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Literatura

Cordel

Alanis Zambrini
Publicado por Alanis Zambrini
Última atualização: 3/6/2019

Introdução

O cordel, também chamado de literatura de cordel, é um gênero literário relacionado à cultura popular brasileira, mais especificamente a da região nordeste do Brasil. O gênero é grande destaque principalmente em Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Pará, Rio Grande do Norte e Ceará.

O cordel vem ganhando maior atenção desde o século XX, e, recentemente, foi reconhecido como patrimônio cultural brasileiro. Além disso, o gênero influenciou diversos escritores importantes, como Ariano Suassuna, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto.

Muito popular, o cordel é um tipo de literatura muito acessível, principalmente pelo baixo custo de sua produção. Assim, muitas pessoas buscam-no para aprenderem a ler ou para serem inseridas no mundo da literatura, fazendo com que o cordel seja um grande instrumento de combate ao analfabetismo e à falta de informação.

Origem

O cordel tem origem no Renascimento, quando se inicia a impressão de relatos tradicionalmente orais feitos pelos trovadores medievais. Seu nome está ligado à forma como os folhetos eram vendidos em Portugal, pois eram pendurados em cordões para serem expostos aos compradores.

Quando os portugueses colonizaram o Brasil, trouxeram para cá a literatura de cordel, e já na metade do século XIX, os folhetos brasileiros começaram a ser impressos, passando a se popularizar por todo o país.

Características do cordel

O cordel tem como principal característica o uso de uma linguagem ligada à oralidade (geralmente com muitos regionalismos, já que o cordel é uma tradição literária regional), além da presença de diversos elementos da cultura brasileira. Seus textos sempre buscam informar e divertir os leitores ao mesmo tempo.

O gênero é geralmente apresentado na forma de folhetos, pequenos livros que podem ou não estar pendurados por barbantes ou cordas, sendo vendidos em várias feiras ou exposições culturais, geralmente divulgados por meio dos próprios cordelistas (escritores dos cordéis), que recitam os poemas ao som de algum instrumento musical. Além disso, os folhetos podem vir acompanhados de xilogravuras, que ilustram as histórias do cordel.

Em relação ao modo como é escrito, o cordel é feito em versospodendo ter rimas ou métrica, de modo a se parecer um pouco com o gênero poema. Porém, ele se afasta da literatura tradicional, pois se utiliza de uma linguagem popular, coloquial e regional.

Os temas dos cordéis são bem variados, podendo incluir fatos do cotidiano, episódios históricos, lendas, temas religiosos, etc. Os assuntos mais populares que já circularam no Brasil foram as aventuras do cangaceiro Lampião e o suicídio de Getúlio Vargas. Também podem trazer consigo um tom de crítica social, com textos que tratam sobre temas políticos, contando com a opinião do autor.

Cordel VS Repente

Por conta da oralidade presente no cordel, muitas pessoas acabam confundindo-o com o repente. Apesar de algumas semelhanças, os dois gêneros são bem diferentes um do outro.

repente é uma manifestação popular composta por uma poesia falada e improvisada, geralmente acompanhada por algum instrumento musical.

Já o cordel é um texto, na forma de versos, expresso em folhetos e com traços de oralidade em sua linguagem.

Não tem mais como confundir, não é?

Exemplo de cordel

Abaixo, vamos ver um exemplo de cordel, para que possamos nos familiarizar melhor com o gênero. É claro que, aqui, só poderemos ter acesso ao texto, mas não é por isso que as outras características visuais ou materiais do cordel devam ser ignoradas.

A chegada de Lampião no céu Autor: Guaipuan Vieira Foi numa Semana Santa Tava o céu em oração São Pedro estava na porta Refazendo anotação Daqueles santos faltosos Quando chegou Lampião. Pedro pulou da cadeira Do susto que recebeu Puxou as cordas do sino Bem forte nele bateu Uma legião de santos Ao seu lado apareceu. São Jorge chegou na frente Com sua lança afiada Lampião baixou os óculos Vendo aquilo deu risada Pedro disse: Jorge expulse Ele da santa morada.. E tocou Jorge a corneta Chamando sua guarnição Numa corrente de força Cada santo em oração Pra que o santo Pai Celeste Não ouvisse a confusão. O pilotão apressado Ligeiro marcou presença Pedro disse a Lampião: Eu lhe peço com licença Saia já da porta santa Ou haverá desavença. Lampião lhe respondeu: Mas que santo é o senhor? Não aprendeu com Jesus Excluir ódio e rancor?… Trago paz nesta missão Não precisa ter temor. Disse Pedro isso é blasfêmia É bastante astucioso Pistoleiro e cangaceiro Esse povo é impiedoso Não ganharão o perdão Do santo Pai Poderoso Inda mais tem sua má fama Vez por outra comentada Quando há um julgamento Duma alma tão penada Porque fora violenta Em sua vida é baseada. - Sei que sou um pecador O meu erro reconheço Mas eu vivo injustiçado Um julgamento eu mereço Pra sanar as injustiças Que só me causam tropeço. Mas isso não faz sentido Falou São Pedro irritado Por uma tribuna livre Você aqui foi julgado E o nosso Onipotente Deu seu caso encerrado. - Como fazem julgamento Sem o réu estar presente? Sem ouvir sua defesa? Isso é muito deprimente Você Pedro está mentindo Disso nunca esteve ausente. Sobre o batente da porta Pedro bateu seu cajado De raiva deu um suspiro E falou muito exaltado: Te excomungo Virgulino Cangaceiro endiabrado. Houve um grande rebuliço Naquele exato momento São Jorge e seus guerreiros Cada qual mais violento Gritaram pega o jagunço Ele aqui não tem talento. Lampião vendo o afronto Naquela santa morada Disse: Deus não está sabendo Do que há na santarada Bateu mão no velho rifle Deu pra cima uma rajada. O pipocado de bala Vomitado pelo cano Clareou toda a fachada Do reino do Soberano A guarnição assombrada Fez Pedro mudar de plano. Em um quarto bem acústico Nosso Senhor repousava O silêncio era profundo Que nada estranho notava Sem dúvida o Pai Celeste Um cansaço demonstrava. Pedro já desesperado Ligeiro chamou São João Lhe disse sobressaltado: Vá chamar Cícero Romão Pra acalmar seu afilhado Que só causa confusão. Resmungando bem baixinho Pra raiva poder conter Falou para Santo Antônio: Não posso compreender Este padre não é santo O que aqui veio fazer?! Disse Antônio: fale baixo De José é convidado Ele aqui ganhou adeptos Por ser um padre adorado No Nordeste brasileiro Onde é “santificado”. Padre Cícero experiente Recolheu-se ao aposento Fingindo não saber nada Um plano traçava atento Pra salvar seu afilhado Daquele acontecimento. Logo João bateu na porta Lhe transmitindo o recado Cícero disse: vá na frente Fique despreocupado Diga a Pedro que se acalme Isso já será sanado. Alguns minutos o padre Com uma Bíblia na mão Ao ver Pedro lhe indagou: O que há para aflição? Quem lá fora tenta entrar E também um ser cristão, São Pedro disse: absurdo Que terminou de falar Mas Cícero foi taxativo: Vim a confusão sanar Só escute o réu primeiro Antes de você julgar. Não precisa ele entrar Nesta sagrada mansão O receba na guarita Onde fica a guarnição Com certeza há muitos anos Nos busca aproximação. Vou abrir esta exceção Falou Pedro insatisfeito O nosso reino sagrado Merece muito respeito Virou-se para São Paulo: Vá buscar este sujeito. Lampião tirou o chapéu Descalço também ficou Avistando o seu padrinho Aos seus pés se ajoelhou O encontro foi marcante De emoção Pedro chorou Ao ver Pedro transformado Levantou-se e foi dizendo: Sou um homem injustiçado E por isso estou sofrendo Circula em torno de mim Só mesmo o lado ruim Como herói não estão me vendo. Sou o Capitão Virgulino Guerrilheiro do sertão Defendi o nordestino Da mais terrível aflição Por culpa duma polícia Que promovia malícia Extorquindo o cidadão. Por um cruel fazendeiro Foi meu pai assassinado Tomaram dele o dinheiro De duro serviço honrado Ao vingar a sua morte O destino em má sorte Da “lei” me fez um soldado. Mas o que devo a visita Pedro fez indagação Lampião sem bater vista: Vê padim Ciço Romão Pra antes do ano novo Mandar chuva pro meu povo Você só manda trovão Pedro disse: é malcriado Nem o diabo lhe aceitou Saia já seu excomungado Sua hora já esgotou Volte lá pro seu Nordeste Que só o cabra da peste Com você se acostumou. FIM


Exercícios

Exercício 1
(Unespar/2015)

As gravuras talhadas em madeira (imburana, cedro ou pinho) possibilitaram aos artistas populares o domínio de todo o processo de edição dos folhetos. Os desenhos acompanham o conteúdo do folheto. A simplicidade das formas, as cores chapadas, a presença de motivos, paisagens e personagens nordestinas, transportam os leitores para o mundo da fantasia, imprimindo aos reis e rainhas, criaturas fantásticas e sobrenaturais, características que se aproximam do universo de experiências dos leitores.

(MARINHO, Ana Cristina; PINHEIRO, Hélder. O Cordel no cotidiano escolar. São Paulo: Cortez. 2012, 47-47).

De acordo com a Xilogravura, isto é, gravura talhada em madeira assinale a alternativa correta:

Ilustração: Rapaz corpulento de camiseta, short e tênis acenando

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