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Vestibular e Enem

Filhos e casamento ainda são o maior motivo para que mulheres parem de estudar, segundo Encceja

por Isabela Giordan em 14/05/20

Cerca de 42% das mulheres que realizaram o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) apontaram que o fator mais relevante para tomar a decisão de interromper os estudos foi "filhos e casamento"

Já para os homens, o motivo mais significativo foi falta de tempo por conta do trabalho. Os dados foram obtidos com base nos microdados do Encceja 2018, que são divulgados anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio de Teixeira (Inep), órgão responsável pela prova. 

gravidez na adolescência

Para Ludimila Corrêa, doutora em Conhecimento e Inclusão Social em Educação e diretora de escola da rede pública de Minas Gerais, a justificativa para essas divisões tão representativas está na atribuição de papéis de gênero na sociedade. Enquanto a mulher precisa cuidar dos filhos e do lar, o homem é responsável pelo sustento.  

“Nós temos vários autores que falam sobre isso, sobre essa fixação social de papéis de homens e mulheres, e sempre remetendo ao lugar social da mulher, à maternidade e ao domínio do privado, o que acaba dificultando que ela exerça outra atividade. No caso do homem, não”, aponta Ludimila. 

Magnólia Brito de Souza, 33 anos, é uma dessas mulheres que tiveram que interromper os estudos devido ao casamento e à gravidez na adolescência. Moradora de Joviânia (GO), cidade com cerca de seis mil pessoas, ela tinha feito até quinta série do Ensino Fundamental, quando engravidou. 

“Minha família sempre me apoiou nos estudos, mas após casar e engravidar, aos 14 anos, tiver que parar de estudar. Eu até tentei continuar a ir para a escola, mas tive que me mudar para uma fazenda, o que impediu que eu continuasse os estudos”, relembra. 

Renda e falta de rede de apoio também são fatores decisivos


Das mulheres que indicaram ter que abandonar os estudos devido a gravidez e casamento na adolescência, 88,8% responderam que a renda familiar era de um a três salários mínimos (em 2018, o valor era de até R$ 2.862,00). Sendo que, do total, 43,56% apontaram ter renda familiar de apenas um salário mínimo, na época equivalente a R$ 954,00. 

Eliane Zanata, pedagoga e doutora em Educação Especial, acredita que, em partes, a renda pode ser um dos motivos mais importantes para que a mulher decida continuar ou interromper os estudos. 

“Em partes sim, pois muitas adolescentes ao abandonarem a escola, pelo motivo da gravidez na adolescência, não se inserem no mercado de trabalho, vivendo junto à família. Outras, por sua vez, optam por morar junto com o companheiro e, além de cuidar da casa e do filho, também se inserem no mercado de trabalho.”

De acordo com os dados do Encceja, 75% dessas mulheres estavam atuando no mercado de trabalho ou tinham trabalhado pelo menos uma vez na vida. Além disso, do total, 65% trabalham para ajudar nas despesas de casa e 55% para sustentar a família.

“Parei de estudar aos 15 anos, pois engravidei. Inicialmente, tentei me manter na escola, mas o custo de vida era alto e precisei me dedicar ao trabalho, em tempo integral, para auxiliar na renda familiar. Não recebi apoio para parar de estudar, mas, naquela situação, acabei optando por parar e me dediquei ao meu filho e ao trabalho” conta Débora Haack, 32 anos. 

Para a Ana Kutter, doutora em Educação em Ciências e professora de Educação de Jovens e Adultos (EJA) há 20 anos, além do fator financeiro, a falta de uma rede de apoio também é fator determinante para que essas adolescentes possam continuar os estudos. 


Rede de apoio é um grupo de pessoas, formado por familiares e amigos, que auxiliam e colaboram para que a nova mãe possa ter o apoio necessário para conseguir criar a criança, dando suporte nas atividades do dia a dia, o que permite com que essa mulher possa manter os seus papéis sociais como, por exemplo, estudar. 

“Acredito que falta uma rede de apoio para essas meninas, acho que falta apoio e com que elas possam contar. Se a menina pudesse ter uma rede de apoio, ter o bebê no momento que ela escolheu ter e continuar estudando, isso seria ótimo porque é um direito da mulher escolher ser mãe”, reforça Ana.

Ludmila Corrêa, que também já foi professora do EJA, concorda que a rede de apoio é essencial para que a mãe, seja ela adolescente ou não, continua a estudar.

“Por exemplo, quem vai cuidar da criança para que ela possa estudar? Quem vai cuidar da criança para que, mais para frente, ela possa trabalhar? São situações que vão limitando as possibilidades para as mulheres. No caso dos homens, muitos deles ainda conseguem se manter estudando e trabalhando porque tem a mulher que vai estar dentro de casa com os filhos e cuidando do lar.”

Brasil ainda é “líder” em casos de gravidez na adolescência


Um estudo divulgado pelo Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que, de cada mil meninas brasileiras de 15 a 19 anos, 68,4 são mães na adolescência. Essa taxa é maior do que a média da América Latina, de 65,5, e da média mundial, de 46 gravidezes a cada mil adolescentes. O estudo analisou as taxas mundiais entre 2010 e 2015, o levantamento foi divulgado em 2018.

Em nota, Carissa Etienne, diretora da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), afirmou que ser mãe nesse período da vida pode gerar graves consequências: “A gravidez na adolescência pode ter um efeito profundo na saúde das meninas durante a vida. [...] Não apenas cria obstáculos para seu desenvolvimento psicossocial, como se associa a resultados deficientes na saúde e a um maior risco de morte materna.”

Ainda sobre esse estudo da OMS, Esteban Caballero, na época diretor regional do Fundo de População das Nações Unidas para América Latina e Caribe, apontou que muitas dessas gravidezes são resultados de abuso

“Eu sou professora de biologia e trabalho nas minhas aulas de educação sexual. Percebo, pelas perguntas que aparecem, que esse tema não é trabalhado em casa. Já apareceram até mesmo situação de abuso, que a menina passava e não fazia ideia que era isso. É muito triste saber que nos núcleos familiares, muitas vezes, não existe a educação sexual, mas sim o abuso. Algo que é triste e lamentável”, relata Ana Kutter. 


Além disso, outro ponto que impulsiona que essas meninas interrompam os estudos durante a adolescência, é a
vergonha de ter engravidado

“Quando a gente pensa na faixa etária de meninas mais novas, adolescentes, por exemplo, a gente associa que ainda tem que a questão da vergonha de ir para a escola grávida. Por exemplo, do que as pessoas vão pensar, de como vai ser essa aceitação e muitas delas acabam deixando a escola por conta disso”, explica Ludimila Corrêa, diretora de escola da rede pública e professora no EJA. 

Realocação no mercado de trabalho é o principal motivo para a volta aos estudos


Uma das questões dos microdados do Encceja 2018 é “qual principal motivo faria você voltar a estudar ou continuar estudando?”. Mais de 79% das respostas estão relacionadas ao mercado de trabalho, são elas: 

  • Conseguir um emprego;

  • Conseguir um emprego melhor; 

  • Progredir no emprego atual.

“Pensando que temos inúmeras famílias uniparentais em que a mulher é chefe, cabendo a ela o sustento da família, a possibilidade de concluir um nível de escolaridade é um caminho para melhorar a condição de empregabilidade e de vida da família”, explica Eliane Zanata, pedagoga e doutora pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). 

Além disso, a possibilidade de garantir mais direitos trabalhistas e segurança no trabalho também é algo que faz a diferença dessa decisão. Ludimila Corrêa lembra que, em muitos casos, essas mulheres atuam em profissões relacionadas ao cuidado, sem direitos trabalhistas e com baixa remuneração. 

“Quais seriam essas profissões? Babás, empregadas domésticas, diaristas. [...] Então, elas buscam esse diploma do Ensino Básico como uma ascensão de, por exemplo, poder buscar profissões e empregos que paguem mais, que tenham mais direitos trabalhistas e que ofereçam mais segurança.”


Ludimila ainda sugere que muitas delas desejam o diploma para obter também o conhecimento, sendo muito mais uma questão de crescimento pessoal, autoconfiança e autoestima.

EJA e Encceja: novas chances para conquistas e crescimento pessoal


A EJA e o Encceja são parte de políticas educacionais que dão a oportunidade para que homens e mulheres tenham a chance de conquistar o diploma do Ensino Básico, que os foi tirado na idade adequada, e continuar os estudos. 

Porém, a volta aos estudos, em alguns casos, pode não ser algo fácil. Afinal, é preciso lidar com jornadas, em alguns casos, triplas ou quádruplas. Porém, quando há a possibilidade de dedicar um tempo aos estudos, os frutos podem ser encantadores. 

“É muito importante ver que há vários desdobramentos nessa volta para a educação. Se formam várias parcerias legais e há fortalecimento de vínculos. E sim, existe um pertencimento nessa volta para a EJA. E é muito bonito de ver, acaba se formando uma outra rede, um outro vínculo” celebra Ana Kutter, que é professora do EJA e testemunha desses momentos há 20 anos. 

Para a produção desta reportagem, a Revista Quero conversou com três mulheres que tiveram que interromper os estudos devido à gravidez na adolescência. E, após conhecer o Encceja pela indicação de amigos e familiares, tiveram a possibilidade de ter novos sonhos e alçar novos voos: 

  • Débora Haack das Neves: 32 anos, estudante de Pedagogia

“Tenho interesse em auxiliar jovens mãe e seus pequenos. Tenho alguns projetos em mente para que jovens ou adultas, mães em geral não precisem abandonar estudos ou trabalho”.
  • Magnólia Brito de Souza: 33 anos, vestibulanda de Enfermagem

“Pretendo me formar em Enfermagem. Sempre foi meu sonho trabalhar com a área da saúde!”

Eliane é natural da comunidade quilombola Nossa Senhora das Graças Vila do Cravo, em Concórdia do Pará (PA). E, assim como as outras entrevistadas, foi mãe na adolescência e precisou para de estudar. 

Porém, com a ajuda da sua filha, já adolescente, Eliane conheceu não apenas o Encceja, mas também o vestibular especial da Universidade Federal do Pará (UFPA), que oferece um processo seletivo exclusivo Indígenas e Quilombolas. 

Neste ano, Eliane foi aprovada no curso de Ciências Sociais e sua filha, que também foi mãe na adolescência, foi convocada para o curso de Engenharia Química

Conheça a história de vida de Eliane Borges: 


Foto: Arquivo pessoal
Eliana Borges junto com seus filhos, Vitória e Mauro Fernando, e neto


Meu nome é Eliane, tenho 37 anos, e sou natural da comunidade remanescente de quilombos Nossa Senhora das Graças Vila do Cravo, em Concórdia do Pará (PA).

Parei de estudar quando estava fazendo supletivo sétima série. Parei por vários fatores: a longa distância da minha casa até a escola, transportes escolar precário, falta de incentivo da própria família, falta de condições financeiras e a gravidez, que foi o fator definitivo.

Tentei conciliar meus estudos após o nascimento da minha filha, mas parei na primeira semana, pois não tinha com quem deixá-la e ainda ouvia críticas.

Não consegui enfrentar esses obstáculos. Sem conhecimento, sem forças e sem apoio, não teve como continuar. O apoio que tive na época foi mais pra largar do que para continuar. A família sempre priorizava sobre eu ser casada. Era como se o fato de eu ser casada fosse o bastante, não precisava estudar.

Preconceitos? Até hoje sinto! Na época, não entendia muito, mas me sentia mal. As pessoas olhavam com aquele olhar de deboche por ser mãe nova, pobre e preta.

A minha primeira filha chama Vitória e hoje está com 18 anos. Com o passar dos tempo, fui mãe pela segunda vez, do Mauro Fernando que tem 10 anos. Minha filha que, para muitas pessoas foi um atraso, foi a responsável pelo meu recomeço! 

Em 2015,  a UFPA começou a oferecer o Processo Seletivo Especial (PSE) para indígenas e quilombola, mas a minha inscrição ficou apenas na vontade, já que eu não tinha o Ensino Básico completo. Em 2018, minha filha Vitória, fuçando nas redes sociais, encontrou o site do Encceja e seus editais. Ela fez a minha inscrição para o Ensino Fundamental, prestei a prova passei. No ano seguinte, fiz o mesmo processo, mas para o Ensino Médio e passei!  Meu sonho se concretizou.

Como nosso quilombo evoluiu, as pessoas se graduaram e temos professores formados quase em todas as áreas de licenciatura. Eles se dispuseram a nos ajudar a estudar e eles me ajudaram muito a ir bem não só no Encceja, mas também no PSE.

O maior motivo para que eu tentasse entrar na faculdade foi a minha filha. Ela terminou o Ensino Médio aos 16 anos e, no ano seguinte, foi mãe. A mesma história se repetiu, mas dessa vez ela me tinha e eu tinha a ela. 

E 2020 foi um ano de grandes realizações!  Minha filha, mesmo sendo mãe aos 17 anos, fez a minha inscrição e a dela. Com muito esforços, fizemos as duas fases e ela passou em Engenharia Química e eu em Ciências Sociais. Espero que a minha jornada e aprovação sirva de exemplo para outras mulheres que vivem em situação igual ou pior que a minha.
Veja também: Dr. Gilberto Benedito conta como superou um Brasil desigual para transformar sua realidade

Elaboração dos dados: Heitor Facini

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