
Por que o maior risco de um projeto complexo está onde você menos procura
| 23/09/26Entenda por que o risco em projetos complexos está nas interfaces entre equipes, contratos e decisões, e como a gestão pode reduzir essas falhas.
Entenda por que o risco em projetos complexos está nas interfaces entre equipes, contratos e decisões, e como a gestão pode reduzir essas falhas.
Em resumo:
Veja mais informações a seguir!

Existe uma ilusão persistente na gestão de projetos complexos: acreditar que o principal risco está dentro de cada área técnica.
A equipe mapeia riscos de geotecnia, estruturas, sistemas elétricos, contratos e licenciamento. Cria matrizes de probabilidade e impacto, define planos de mitigação e acompanha tudo em dashboards.
Ainda assim, o projeto pode atrasar, estourar o orçamento ou entregar menos do que foi planejado.
Quando a equipe investiga o problema, muitas vezes encontra algo diferente de uma falha técnica isolada. O problema está na interface entre as áreas.
Uma decisão que ficou pendente. Um contrato cuja responsabilidade não estava clara. Um handoff sem responsável definido. Uma informação que não chegou à equipe seguinte.
É nesse espaço entre as partes que uma parcela relevante do risco em projetos complexos se concentra.
Pesquisas sobre megaprojetos ajudam a dimensionar o problema.
Bent Flyvbjerg, professor da Universidade de Oxford e pesquisador de megaprojetos, estudou durante décadas os fatores associados ao desempenho de grandes empreendimentos. Seus trabalhos mostram a dificuldade de entregar projetos dentro das previsões originais de prazo, custo e escopo.
Edward Merrow, em Industrial Megaprojects (2011), também aponta para a dimensão sistêmica dos problemas em grandes projetos. Em muitos casos, as dificuldades não podem ser explicadas por uma única falha de engenharia.
O problema pode aparecer na relação entre construtoras e órgãos ambientais, na integração de contratos, na tomada de decisões ou na definição de responsabilidades compartilhadas.
O PMI também destaca a relação entre maturidade em gestão de projetos e geração de valor. O Pulse of the Profession mostra diferenças relevantes de desempenho entre organizações com diferentes níveis de maturidade em gerenciamento de projetos.
A questão, portanto, não é apenas controlar cada frente de trabalho. É coordenar o sistema formado por todas elas.
+ As certificações de gestão de projetos mais valorizadas no Brasil em 2026
David Snowden e Mary Boone, em artigo publicado pela Harvard Business Review em 2007, definiram a complexidade a partir das interações entre os elementos de um sistema.
Essa ideia ajuda a entender o risco em projetos complexos.
Imagine um empreendimento de infraestrutura com concessionária, construtoras, subcontratadas, órgãos reguladores, governo estadual, prefeituras, licenciadores, equipes de operação e serviços de emergência.
O projeto não se torna complexo simplesmente porque envolve muitos participantes.
A complexidade aumenta conforme crescem a quantidade e a natureza das interações entre essas partes.
Por isso, o gerenciamento de stakeholders não deveria se limitar à identificação dos envolvidos. Também é necessário entender o que precisa circular entre eles:
Os stakeholders são os pontos do sistema. As interfaces são as conexões. É nessas conexões que muitos riscos sistêmicos aparecem.
Uma forma de compreender esse problema é compará-lo à dívida técnica.
Na tecnologia, a dívida técnica surge quando decisões rápidas ou soluções provisórias acumulam custos futuros. Enquanto nada quebra, ela pode permanecer pouco visível.
Nos projetos complexos, algo semelhante acontece com a dívida de interface.
Ela se acumula quando o projeto mantém:
Cada problema isolado pode parecer pequeno.
O risco aparece quando eles se acumulam.
O cronograma pode continuar registrando avanço enquanto uma equipe aguarda uma decisão de outra. O percentual executado aumenta, mas o fluxo entre as áreas começa a perder velocidade.
Quando uma interface crítica finalmente falha, o projeto pode precisar refazer decisões, alterar contratos ou interromper atividades.
O custo aparece depois. A causa, muitas vezes, começou muito antes.
+ PSM vs CSM: qual certificação Scrum Master vale mais no Brasil em 2026?
Um dos problemas menos visíveis em projetos complexos é o tempo gasto esperando uma decisão.
O cronograma costuma medir quanto tempo uma atividade leva para ser executada. Mas nem sempre registra quanto tempo uma equipe passou aguardando aprovação, informação ou definição de responsabilidade.
Essa diferença pode ser chamada de latência de interface.
Na perspectiva da Lean Construction, reduzir desperdícios significa também evitar períodos em que equipes, materiais e recursos ficam parados por problemas de fluxo.
Por isso, uma gestão de projetos mais orientada ao fluxo precisa observar não apenas o trabalho realizado, mas também aquilo que impede o próximo trabalho de começar.
A engenharia, os contratos, o orçamento e o cronograma formam aquilo que pode ser chamado de projeto visível.
Existe, porém, outro projeto acontecendo simultaneamente.
Ele envolve:
Esse é o projeto invisível.
Peter Morris já discutia, em trabalhos sobre gerenciamento de projetos, a importância da coordenação e da informação para o desempenho dos empreendimentos.
Experiências internacionais reforçam essa preocupação. O Crossrail, grande projeto de infraestrutura do Reino Unido, documentou a necessidade de integração entre diferentes partes do empreendimento desde os estágios iniciais.
O Project 13, desenvolvido pelo Institution of Civil Engineers (ICE), também propõe uma abordagem baseada em relações colaborativas e na capacidade do proprietário do empreendimento para coordenar o sistema.
A lógica é semelhante: projetos complexos precisam de mecanismos capazes de identificar e tratar problemas nas interfaces antes que eles se transformem em crises.
+ PMP vs CAPM vs PMI-ACP: qual certificação escolher em 2026
As chamadas High Reliability Organizations (HROs) são estudadas em setores nos quais pequenas falhas podem produzir consequências relevantes, como aviação, medicina e operações nucleares.
Um dos princípios associados a essas organizações é a atenção contínua aos sinais de problemas.
Aplicada aos projetos complexos, essa abordagem reforça uma questão: um risco sistêmico pode não ter um único responsável evidente.
Uma interface entre dois contratos, por exemplo, pode estar fora da responsabilidade direta de qualquer uma das partes.
Isso não significa que o risco deixou de existir.
Significa que a governança do projeto precisa criar mecanismos para que essas interfaces sejam acompanhadas de maneira explícita.
A gestão de interfaces pode mudar a forma como os gestores acompanham um empreendimento.
Além de acompanhar o percentual executado de cada contrato, o projeto pode monitorar o fluxo entre as partes.
Algumas perguntas ajudam:
Essas métricas ajudam a revelar riscos que não aparecem nos indicadores tradicionais de execução.
Não basta estabelecer quem executa determinada atividade.
Também é necessário definir quem responde quando a transição entre duas atividades falha.
Essa distinção é importante porque muitos problemas surgem justamente no limite entre responsabilidades.
A pergunta “quem faz o quê?” continua sendo necessária, mas não é suficiente.
Projetos complexos também precisam perguntar:
Quanto antes essas questões forem respondidas, menor tende a ser o espaço para interpretações conflitantes.
Governança não precisa significar mais burocracia.
Quando bem estruturada, ela pode reduzir a distância entre identificar um problema, tomar uma decisão e executar uma ação.
Em projetos complexos, essa velocidade pode ser determinante para evitar que pequenos problemas de interface se transformem em atrasos e custos maiores.
+ Salário de gerente de projetos em 2026: o que o mercado está pagando
O gerenciamento tradicional tende a acompanhar aquilo que acontece dentro de cada frente.
Projetos complexos exigem também atenção ao que acontece entre elas.
Essa mudança de perspectiva pode ser resumida em uma frase:
Meu trabalho não termina quando eu termino. Termina quando o próximo consegue começar.
Não se trata apenas de uma filosofia de gestão.
É uma definição operacional para um handoff bem-sucedido.
Se o risco em projetos complexos frequentemente aparece nas interfaces, medir essas interfaces passa a fazer parte da própria gestão de risco.
O projeto pode ter engenharia competente, contratos bem estruturados e um cronograma detalhado. Ainda assim, se as conexões entre essas partes não forem gerenciadas, o sistema continuará exposto.
O maior risco pode estar justamente onde o dashboard mostra menos: no espaço entre uma entrega e outra.

Mario H. Trentim é membro do Board of Directors do PMI, Reitor da Allevo Tech / Qeevo Group, doutorando do ITA e autor de 13 livros sobre gestão e execução estratégica.
Atua como conselheiro e conector estratégico em organizações em transformação.


Entenda por que o risco em projetos complexos está nas interfaces entre equipes, contratos e decisões, e como a gestão pode reduzir essas falhas.

Entenda o que é planejamento estratégico, para que serve, quais são suas etapas e ferramentas e como aplicar o processo em empresas de diferentes tamanhos.

MBA em gestão de projetos: veja instituições de referência no Brasil, diferenças entre MBA e certificação e como escolher entre EAD e presencial.