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Biografias

Norbert Elias: biografia e teoria do processo civilizador

Publicado por Fábio Vieira | Última atualização: 15/9/2026
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Índice

Introdução

Norbert Elias foi um sociólogo alemão que investigou mudanças de comportamento ocorridas ao longo de séculos. Em vez de tratar boas maneiras como qualidades naturais, ele perguntou como comer, falar, controlar emoções e conviver passaram a seguir padrões sociais cada vez mais exigentes.

Sua resposta ficou conhecida como teoria do processo civilizador. O conceito pode aparecer no Enem e em vestibulares em questões sobre formação do Estado, autocontrole, etiqueta, violência e relação entre indivíduo e sociedade.

Em resumo:

  • Elias nasceu em 1897, viveu o exílio provocado pelo nazismo e alcançou reconhecimento acadêmico tardiamente.
  • O processo civilizador liga mudanças nos costumes à centralização do poder e ao aumento das redes de interdependência.
  • Civilização não significa superioridade moral de um povo nem progresso contínuo e garantido.
  • O comportamento individual é formado socialmente, mas as relações sociais só existem por meio de indivíduos interdependentes.
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Quem foi Norbert Elias?

Norbert Elias nasceu em Breslau, em 22 de junho de 1897, numa família judaica alemã. Serviu na Primeira Guerra Mundial e depois estudou filosofia, medicina e sociologia. Trabalhou com Karl Mannheim em Frankfurt, mas a ascensão nazista interrompeu sua carreira e o obrigou a deixar a Alemanha em 1933.

Refugiou-se primeiro em Paris e depois na Inglaterra. Sua mãe foi assassinada no Holocausto. Em 1939 publicou O processo civilizador, mas o livro teve pouca repercussão imediata. Elias lecionou na Universidade de Leicester e só se tornou amplamente reconhecido a partir dos anos 1970. Morreu em Amsterdã, em 1990.

A experiência de guerras, exílio e mudanças políticas reforçou seu interesse por processos de longa duração. Ele evitava explicar a sociedade por acontecimentos isolados ou por intenções de uma só pessoa. Preferia reconstruir cadeias de relações que, ao se transformarem, alteram instituições e personalidades.

Norbert Elias em biblioteca, com antigos manuais de etiqueta e uma cena palaciana europeia ao fundo.

O que é o processo civilizador?

O processo civilizador é uma transformação histórica dos padrões de comportamento e sensibilidade. Elias examinou manuais de etiqueta europeus desde a Idade Média. Observou que recomendações antes ditas diretamente, como não cuspir à mesa ou não tocar alimentos de modo considerado impróprio, desapareceram das versões posteriores porque a proibição já havia sido interiorizada.

Interiorização significa que uma pressão social externa passa a funcionar como autocontrole. Vergonha, constrangimento e repugnância fazem a pessoa vigiar gestos sem precisar de uma ordem a cada momento. Isso forma uma “segunda natureza”: hábitos aprendidos parecem espontâneos porque foram incorporados desde a infância.

O termo civilizador não autoriza classificar povos como civilizados ou bárbaros. Elias analisou uma trajetória europeia específica e criticou a ideia de superioridade inata. O processo também não elimina a violência. Ele pode deslocá-la, concentrá-la no Estado ou fazê-la reaparecer em crises.

Como a formação do Estado mudou os comportamentos?

Elias relaciona costumes à formação de unidades políticas centralizadas. Reis europeus gradualmente concentraram a cobrança de impostos e o uso legítimo da força. Nobres guerreiros perderam autonomia militar e foram atraídos para as cortes, onde prestígio dependia de etiqueta, cálculo e controle dos impulsos. Esse processo ajuda a compreender a passagem para a sociedade moderna.

Quando a força fica menos disponível nas relações cotidianas, as pessoas precisam prever consequências e negociar com mais cuidado. A corte oferece um exemplo: um acesso de raiva podia destruir alianças e posições. A coerção não desapareceu; tornou-se mais regular e, em parte, converteu-se em autocoerção.

Elias chama de sociogênese a formação histórica das estruturas sociais e de psicogênese a transformação correspondente das disposições individuais. As duas dimensões não são causas separadas. Redes políticas mais complexas exigem autocontrole, e pessoas treinadas nesse autocontrole ajudam a manter essas redes.

O que são figuração e interdependência?

Figuração é o desenho móvel formado por pessoas mutuamente dependentes, como jogadores numa partida, estudantes numa turma ou grupos num Estado. Nenhum participante controla sozinho o resultado. Mesmo quem tem mais poder depende de ações de outros e precisa ajustar suas estratégias.

Essa ideia supera a oposição rígida entre indivíduo e sociedade. A sociedade não é uma coisa externa que paira sobre as pessoas, e o indivíduo não é uma unidade isolada. Desde a linguagem até os hábitos do corpo, cada pessoa se forma em relações. Ao mesmo tempo, essas relações mudam quando participantes agem.

O poder, para Elias, é uma propriedade das relações, não um objeto que alguém simplesmente possui. Uma desigualdade pode ser grande, mas continua sendo uma balança de dependências. A noção ajuda a analisar famílias, escolas, esportes e Estados sem reduzir tudo a decisões pessoais ou a estruturas imóveis.

Como o processo civilizador pode ser criticado?

A palavra civilização carrega uma história colonial e pode sugerir uma escala universal de superioridade. Por isso, a aplicação da teoria exige cuidado. Elias descreveu sobretudo a Europa ocidental e não provou que todas as sociedades sigam a mesma direção. Pesquisas posteriores ampliaram, revisaram e criticaram esse recorte.

Outra questão é a descivilização. Guerras e genocídios mostram que controles e instituições podem se romper ou ser reorganizados para produzir violência. Não existe linha automática que conduza a comportamentos mais pacíficos. A Alemanha nazista, vivida pelo próprio autor, impede uma leitura otimista simples.

Também não se deve confundir etiqueta com igualdade. Um grupo pode dominar códigos refinados e continuar explorando outros. As maneiras expressam relações de poder, distinção e pertencimento. O ganho analítico está em perguntar como um padrão surgiu e que dependências ele organiza.

Como Norbert Elias pode cair no Enem?

Questões podem comparar versões antigas e modernas de um manual de etiqueta e pedir a explicação da mudança. A resposta correta associa o desaparecimento de ordens explícitas à interiorização do controle social. O tema dialoga com o fato social, embora Elias enfatize processos históricos e redes móveis.

Outra cobrança liga centralização do Estado, monopólio da força e transformação dos guerreiros em cortesãos. Procure alternativas que conectem mudanças políticas e comportamentais. Evite as que apresentam os costumes como evolução biológica ou decisão consciente de uma autoridade.

Também pode surgir a relação indivíduo-sociedade. Para Elias, não há escolha entre explicar tudo pelo sujeito ou pela estrutura. A figuração mostra pessoas interdependentes, com recursos desiguais, produzindo resultados que nenhuma delas planejou inteiramente.

Exercício de fixação

Questão autoral inspirada no estilo do Enem. Em edições antigas de um manual, há ordens detalhadas para conter gestos à mesa. Em edições recentes, várias ordens somem, embora os gestos continuem proibidos socialmente. Como Elias explica isso?

  1. Os hábitos passaram a ser geneticamente herdados.
  2. A coerção social foi interiorizada como autocontrole.
  3. As relações de dependência desapareceram.
  4. O Estado abandonou o monopólio da força.
  5. A etiqueta perdeu toda função de distinção.

Gabarito: B. A norma externa se converte em vigilância de si, acompanhada por sentimentos como vergonha e constrangimento.

O que é essencial lembrar?

Elias conecta detalhes cotidianos a transformações de longa duração. Processo civilizador, sociogênese, psicogênese, figuração e interdependência mostram como instituições e personalidades se formam juntas. Para ampliar a comparação entre autores, revise também a ação social.

Em prova, procure relações, processos e mudanças históricas. Desconfie de qualquer alternativa que transforme civilização em elogio moral, sequência inevitável ou característica natural de um povo.

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Conheça o autor
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Escrito por:
Fábio Vieira

Formado em Ciências Biológicas pela Universidade de Taubaté, com especialização em Parasitologia e Microbiologia pela Instituto Butantan. Possui segunda graduação em Comunicação Social, habilitado em Jornalismo, pelo Unifatea

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