Achille Mbembe: biografia, necropolítica e poder
Publicado por Fábio Vieira | Última atualização: 15/9/2026Índice
Introdução
Achille Mbembe é um historiador e teórico político camaronês conhecido pelo conceito de necropolítica. Ele investiga como formas modernas de poder expõem certas populações à morte, ao abandono e a condições em que sobreviver se torna permanentemente difícil.
O conceito circula em redações e debates públicos, mas precisa ser usado com precisão. No Enem e nos vestibulares, pode ajudar a analisar colonialismo, racismo, fronteiras, encarceramento e violência de Estado quando o texto-base mostra distribuição desigual de proteção e risco.
Em resumo:
- Mbembe nasceu em Camarões em 1957 e desenvolveu carreira acadêmica em instituições africanas e internacionais.
- Necropolítica é o poder de produzir mundos em que alguns grupos são tornados matáveis ou descartáveis.
- A colônia é central porque nela soberania, racismo, ocupação territorial e violência foram combinados de forma extrema.
- O conceito não é sinônimo de qualquer morte causada pelo Estado; exige analisar estruturas, populações e condições duradouras de exposição.
Quem é Achille Mbembe?
Joseph-Achille Mbembe nasceu em 1957, em Camarões, país que havia passado pelo domínio colonial alemão e pela administração francesa e britânica. Formou-se em História e concluiu doutorado na Universidade Sorbonne, em Paris. Sua trajetória acadêmica passou por universidades nos Estados Unidos, na África do Sul e em outros países.
Mbembe escreveu sobre poder na África pós-colonial, democracia, raça, fronteiras e futuro planetário. Entre suas obras estão Da pós-colônia, Crítica da razão negra e Necropolítica. Sua análise dialoga com autores como Michel Foucault e Frantz Fanon, mas desenvolve problemas próprios.
Ao contrário de leituras que tratam a África apenas como ausência ou atraso, Mbembe examina a criatividade, as contradições e as formas específicas de poder nas sociedades pós-coloniais. Ele também critica categorias europeias quando são aplicadas como medidas universais sem considerar a experiência colonial.

O que é necropolítica?
Necropolítica designa formas de poder que determinam quem pode ser protegido e quem pode ser exposto à morte. Essa exposição não ocorre apenas por execução direta. Pode surgir pela criação de territórios sem segurança, pela retirada sistemática de recursos ou pela manutenção de populações sob medo, cerco e risco contínuo.
O termo necropoder destaca a capacidade prática de produzir “mundos de morte”: espaços em que grupos vivem como sobreviventes, com direitos suspensos e futuro limitado. A análise se concentra em como soberania, violência, tecnologia e classificação racial se combinam.
Não basta encontrar uma política pública ruim e chamá-la de necropolítica. É preciso demonstrar seleção desigual de vidas, duração estrutural e mecanismos que tornam determinados grupos descartáveis. Esse cuidado evita que o conceito vire apenas uma palavra forte.
Qual é a relação entre biopolítica e necropolítica?
Mbembe dialoga com Michel Foucault, que analisou o biopoder: técnicas modernas de administrar a vida das populações, como estatísticas, medicina, disciplina e políticas de saúde. Em termos simples, o poder não apenas proíbe; ele mede, classifica e tenta produzir certos modos de viver.
Mbembe pergunta se esse modelo explica suficientemente contextos em que destruir, abandonar ou manter alguém próximo da morte ocupa o centro da soberania. A necropolítica não apaga a biopolítica. Ela desloca o foco para a distribuição radicalmente desigual da possibilidade de viver.
Em uma epidemia, por exemplo, políticas de vacinação podem expressar gestão da vida. Se certos territórios são deliberadamente privados de proteção e tratados como perdas aceitáveis, a pergunta necropolítica ganha força. A aplicação depende de evidências e não apenas do resultado trágico.
Por que colonialismo e racismo são centrais?
A colônia foi um espaço em que a potência ocupante reivindicou poder excepcional sobre terras e corpos. Populações colonizadas foram classificadas como inferiores e colocadas fora das proteções reconhecidas na metrópole. O estudo do colonialismo mostra a base histórica dessa separação.
O racismo permite dividir a humanidade e apresentar a morte de alguns como necessária à segurança ou prosperidade de outros. Assim, não é apenas preconceito pessoal; pode funcionar como tecnologia política de seleção. Fronteiras, documentos e policiamento materializam classificações em espaços e rotinas.
Mbembe também retoma Fanon para analisar a cidade colonial repartida: uma zona equipada para colonizadores e outra submetida a carência e vigilância. O espaço não apenas reflete desigualdade; ele organiza mobilidade, risco e acesso à vida.
Como Estado, violência e estado de exceção se conectam?
Estado de exceção é a suspensão de garantias sob a justificativa de emergência. Quando a exceção deixa de ser breve e se torna regra para certos grupos, detenções, barreiras e operações podem ocorrer sem a proteção aplicada ao restante da sociedade. A soberania aparece como poder de decidir onde a lei vale plenamente.
Tecnologias contemporâneas ampliam vigilância e capacidade de ataque à distância. Muros, drones, bancos de dados e zonas militarizadas podem fragmentar territórios e controlar movimentos. A técnica não é neutra quando se integra a escolhas sobre quais vidas merecem proteção.
Nem toda ação estatal é necropolítica, e grupos não estatais também podem exercer necropoder. Em provas, o conceito deve ser ligado à produção sistemática de vulnerabilidade. A mera presença de violência, sem seleção populacional e estrutura de abandono, é insuficiente.
Onde o conceito ajuda a ler o Brasil e o mundo?
O conceito pode orientar análises de encarceramento, conflitos territoriais, políticas de fronteira e desigualdade racial. No Brasil, pode dialogar com o racismo estrutural quando dados e textos mostram que risco, proteção e atuação policial são distribuídos de forma desigual.
Também ajuda a discutir refugiados, populações sem acesso contínuo a serviços e territórios tratados como descartáveis. A aplicação responsável requer contexto histórico, indicadores e identificação das decisões que produzem exposição. Não se deve presumir automaticamente intenção individual de matar.
Em redação, use o conceito para explicar um mecanismo, não para substituir a análise. Apresente o problema, indique como certos grupos são diferenciados e proponha medidas compatíveis com direitos humanos e cidadania. Evite frases absolutas que generalizem toda ação do Estado.
Como Achille Mbembe pode cair no Enem?
Uma questão pode descrever território sob vigilância permanente e direitos suspensos. A resposta adequada relaciona soberania à exposição seletiva à morte. Outra pode comparar biopoder e necropoder. O conteúdo sobre direitos humanos ajuda a reconhecer quais garantias foram negadas.
A principal pegadinha é tratar necropolítica como sinônimo de homicídio. O conceito é mais amplo e estrutural, pois inclui condições que fazem determinados grupos viverem sob ameaça e abandono. Outra armadilha é ignorar a história colonial e racial que sustenta a divisão.
Observe os verbos do texto: classificar, cercar, abandonar, suspender, expor e tornar descartável são pistas. Depois identifique quem decide, que população suporta o risco e quais instituições mantêm a situação.
Exercício de fixação
Questão autoral inspirada no estilo do Enem. Um território habitado por um grupo racializado permanece sob bloqueios, vigilância e acesso irregular a água e saúde, enquanto áreas vizinhas recebem proteção plena. Qual leitura se aproxima de Mbembe?
- Distribuição neutra de recursos escassos.
- Necropolítica como produção desigual de exposição à morte.
- Ação social sem relação com instituições.
- Mercadoria fictícia como explicação exclusiva.
- Pluralidade política plenamente realizada.
Gabarito: B. A situação combina seleção populacional, controle territorial e condições duradouras de risco, elementos centrais da necropolítica.
O que é essencial lembrar?
Mbembe oferece uma linguagem para investigar quem recebe proteção e quem é empurrado para zonas de abandono. Necropolítica, colonialismo, racismo e exceção explicam uma distribuição política da vulnerabilidade. A segregação social é uma leitura complementar útil.
Em prova ou redação, defina o conceito, mostre o mecanismo e sustente a aplicação com elementos do caso. Precisão é mais valiosa do que usar o termo apenas para intensificar uma denúncia.
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