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O que o HYROX ensinou a Mario Trentim sobre execução estratégica

Uma competição de fitness funcional levou Mario Trentim a refletir sobre o desafio de transformar planejamento em resultados. A experiência no HYROX revelou paralelos entre desempenho esportivo, execução estratégica e gestão nas organizações.



Em resumo:

  • O HYROX combina corrida e exercícios funcionais: a competição reúne oito quilômetros de corrida e oito estações de exercícios, exigindo resistência, estratégia e controle de intensidade.
  • Planejamento não garante execução: a experiência de Mario Trentim evidenciou a diferença entre a capacidade disponível e o desempenho efetivamente alcançado, um desafio também presente nas empresas.
  • Compromissos concretos favorecem resultados: datas definidas, metas mensuráveis e acompanhamento contínuo ajudam a transformar intenções em comportamentos, tanto no esporte quanto na gestão estratégica.

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Reprodução / wolverson-fitness.co.uk

O engenheiro Mario Trentim tem uma trajetória profissional dedicada a um dos principais desafios da gestão: transformar estratégias em resultados.

Formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), doutorando em estratégia pela instituição, autor de 13 livros e membro do Board of Directors do Project Management Institute (PMI) no mandato 2025–2027, ele também criou o Adapt OS, framework de execução estratégica utilizado por organizações no Brasil e no exterior.

Em outubro de 2026, porém, foi uma competição esportiva que colocou suas ideias à prova. Ao participar do HYROX, modalidade que combina corrida e exercícios funcionais, Trentim experimentou na prática a diferença entre conhecer um plano e conseguir executá-lo sob pressão.

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A experiência trouxe reflexões sobre capacidade de entrega, tomada de decisão sob fadiga e gestão de desempenho. São questões que fazem parte do cotidiano das empresas, mas que nem sempre ficam evidentes em apresentações, indicadores ou reuniões de planejamento.

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O que é o HYROX e como funciona a competição?

O HYROX é uma competição internacional de fitness funcional criada em Hamburgo, na Alemanha, em 2017. Seu formato padronizado combina oito quilômetros de corrida com oito estações de exercícios físicos.

O percurso inclui:

  • SkiErg: exercício em equipamento que simula os movimentos do esqui cross-country.
  • Sled push: empurrar um trenó com carga.
  • Sled pull: puxar um trenó utilizando uma corda.
  • Burpees: movimentos que combinam descida ao solo e retorno à posição em pé, com salto conforme o padrão da prova.
  • Rowing: exercício de remo em equipamento ergométrico.
  • Farmer’s carry: caminhada carregando pesos nas mãos.
  • Sandbag lunges: deslocamentos em passadas com um saco de areia.
  • Wall balls: agachamentos seguidos do lançamento de uma bola contra um alvo.

A sequência exige resistência cardiovascular, força, coordenação e capacidade de distribuir o esforço ao longo da prova. Como o formato é padronizado, os participantes podem comparar resultados entre eventos e acompanhar a própria evolução.

Na temporada 2025–2026, o HYROX reuniu mais de 1,4 milhão de participantes em mais de 100 eventos, segundo os números apresentados no texto original. O crescimento da modalidade também chama a atenção para a capacidade de criar objetivos compartilhados e mecanismos de acompanhamento de desempenho.

Para Trentim, entretanto, o aspecto mais relevante não é a dimensão do evento, mas a maneira como a competição transforma um objetivo em compromisso concreto.

“Uma empresa pode ter centenas de KPIs e ainda não possuir um compromisso tão mobilizador quanto a inscrição de um atleta numa competição.”

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A diferença entre capacidade e execução

Durante a prova, Trentim identificou uma situação familiar para quem trabalha com estratégia: em determinados trechos, havia capacidade para aumentar a velocidade, mas a incerteza sobre o esforço exigido nas estações seguintes influenciou suas decisões.

Em vez de acelerar, ele optou por preservar energia. Nos burpees e wall balls, percebeu que o principal limitador não era necessariamente a força muscular, mas a capacidade de coordenar os movimentos e manter a execução técnica sob fadiga.

Ao terminar a competição sem estar completamente exaurido, identificou uma diferença entre o desempenho que poderia ter alcançado e aquele que efetivamente realizou.

“Eu sabia o protocolo inteiro. Conhecia os pesos, as distâncias, a sequência. E ainda assim a distância entre o que planejei e o que executei foi real”, afirmou.

O episódio ilustra o chamado execution gap, ou lacuna de execução. O conceito descreve a distância entre o que foi planejado e o que se consegue entregar na prática.

Nas empresas, essa diferença pode aparecer quando uma organização define metas ambiciosas, distribui responsabilidades e estabelece indicadores, mas não consegue converter essas decisões em resultados na mesma proporção.

“No esporte, é visível. No trabalho, fica escondido atrás de relatórios”, observou Trentim.

O que a ciência diz sobre metas e desempenho?

A experiência no HYROX também permite estabelecer uma relação com estudos sobre motivação e definição de objetivos.

Em 2002, Edwin Locke e Gary Latham publicaram uma revisão importante sobre a teoria da definição de metas, conhecida como Goal-Setting Theory.

A pesquisa reuniu evidências de que objetivos específicos e desafiadores, acompanhados de condições adequadas, tendem a produzir resultados superiores aos de orientações vagas, como simplesmente pedir que alguém faça o melhor possível.

A competição traduz esse princípio em uma estrutura prática. O atleta tem uma data definida, conhece o percurso, sabe quais exercícios precisará executar e pode medir o resultado final. A preparação também permite identificar limitações e ajustar o treinamento antes do evento.

Esse conjunto cria uma relação direta entre objetivo, comportamento e resultado.

Nas organizações, a aplicação do mesmo princípio exige mais do que estabelecer indicadores. É necessário definir prioridades, atribuir responsabilidades, acompanhar o progresso e criar condições para que as equipes ajustem suas ações durante a execução.

Estratégia planejada e estratégia realizada: a contribuição de Mintzberg

Outro paralelo está no trabalho de Henry Mintzberg e James Waters. No artigo Of Strategies, Deliberate and Emergent, publicado em 1985, os pesquisadores discutiram a diferença entre estratégias deliberadas, formuladas previamente, e estratégias emergentes, que se desenvolvem ao longo da atuação da organização.

Essa distinção ajuda a compreender por que um planejamento detalhado não determina, por si só, o resultado final.

Mudanças nas condições de execução, limitações de recursos, decisões tomadas ao longo do processo e dificuldades não previstas podem alterar o percurso entre a intenção e a entrega.

No HYROX, o atleta conhece antecipadamente a sequência de exercícios, mas precisa adaptar o ritmo às condições físicas que encontra durante a prova. Nas empresas, os gestores também precisam conciliar o plano inicial com as informações e restrições que surgem durante a execução.

A diferença é que, na competição, o resultado aparece em um tempo mensurável e em uma classificação. No ambiente corporativo, a lacuna pode permanecer menos evidente quando os relatórios acompanham atividades realizadas, mas não demonstram com clareza os resultados alcançados.

O que o Strava revela sobre o comprometimento com objetivos?

O relatório Year in Sport 2025, da plataforma Strava, também oferece uma perspectiva sobre a relação entre objetivos definidos e comportamento esportivo.

Segundo o dado citado no material original, integrantes da Geração Z foram 75% mais propensos do que integrantes da Geração X a apontar uma prova ou evento como principal motivação para treinar.

A tendência ajuda a ilustrar como eventos esportivos podem funcionar como pontos de referência para a preparação. Uma data estabelecida cria um horizonte concreto, enquanto a participação em grupos e a comparação de resultados oferecem oportunidades de acompanhamento e interação social.

Para Trentim, o mecanismo vai além do esporte.

“O que o HYROX fez foi criar uma arquitetura de comprometimento que transforma intenção abstrata em comportamento concreto ao longo de meses. Isso é exatamente o que as organizações tentam fazer com OKRs, BSC e ciclos de planejamento estratégico, e raramente conseguem com a mesma consistência.”

OKRs (Objectives and Key Results) são estruturas de gestão que relacionam objetivos a resultados-chave mensuráveis. Já o Balanced Scorecard (BSC) é uma metodologia que conecta indicadores de diferentes perspectivas ao acompanhamento da estratégia.

Embora essas ferramentas ajudem a organizar prioridades, sua eficácia depende da forma como são incorporadas à rotina. Metas precisam orientar decisões reais, e não apenas alimentar apresentações ou relatórios periódicos.

Por que algumas ideias nunca se transformam em projetos reais?

Como aplicar as lições do HYROX à gestão estratégica?

A experiência de Trentim permite identificar alguns princípios que podem ser aproveitados no planejamento e na execução de projetos corporativos.

1. Defina objetivos concretos e prazos claros

Metas genéricas dificultam a avaliação do progresso. Um objetivo acompanhado de prazo, critérios de sucesso e indicadores permite que a equipe saiba o que precisa entregar e como o resultado será avaliado.

2. Identifique os gargalos antes da execução

Assim como o atleta precisa reconhecer os exercícios em que perde eficiência, as organizações devem mapear limitações de capacidade, competências, recursos e processos antes que comprometam os resultados.

3. Acompanhe o desempenho durante o percurso

A avaliação não deve acontecer somente no encerramento do projeto. Indicadores e ciclos de acompanhamento ajudam a identificar desvios, rever prioridades e corrigir decisões antes que os problemas se ampliem.

4. Transforme compromissos em comportamentos observáveis

Definir uma meta é diferente de criar condições para alcançá-la. Responsabilidades explícitas, rotinas de acompanhamento e critérios de entrega ajudam a converter o planejamento em ações concretas.

5. Aprenda com a diferença entre o planejado e o realizado

O resultado final deve servir como fonte de informação para o próximo ciclo. Comparar expectativas e entregas permite identificar falhas de estimativa, limitações operacionais e oportunidades de melhoria.

O próximo HYROX de Mario Trentim

Depois da primeira competição, Trentim passou a treinar com foco nos pontos que identificou como limitações de desempenho. Entre eles estão a eficiência cardiovascular nos movimentos que exigem maior coordenação e o controle de intensidade nas corridas entre as estações.

A abordagem segue uma lógica semelhante à que ele defende na gestão estratégica: identificar os pontos de maior impacto, direcionar esforços e acompanhar a evolução com base em evidências.

A próxima prova também representa uma oportunidade de comparar o resultado com o desempenho anterior e avaliar se os ajustes realizados durante a preparação produziram os efeitos esperados.

A reflexão que fica para os líderes empresariais é direta: como transformar o planejamento estratégico em um compromisso capaz de orientar decisões e comportamentos durante meses?

A experiência no HYROX não oferece uma fórmula universal para resolver os problemas de execução das empresas. Ela, porém, evidencia um princípio importante: conhecer o objetivo e ter capacidade para alcançá-lo não garantem a entrega.

Entre o planejamento e o resultado existe um processo que exige preparação, tomada de decisão, acompanhamento e adaptação. É nesse percurso que a execução estratégica se torna concreta.

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Sobre o autor

Mario H. Trentim é membro do Board of Directors do PMI, Reitor da Allevo Tech / Qeevo Group, doutorando do ITA e autor de 13 livros sobre gestão e execução estratégica.

Atua como conselheiro e conector estratégico em organizações em transformação.

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