Índice
Introdução
Você já ouviu a palavra “nonada”? E a palavra “ensimesmudo”? Se nunca ouviu, pode ficar calmo. Esses são neologismos, ou seja, palavras inventadas pelo autor Guimarães Rosa!
Principais conclusões
- Guimarães Rosa foi um escritor mineiro da terceira fase do modernismo brasileiro, também diplomata e médico, conhecido por criar neologismos e por uma prosa estilizada que reúne regionalismo, análise psicológica de personagens e elementos de realismo mágico.
- Sua técnica mistura neologismos e português coloquial do sertão, influência de vários idiomas, estrutura narrativa poética e transcrição da fala popular; conjuga monólogo, análise psicológica e ocorrências surreais em cenários aparentemente realistas.
- Inserido no modernismo tardio, Rosa tornou o sertão mineiro tema universal, retratando vaqueiros, jagunços, vaquejadas e tradições regionais enquanto articula questões sociais, identitárias e existenciais, tornando o espaço local metáfora da condição humana.
- Em provas de literatura, atenção a neologismos, à representação do falar sertanejo e aos conflitos morais/metafísicos presentes em obras como Grande Sertão: Veredas; relacione texto a história, sociologia e filosofia para responder questões interdisciplinares.
- A relevância de Rosa está em renovar a língua literária brasileira, valorizar a fala regional e oferecer instrumentos de análise sobre identidade, ética e problemas sociais contemporâneos, tornando sua obra útil para leitura crítica e intertextual.
Quem foi Guimarães Rosa?
Guimarães Rosa foi um escritor mineiro da terceira fase do modernismo brasileiro. Além disso, também foi diplomata e médico.
Sabia mais de 24 idiomas, entre eles, francês, alemão, holandês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, russo, latim e grego.
Prosa
Guimarães Rosa é um grande exemplo de autor que soube usar, ao mesmo tempo, as três vertentes citadas da terceira fase do modernismo: a análise psicológica das personagens, o realismo mágico – em que acontecimentos surreais ocorrem em um mundo normal –, e o regionalismo, em que o interior do país é retratado.
Por ser do interior de Minas Gerais, Guimarães Rosa soube como trazer o sertão mineiro para a literatura. Ele transcreveu com perfeição a coloquialidade com que vaqueiros, jagunços e sertanejos conversavam. Vaquejadas, ciganos e onças são temas recorrentes em sua obra.
“De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular idéia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso…”
Para o autor, o sertão era mais do que uma localidade no interior do Brasil. O sertão, para ele, era universal e estava dentro de cada ser humano.
Para ele, o importante era falar sobre os problemas internos do ser humano e também sobre a metafísica da vida: há sentido na existência? O Bem e o Mal existem? Há um Deus? A obra “Grande Sertão: Veredas” enfatiza a presença do Diabo.
Estilo
O autor ficou conhecido por criar novas palavras, os famosos neologismos. Seu estilo era altamente estilizado e poético. Diplomata, ele chegou a estudar 24 idiomas e soube usar desse conhecimento na hora de criar e utilizar palavras já conhecidas. Ele misturava diversos idiomas e enfatizava a importância da língua portuguesa, principalmente a linguagem do cotidiano.
“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”
Obras
Sua primeira obra publicada foi “Magma”, em 1939. Em 1946, ele lança “Sagarana”, importante livro de contos que mostra perfeitamente seu estilo. Nele, o leitor encontra o famoso conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”.
Em 1956, Guimarães Rosa publica sua obra-prima: o romance “Grande Sertão: Veredas”. Nele, o autor conta a história de Riobaldo, um jagunço que acaba se apaixonando pelo colega Diadorim. Não queremos dar spoilers, mas há um pacto com demônio no meio do enredo.
“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior.”
Guimarães Rosa possui um dos estilos mais únicos da literatura brasileira. Ele soube escrever poeticamente e usar a linguagem da melhor forma possível, manejando-a conforme queria.
Todavia, ele não se prendeu em uma torre de marfim: sempre deu foco aos problemas sociais pelos quais o povo do campo, principalmente do sertão, passa todos os
dias. Ele foi politicamente engajado e construiu obras que mostram com fidelidade o que é ser mineiro, o que é ser um morador do interior do país.
Exercício de fixação
Exercícios sobre Guimarães Rosa para vestibular
ENEM/2015
Famigerado
“Com arranco, [o sertanejo] calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.
O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, insequentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá:
— Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado… faz-me-gerado… falmisgeraldo… familhas-gerado…?”
ROSA, J. G. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988
A linguagem peculiar é um dos aspectos que conferem a Guimarães Rosa um lugar de destaque na literatura brasileira. No fragmento lido, a tensão entre a personagem e o narrador se estabelece porque