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Redação

Crônica - O que é Crônica?

Bianca Ferraz
Publicado por Bianca Ferraz
Última atualização: 15/10/2018

Introdução

A crônica é um tipo de texto literário caracterizado pela abordagem de fatos do cotidiano.

O termo crônica é derivado do grego chronos, que significa tempo. Essa derivação se justifica porque a crônica é um gênero em que o tempo se apresenta de forma limitada.

De modo geral, as crônicas abarcam um período curto de tempo, diferentemente das narrativas, em que podem se passar muitos anos, por exemplo.

A crônica, muitas vezes, apresenta-se como uma crítica ou um comentário sobre um tema que esteja sendo debatido na atualidade. Ela não tem a intenção de abordar várias questões, trata-se de uma percepção da realidade, moldada pelo olhar do cronista.

Muitos comparam a crônica à fotografia: ambas trabalham com um único instante e é a partir dele que se podem construir reflexões, questionamentos, críticas, entre outros.

A crônica é bastante utilizada no jornalismo, tanto por ser um texto curto quanto por seu potencial de gerar reflexões em seus leitores. Grande parte dos jornais apresenta colunas de crônicas de tipos variados, como veremos posteriormente.

Características da crônica

Texto curto

Como costuma abordar um fato cotidiano a partir de uma fotografia do acontecimento, o texto é, de modo geral, curto, limitando-se a contar apenas o que é necessário para a reflexão sobre o assunto;

Temas do cotidiano

As crônicas trabalham com acontecimentos banais. A crônica não vai se ocupar dos grandes feitos da humanidade, como as epopeias (a exemplo de “Os Lusíadas”), ela vai abordar o ato de buscar o pão na padaria ou o jornal na banca, por exemplo. As temáticas cotidianas são o que permitem à crônica aproximar-se do dia a dia de seus leitores.

Percepção pessoal do tema

Cada tema tratado, por mais banal que seja, deve ser abordado a partir de uma percepção de mundo pessoal. Caso se limitasse a contar um fato ou um episódio, o autor estaria escrevendo uma narração. A crônica ultrapassa o texto meramente narrativo, pois promove, a partir daquilo que é contado, uma reflexão, uma visão de mundo.

Linguagem simples e coloquial

Por abordar temas cotidianos, a linguagem utilizada na crônica é simples e coloquial.

Poucos personagens

A crônica trabalha com elementos reduzidos – um período de tempo curto, um espaço limitado e poucos (ou até mesmo nenhum) personagens. Isso se deve, primeiramente, à curta extensão do texto e, também, ao seu objetivo, que não está centrado em narrar, mas em fazer refletir, em provocar o leitor.

Estrutura da crônica

Como qualquer outro gênero, a crônica tem uma estrutura básica a partir da qual é construída. Veja como se compõe, geralmente, esse tipo de texto:

  • Introdução
  • Descrição/narração do fato cotidiano
  • Reflexão/crítica construída a partir do fato apresentado anteriormente.

Veja, a seguir, uma crônica de Nelson Rodrigues:

O escrete de loucos

“Amigos, a bola foi atirada no fogo como uma Joana d’Arc. Garrincha apanha e dispara. Já em plena corrida, vai driblando o inimigo. São cortes límpidos, exatos, fatais. E, de repente, estaca. Soa o riso da multidão — riso aberto, escancarado, quase ginecológico. Há, em torno do Mané, um marulho de tchecos. Novamente, ele começa a cortar um, outro, mais outro. Iluminado de molecagem, Garrincha tem nos pés uma bola encantada, ou melhor, uma bola amestrada. O adversário para também. O Mané, com quarenta graus de febre, prende ainda o couro.

A partida está no fim. O juiz russo espia o relógio. E o Brasil não precisa vencer um vencido. A Tchecoslováquia está derrotada, de alto a baixo, da cabeça aos sapatos. Mas Garrincha levou até a última gota o seu “olé” solitário e formidável. Para o adversário, pior e mais humilhante do que a derrota, é a batalha desigual de um só contra onze. A derrota deixa de ser sóbria, severa, dura como um claustro. Garrincha ateava gargalhadas por todo o estádio. E, então, os tchecos não perseguiram mais a bola. Na sua desesperadora impotência, estão quietos. Tão imóveis que pareceram empalhados.

Garrincha também não se mexe. É de arrepiar a cena. De um lado, uns quatro ou cinco europeus, de pele rósea como nádega de anjo; de outro lado, feio e torto, o Mané. Por fim, o marcador do brasileiro, como única reação, põe as mãos nos quadris como uma briosa lavadeira. O juiz não precisava apitar. O jogo acabava ali. Garrincha arrasara a Tchecoslováquia, não deixando pedra sobre pedra. Se aparecesse, na hora, um grande poeta, havia de se arremessar, gritando: — “O homem só é verdadeiramente homem quando brinca!” Num simples lance isolado, está todo o Garrincha, está todo o brasileiro, está todo o Brasil. E jamais Garrincha foi tão Garrincha, ou tão homem, como ao imobilizar, pela magia pessoal, os onze latagões tchecos, tão mais sólidos, tão mais belos, tão mais louros do que os nossos. Mas vejam vocês: de repente, o Mané põe, num jogo de alto patético, um traço decisivo do caráter brasileiro: — a molecagem.

O Hélio Pellegrino, que é poeta e psicanalista, dizia-me, outro dia: — “O brinquedo é a liberdade!” E para Garrincha, o brinquedo, no fim da batalha, foi a molecagem livre, inesperada, ágil e criadora. Varou os pés adversários, as canelas, os peitos. Não tinha nenhum efeito prático a sua jogada arrebatadora e inútil. Mas o doce na molecagem é a alegria insopitável e gratuita. E não houve, em toda a Copa, um momento tão lírico e tão doce.

Amigos, ninguém pode imaginar a frustração dos times europeus. Eles trouxeram, para 62, a enorme experiência de 58. Jogaram contra o Brasil na Suécia, trataram de desmontar o nosso futebol, peça por peça. Toda a nossa técnica e toda a nossa tática foram estudadas com sombrio élan. Sobre Garrincha, eis o que diziam os técnicos do Velho Mundo: — “Só dribla para a direita!” Era a falsa verdade que se tornaria universal. O próprio Pelé parecia um mistério dominado.

Após quatro anos de meditação sobre o nosso futebol, o europeu desembarca no Chile. Vinha certo, certo, da vitória. Havia, porém, em todos os seus cálculos, um equívoco pequenino e fatal. De fato, ele viria a apurar que o forte do Brasil não é tanto o futebol, mas o homem. Jogado por outro homem o mesmíssimo futebol, seria o desastre. Eis o patético da questão: — a Europa podia imitar o nosso jogo e nunca a nossa qualidade humana. Jamais, em toda a experiência do Chile, o tcheco ou o inglês entendeu os nossos patrícios. Para nos vencer, o alemão ou o suíço teria de passar várias encarnações aqui. Teria que nascer em Vila Isabel, ou Vaz Lobo. Precisaria ser camelô no largo da Carioca. Precisaria de toda uma vivência de botecos, de gafieira, de cachaça, de malandragem geral.

Aí está: — no Velho Mundo os sujeitos se parecem, como soldadinhos de chumbo. A dessemelhança que possa existir de um tcheco para um belga, ou um suíço, é de feitio do terno ou do nariz. Mas o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul-americanos. Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana. O homem do Brasil entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem. Citei a brincadeira de Garrincha num final dramático de jogo. Era a molecagem. Aqueles quatro ou cinco tchecos, parados diante de Mané, magnetizados, representavam a Europa. Diante de um valor humano insuspeitado e deslumbrante, a Europa emudecia, com os seus túmulos, as suas torres, os seus claustros, os seus rios.

Vocês assistiam, pelo videoteipe, todos os jogos. O europeu aparecia com uma seca, exata objetividade, sem uma concessão ao delírio. Ele próprio se engradava dentro de um esquema irredutível. Ao passo que o Brasil faz um futebol delirante. Numa simples ginga de Didi, há toda uma nostalgia de gafieiras eternas. O nosso escrete era vidência, iluminação, irresponsabilidade criadora. Só a Espanha é que chegou a lembrar o Brasil. Seu escrete parecia passional também. Mas logo se percebeu a falsa semelhança. Os espanhóis têm uma paixão sem gênio, uma paixão burra. Chegaram a nos ameaçar, por vezes. Veio, porém, um sopro da praça Sete, do Ponto de 100 Réis, e Amarildo, o Possesso, encampou dois.

Contra a Inglaterra foi uma vitória linda. Não tínhamos rainhas, nem Câmara de Comuns, nem lordes Nelsons. Mas tínhamos Garrincha. E tínhamos Zagalo, o de canelas finíssimas e espectrais. E Nilton Santos, com a sua salubérrima eternidade. E negros ornamentais, folclóricos, como Didi, Zózimo e Djalma Santos. Logo se viu, entre o nosso craque e o inglês, todo um abismo voraz. O inglês apenas joga futebol, ao passo que o brasileiro “vive” cada lance e sofre cada bola na carne e na alma. Djalma Santos põe, no seu arremesso lateral, toda a paixão de um Cristo negro.

E mesmo fora do futebol, o europeu faz uma imitação da vida, enquanto que o brasileiro vive de verdade e ferozmente. Ninguém compreenderá que foi a nossa qualidade humana que nos deu esta Copa tão alta, tão erguida, de fronte de ouro. E mais: — foi o mistério de nossos botecos, e a graça das nossas esquinas, e o soluço dos nossos cachaças, e a euforia dos nossos cafajestes. Jogamos no Chile com ardente seriedade. Mas a última jogada de Mané, no adeus aos Andes, foi uma piada, tão linda e tão plástica. No mais patético das batalhas, o escrete soube brincar. Esse toque de molecagem brasileira é que deu à vitória uma inconcebível luz.”

Tipos de crônicas

Há diversos tipos de crônicas. Elas podem ser argumentativas, humorísticas, narrativas, entre outros. Confira os principais tipos:

Crônica narrativa

A partir de um evento cotidiano que é narrado na introdução e no desenvolvimento do texto, seu objetivo é mostrar a opinião do cronista sobre um tema, o que, em geral, ocorre no final do texto.

Crônica argumentativa

É a crônica que tem como objetivo mostrar um posicionamento, favorável ou contrário, a respeito de certo tema ou, ao menos, promover um debate sobre ele. Para isso, o texto apresenta a questão, desenvolvendo possíveis linhas de raciocínio sobre ele e, por fim, apresenta o posicionamento do cronista.

Crônica humorística

É aquela que tem como objetivo gerar humor a partir de uma situação cotidiana. Tendo como expoente Millôr Fernandes, a estrutura desse tipo de crônica pode ser variável, de acordo com o modo como se constrói seu humor.

Crônica lírica

Esse tipo de crônica é aquele que está mais ligado à emoção. Essa característica faz com que o texto tenha maior expressividade.


Exercícios

Exercício 1
(ENEM/2008)

São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação atingirá a fauna e a flora domesticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e invertidos em estatísticas. O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando:

— Quantos são aqui?

Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:

— Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.

E outro:

— Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota dos seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor... (...)

E outro:

— Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!

(Fragmento de: Rubem Braga. Para gostar de ler. v. 3. São Paulo: Ática, 1998, p. 32-3)

O fragmento acima, em que há referência a um fato sócio-histórico — o recenseamento —, apresenta característica marcante do gênero crônica ao:

Ilustração: Rapaz corpulento de camiseta, shorts e tênis acenando

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