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Como funciona a urna eletrônica? Entenda a tecnologia por trás da eleição

Descubra como funciona a urna eletrônica brasileira. Entenda o processo de votação, os mecanismos de segurança e como a apuração é auditada



Em resumo:

  • A urna eletrônica é um microcomputador brasileiro projetado para registrar e contabilizar votos. Ela funciona de forma totalmente offline e é blindada contra ataques cibernéticos ou invasões remotas.
  • A segurança e a transparência do processo são validadas por etapas de auditoria, incluindo a abertura do código-fonte para peritos e a impressão do Boletim de Urna (BU), que permite a conferência pública dos votos em cada seção antes da totalização em Brasília.

Em outubro de 2000, o Brasil definia um novo marco no desenvolvimento tecnológico. Pela primeira vez, um dispositivo de registro de voto era utilizado integralmente em uma eleição, marcando a nova era dos pleitos 100% informatizados.

Batizada de urna eletrônica, a ferramenta era capaz de contabilizar votos em uma velocidade incomparável, eliminando fraudes comuns na distribuição de cédulas e agilizando a apuração e o resultado.

Desde então, o país já soma 13 eleições ordinárias, três presidentes eleitos e milhares representantes políticos nomeados com o auxílio da tecnologia. Em 2026, a urna eletrônica completa seu 30º ano, e para te ajudar a compreender essa ferramenta única, veja, a seguir, como ela funciona.

urna eletrônica

Como funciona a urna eletrônica?

A urna é um microcomputador projetado para uma única finalidade: registrar e contabilizar votos de forma segura.

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Ela é composta por dois terminais que garantem a identificação do eleitor e o registro de seu voto:

  • Terminal do Mesário (Microterminal): É a central de controle da seção. Possui um teclado numérico e um leitor biométrico. É neste terminal que o mesário digita o número do título de eleitor, verifica a identidade pela biometria (ou documento oficial com foto) e, apenas após essa validação, envia o comando que destrava a cabine de votação.
  • Terminal do eleitor (A Urna): É a cabine blindada com o teclado numérico, tela de cristal líquido e sistema de áudio para deficientes visuais. Ela só aceita comandos numéricos referentes aos cargos em disputa, além das teclas “Branco”, “Corrige” e “Confirma”.

Para sustentar toda a operação, a urna não usa sistemas convencionais. Ela roda o Uenux, um sistema operacional baseado em Linux e desenvolvido sob medida pelos engenheiros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Seu funcionamento depende de dispositivos físicos semelhantes a pen drives, chamados de mídias de memória. A “Mídia de Aplicação” instala o sistema operacional e a lista oficial de candidatos na máquina dias antes da eleição.

Já a “Mídia de Resultado” é o compartimento blindado onde os votos são gravados e lacrados no final do dia.

A urna eletrônica é conectada à internet?

Não. O isolamento físico é a principal barreira de segurança da urna. A placa-mãe do equipamento é fabricada sem qualquer componente de rede: não há placa de Wi-Fi, módulo Bluetooth, entrada para cabo de rede (Ethernet) ou antena de rádio.

Como o equipamento opera 100% offline, é inviável que um hacker ou um programa malicioso invada a urna remotamente pela internet para alterar o sistema operacional ou computar votos falsos.

A única forma de inserir dados na máquina é fisicamente, por meio do teclado do eleitor ou da porta USB protegida por lacres de segurança e restrita aos técnicos do TSE.

A urna eletrônica é confiável?

O sistema eleitoral brasileiro é reconhecido como um dos mais seguros. Ao longo de 30 anos de uso, desde a sua primeira implementação parcial em 1996, nunca houve registro de fraude comprovada na contabilização dos votos.

A confiabilidade da urna baseia-se em uma arquitetura de segurança construída em camadas. O pilar central desse modelo é o isolamento físico: por não possuir nenhum tipo de componente de conexão à internet, Wi-Fi ou Bluetooth, a máquina é totalmente blindada contra invasões externas.

Além da segurança física e criptográfica, a transparência do processo é validada por auditorias públicas e independentes.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) abre o código-fonte para a perícia da Polícia Federal, partidos e universidades meses antes do pleito. Durante a votação, o Teste de Integridade cruza dados de cédulas de papel com registros digitais em urnas sorteadas.

Por fim, a impressão obrigatória do Boletim de Urna (BU) ao término da votação descentraliza a conferência, permitindo que a própria população audite os números locais antes mesmo de os dados chegarem à central de apuração em Brasília.

Como o sistema garante o sigilo do voto?

Para que o voto seja inviolável, a urna eletrônica separa completamente a identificação do eleitor do voto digitado, utilizando uma tecnologia chamada Registro Digital do Voto (RDV).

O RDV funciona como uma urna de lona virtual. Quando o eleitor confirma o seu candidato, o sistema não grava a informação em uma lista sequencial. Em vez disso, o voto é criptografado e jogado aleatoriamente dentro de uma tabela matemática.

O sistema mistura as posições dos votos constantemente. No final do dia, a Justiça Eleitoral consegue contabilizar a soma total de votos de cada candidato, mas é matematicamente impossível reconstruir o caminho para descobrir qual eleitor digitou cada voto.

Como é feita a apuração se as urnas não têm internet?

Às 17h, o presidente da seção eleitoral digita uma senha específica no terminal do mesário e encerra a votação. A urna consolida todos os votos criptografados e os grava na Mídia de Resultado.

Essa mídia é retirada da urna, colocada em um envelope lacrado e transportada fisicamente (sob escolta) até um cartório eleitoral ou polo de transmissão.

Apenas nesse local a mídia é conectada a um computador oficial da Justiça Eleitoral. Esse computador utiliza uma Rede Virtual Privada (VPN) para transmitir o pacote de dados diretamente ao supercomputador do TSE em Brasília, que realiza a totalização nacional.

O que é o Boletim de Urna (BU)?

O Boletim de Urna (BU) é a prova física da apuração digital. Imediatamente após o encerramento da votação, a própria urna eletrônica imprime um extrato em papel termossensível, semelhante a um recibo bancário.

Este documento contém:

  • O total de eleitores que compareceram àquela seção.
  • O número exato de votos que cada candidato recebeu naquela máquina.
  • A quantidade de votos brancos e nulos.
  • O código de identificação da urna.

Uma via do BU é assinada pelo mesário e colada na porta da seção eleitoral. Isso permite que qualquer cidadão, fiscal de partido ou jornalista fotografe o resultado local antes mesmo de os dados chegarem a Brasília.

O sistema eleitoral pode ser auditado?

O sistema passa por etapas de auditoria obrigatórias e públicas antes, durante e depois das eleições para atestar a sua integridade.

As três principais frentes de auditoria são:

  • Teste Público de Segurança (TPS): Meses antes da eleição, o TSE abre o código-fonte (as linhas de programação) para peritos da Polícia Federal, professores universitários e especialistas independentes. Eles testam o sistema em busca de qualquer vulnerabilidade.
  • Cerimônia de Lacração: Após o software ser finalizado e assinado digitalmente, as urnas recebem os programas e são fechadas com lacres físicos especiais, assinados por juízes e promotores. Se o lacre for rompido, a urna evidencia a adulteração.
  • Teste de Integridade (No dia da eleição): No próprio domingo de votação, urnas oficiais prontas para uso são sorteadas e levadas para auditórios monitorados por câmeras. Lá, representantes de partidos preenchem votos em cédulas de papel. Esses votos são digitados na urna eletrônica sob vigilância. No fim do dia, o resultado eletrônico emitido pela urna tem que bater exatamente com a soma das cédulas de papel.

Como funciona todo o processo de votação?

Para garantir a transparência e a segurança de cada voto, a Justiça Eleitoral adota um protocolo rigoroso que começa antes mesmo de o primeiro eleitor chegar à seção e só termina após a transmissão segura dos dados.

O ciclo completo de funcionamento no dia da eleição segue este passo a passo:

  • Preparação e chegada da urna: Na véspera da eleição, as urnas eletrônicas são transportadas sob esquema de segurança dos cartórios eleitorais para os locais de votação.
  • Emissão da Zerésima: No domingo, antes das 8h da manhã, o presidente da mesa liga a máquina e imprime a “Zerésima”. Esse extrato de papel é assinado por mesários e fiscais de partidos, comprovando publicamente que a urna está “zerada”.
  • Identificação e liberação: Quando o eleitor chega à seção, ele apresenta seu documento. O mesário digita o número de inscrição no terminal, valida a identidade pela biometria (impressão digital) e envia o comando eletrônico que destrava a cabine de votação.
  • O momento do voto: O eleitor digita os números dos seus candidatos no teclado da urna. A tela exibe a foto e o nome para conferência. Ao apertar a tecla “Confirma”, o sistema emite o sinal sonoro, criptografa a escolha, embaralha o voto na memória e bloqueia a máquina para o próximo da fila.
  • Encerramento da seção: Pontualmente às 17h, o presidente da mesa digita uma senha administrativa no seu terminal. Esse comando trava a urna definitivamente, impedindo que qualquer novo voto seja computado.
  • Impressão do Boletim de Urna (BU): Imediatamente após o travamento, a urna imprime os Boletins de Urna (BU). Esse recibo contém a soma de todos os votos que cada candidato recebeu naquela máquina. Uma cópia é fixada na porta da sala para que a população possa conferir e fotografar.
  • Extração e transmissão: O mesário retira a Mídia de Resultado (uma espécie de pen drive blindado da urna) e a entrega à Justiça Eleitoral. Essa mídia é levada a um ponto de transmissão seguro, onde os dados são enviados por uma rede fechada (intranet) diretamente para o supercomputador do TSE em Brasília, que faz a soma nacional.

Quando surgiu a urna eletrônica?

A história da informatização do voto no Brasil começou muito antes da implementação oficial da urna.

O primeiro passo ocorreu em 1989, na cidade de Brusque, em Santa Catarina, quando um juiz eleitoral organizou a primeira votação com um protótipo de computador.

No entanto, o equipamento como conhecemos hoje começou a ganhar forma em 1995, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) instituiu comissões técnicas para desenvolver um modelo de abrangência nacional.

O equipamento fez a sua estreia oficial nas eleições municipais de 1996, atendendo inicialmente a um terço do eleitorado (municípios com mais de 200 mil habitantes), até alcançar a totalidade das cidades do país no ano 2000.

Quem criou a urna eletrônica?

A urna eletrônica não foi inventada por uma única pessoa ou patenteada por uma empresa privada. Ela é uma criação genuinamente brasileira, desenvolvida pelo próprio Estado.

Em 1995, o TSE formou uma comissão de especialistas composta por pesquisadores e engenheiros de órgãos, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Comando Geral de Tecnologia Aeroespacial (CTA), o Exército Brasileiro e o Ministério das Comunicações.

Juntos, esses profissionais desenharam o projeto arquitetônico, os requisitos de segurança e o software original do equipamento.

Quais países usam a urna eletrônica?

O Brasil é o único país do mundo que utiliza um sistema eletrônico de votação e apuração em todo o processo eleitoral. Contudo, a tecnologia é adotada de forma parcial por outras nações, embora em formatos distintos:

  • Índia: Utiliza máquinas de votação eletrônica (EVMs) em larga escala para centenas de milhões de eleitores.
  • Estados Unidos: Possui um sistema descentralizado. Alguns estados utilizam máquinas eletrônicas semelhantes às do Brasil, enquanto outros adotam escâneres óticos que leem cédulas de papel preenchidas a caneta.
  • Estônia: É o país pioneiro no voto pela internet (i-voting). Os cidadãos podem votar de casa usando o próprio computador, valendo-se de uma forte infraestrutura de identidade digital nacional.
  • França, Emirados Árabes e Suíça: Utilizam urnas eletrônicas parcialmente, apenas em determinadas regiões ou para grupos específicos, como eleitores que residem no exterior.

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