Filosofia da linguagem: significado, uso e pensamento em Wittgenstein e Saussure
Publicado por Fábio Vieira | Última atualização: 1/10/2026Índice
Introdução
Em resumo:
- Semântica estuda significado; pragmática examina o uso em contexto.
- Saussure entende o signo pela relação entre significante e significado.
- O primeiro Wittgenstein enfatiza a forma lógica; o segundo, jogos de linguagem.
- Palavras não funcionam isoladas: dependem de sistemas, práticas e situações.
A Filosofia da linguagem investiga como palavras significam, como frases se relacionam com o mundo e como o contexto altera o que dizemos. Uma mesma expressão, como “está frio aqui”, pode descrever a temperatura ou funcionar como pedido para fechar a janela. A diferença mostra que compreender linguagem exige olhar para significado e uso.
O tema reúne Filosofia, Linguística e lógica, mas cada área formula perguntas próprias. No Enem, ele pode aparecer em textos sobre comunicação, interpretação, regras sociais, discurso e limites da expressão.
O que a Filosofia da linguagem estuda?
Ela pergunta o que torna um som ou sinal capaz de significar alguma coisa. Também examina referência, verdade, interpretação e atos realizados pela fala. Quando alguém promete, por exemplo, não está apenas descrevendo um fato: está assumindo um compromisso.
Uma distinção inicial ajuda. Sintaxe trata das relações formais entre sinais; semântica trata do significado; pragmática considera falantes, intenções e contexto. Na prática, as dimensões interagem. A sequência “Você pode passar o sal?” tem forma de pergunta sobre capacidade, mas costuma funcionar como pedido.
Revisar as funções da linguagem oferece uma ponte útil, embora a Filosofia vá além da classificação de mensagens e investigue as condições do próprio sentido.

Como Saussure explica o signo linguístico?
Ferdinand de Saussure, referência da Linguística, define o signo como união entre significante e significado. Significante é a imagem acústica, a forma percebida da palavra; significado é o conceito associado. O signo não une simplesmente um nome a uma coisa pronta.
A relação é arbitrária: não existe semelhança natural que obrigue o objeto “mesa” a receber essa sequência sonora. Línguas diferentes usam significantes diferentes. Além disso, cada signo adquire valor por diferenças dentro do sistema. “Dia” se distingue de “noite”; “ovelha” ocupa uma rede de relações que pode não coincidir exatamente com palavras de outra língua.
Isso explica por que consultar apenas um objeto não basta para dominar uma palavra. É necessário conhecer contrastes e convenções partilhadas por uma comunidade.
Qual é a diferença entre semântica e pragmática?
A semântica pergunta pelo conteúdo convencional de palavras e frases. A pragmática observa o que um falante faz com esse conteúdo em uma situação. “Que ótimo!” pode expressar elogio genuíno ou ironia, dependendo do tom e das circunstâncias.
Contexto inclui quem fala, com quem, onde, em qual momento e com quais conhecimentos prévios. Pronomes como “eu”, “aqui” e “amanhã” mudam de referência conforme a situação. A variação entre linguagem formal e informal também mostra que escolhas adequadas dependem da prática social, não de palavras isoladas.
Como o primeiro Wittgenstein entende linguagem e mundo?
No Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein procura esclarecer a relação entre proposições e fatos. Uma proposição com sentido figura uma possibilidade de organização do mundo. Ela não precisa ser verdadeira para ter sentido; precisa poder ser comparada com a realidade.
Esse projeto dá grande importância à forma lógica. Certos problemas filosóficos nasceriam do uso inadequado da linguagem, quando tentamos dizer o que não pode ser expresso em proposições factuais. É comum resumir essa fase como uma teoria figurativa da linguagem.
O que são jogos de linguagem no segundo Wittgenstein?
Nas Investigações Filosóficas, Wittgenstein abandona a busca de uma essência única comum a todos os usos. O significado de uma palavra é compreendido pelo modo como ela funciona em práticas humanas. Ordenar, agradecer, narrar, calcular, brincar e rezar são exemplos de atividades com regras distintas.
Ele chama essas práticas de jogos de linguagem. A comparação com jogos não afirma que falar é passatempo. Mostra que aprendemos usos ao participar de atividades reguladas. A palavra “banco” significa uma instituição financeira em um contexto e um assento em outro. A frase e a situação esclarecem qual regra vale.
Esses jogos estão ligados a “formas de vida”, isto é, hábitos e práticas compartilhadas. Por isso, linguagem não é um código privado inventado por cada indivíduo. A regra só funciona porque há critérios públicos de uso.
Como linguagem, pensamento e realidade se relacionam?
Uma resposta extrema diria que palavras apenas espelham pensamentos prontos. Outra diria que a linguagem determina totalmente o que é possível pensar. A Filosofia da linguagem trabalha entre esses polos: categorias linguísticas influenciam distinções que percebemos, mas falantes também criam metáforas, corrigem conceitos e aprendem novos sistemas.
Discussões sobre semântica ajudam a perceber polissemia, sinonímia e relações de sentido. Já a Filosofia pergunta como essas relações permitem falar de objetos ausentes, ficções, valores e estados mentais.
Como o assunto aparece em questões?
Textos sobre Saussure costumam destacar arbitrariedade e valor diferencial do signo. No primeiro Wittgenstein, aparecem representação e forma lógica. No segundo, uso, regra, jogos de linguagem e formas de vida. Uma alternativa que define significado apenas como imagem mental fixa tende a contrariar a fase tardia do autor.
Questões também podem explorar linguagem verbal e não verbal. Um gesto só comunica porque integra convenções e contexto. A revisão de linguagem verbal e não verbal amplia essa leitura.
Atividade sobre significado e contexto
Questão autoral inspirada no estilo do Enem.
Em uma biblioteca, a frase “Há pessoas tentando estudar” é dirigida a um grupo que conversa alto. Embora pareça apenas descrever uma situação, ela funciona como pedido de silêncio. O caso evidencia:
- a independência total entre fala e contexto.
- a redução do significado à forma sonora.
- o papel pragmático do uso em uma prática social.
- a impossibilidade de regras linguísticas públicas.
- a identidade entre toda frase e um objeto físico.
Gabarito:
C. A intenção e o contexto fazem a frase realizar um pedido indireto. Esse exemplo mostra por que compreender linguagem exige mais do que consultar o sentido literal das palavras.
Para organizar os conceitos
A Filosofia da linguagem estuda signo, referência, verdade e ação linguística. Saussure explica o valor dos signos em um sistema; Wittgenstein passa da ênfase na figuração lógica à diversidade dos jogos de linguagem. Semântica e pragmática não competem: respondem a dimensões diferentes do sentido. Para avançar, conecte o tema às funções da linguagem e à semântica.
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