministério da Educação (MEC), governos estaduais e municipais e empresas do setor educacional. Segundo ela, “a proposta interventiva não deve aparecer de forma isolada no texto, ela precisa estar relacionada aos problemas e às discussões desenvolvidas ao longo da redação.”

Se o estudante argumentou, por exemplo, que a baixa atratividade da carreira decorre de remuneração e condições profissionais, a conclusão pode propor políticas públicas voltadas à valorização da categoria e à entrada de novos docentes.

Caso o eixo escolhido seja a formação profissional, outra possibilidade é propor programas de incentivo às licenciaturas e de formação continuada.

As possíveis soluções para o apagão dos professores não se restringem à entrada de novos profissionais. Os relatos também apontam para a necessidade de criar condições para manter os docentes na carreira.

Sobre essa alternativa, a professora de Língua Inglesa, Bárbara Liz, destaca que é necessário melhorias na remuneração, na infraestrutura escolar, na formação continuada e no bem-estar profissional.

“Isso torna esse profissional visto, capacitado e muito mais seguro do que ele tem que fazer. E muito mais seguro, inclusive, de como ele vai fazer, porque ele sabe que vai estar assistido”, conclui Liz.

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