A diferença entre capacidade e execução
Durante a prova, Trentim identificou uma situação familiar para quem trabalha com estratégia: em determinados trechos, havia capacidade para aumentar a velocidade, mas a incerteza sobre o esforço exigido nas estações seguintes influenciou suas decisões.
Em vez de acelerar, ele optou por preservar energia. Nos burpees e wall balls, percebeu que o principal limitador não era necessariamente a força muscular, mas a capacidade de coordenar os movimentos e manter a execução técnica sob fadiga.
Ao terminar a competição sem estar completamente exaurido, identificou uma diferença entre o desempenho que poderia ter alcançado e aquele que efetivamente realizou.
“Eu sabia o protocolo inteiro. Conhecia os pesos, as distâncias, a sequência. E ainda assim a distância entre o que planejei e o que executei foi real”, afirmou.
O episódio ilustra o chamado execution gap, ou lacuna de execução. O conceito descreve a distância entre o que foi planejado e o que se consegue entregar na prática.
Nas empresas, essa diferença pode aparecer quando uma organização define metas ambiciosas, distribui responsabilidades e estabelece indicadores, mas não consegue converter essas decisões em resultados na mesma proporção.
“No esporte, é visível. No trabalho, fica escondido atrás de relatórios”, observou Trentim.
A experiência no HYROX também permite estabelecer uma relação com estudos sobre motivação e definição de objetivos.
Em 2002, Edwin Locke e Gary Latham publicaram uma revisão importante sobre a teoria da definição de metas, conhecida como Goal-Setting Theory.
A pesquisa reuniu evidências de que objetivos específicos e desafiadores, acompanhados de condições adequadas, tendem a produzir resultados superiores aos de orientações vagas, como simplesmente pedir que alguém faça o melhor possível.
A competição traduz esse princípio em uma estrutura prática. O atleta tem uma data definida, conhece o percurso, sabe quais exercícios precisará executar e pode medir o resultado final. A preparação também permite identificar limitações e ajustar o treinamento antes do evento.
Esse conjunto cria uma relação direta entre objetivo, comportamento e resultado.
Nas organizações, a aplicação do mesmo princípio exige mais do que estabelecer indicadores. É necessário definir prioridades, atribuir responsabilidades, acompanhar o progresso e criar condições para que as equipes ajustem suas ações durante a execução.
Estratégia planejada e estratégia realizada: a contribuição de Mintzberg
Outro paralelo está no trabalho de Henry Mintzberg e James Waters. No artigo Of Strategies, Deliberate and Emergent, publicado em 1985, os pesquisadores discutiram a diferença entre estratégias deliberadas, formuladas previamente, e estratégias emergentes, que se desenvolvem ao longo da atuação da organização.
Essa distinção ajuda a compreender por que um planejamento detalhado não determina, por si só, o resultado final.
Mudanças nas condições de execução, limitações de recursos, decisões tomadas ao longo do processo e dificuldades não previstas podem alterar o percurso entre a intenção e a entrega.
No HYROX, o atleta conhece antecipadamente a sequência de exercícios, mas precisa adaptar o ritmo às condições físicas que encontra durante a prova. Nas empresas, os gestores também precisam conciliar o plano inicial com as informações e restrições que surgem durante a execução.
A diferença é que, na competição, o resultado aparece em um tempo mensurável e em uma classificação. No ambiente corporativo, a lacuna pode permanecer menos evidente quando os relatórios acompanham atividades realizadas, mas não demonstram com clareza os resultados alcançados.
O relatório Year in Sport 2025, da plataforma Strava, também oferece uma perspectiva sobre a relação entre objetivos definidos e comportamento esportivo.
Segundo o dado citado no material original, integrantes da Geração Z foram 75% mais propensos do que integrantes da Geração X a apontar uma prova ou evento como principal motivação para treinar.
A tendência ajuda a ilustrar como eventos esportivos podem funcionar como pontos de referência para a preparação. Uma data estabelecida cria um horizonte concreto, enquanto a participação em grupos e a comparação de resultados oferecem oportunidades de acompanhamento e interação social.
Para Trentim, o mecanismo vai além do esporte.
“O que o HYROX fez foi criar uma arquitetura de comprometimento que transforma intenção abstrata em comportamento concreto ao longo de meses. Isso é exatamente o que as organizações tentam fazer com OKRs, BSC e ciclos de planejamento estratégico, e raramente conseguem com a mesma consistência.”
OKRs (Objectives and Key Results) são estruturas de gestão que relacionam objetivos a resultados-chave mensuráveis. Já o Balanced Scorecard (BSC) é uma metodologia que conecta indicadores de diferentes perspectivas ao acompanhamento da estratégia.
Embora essas ferramentas ajudem a organizar prioridades, sua eficácia depende da forma como são incorporadas à rotina. Metas precisam orientar decisões reais, e não apenas alimentar apresentações ou relatórios periódicos.
Por que algumas ideias nunca se transformam em projetos reais?