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Literatura

Manuel Bandeira

Laisa Ribeiro
Publicado por Laisa Ribeiro
Última atualização: 11/9/2018

Introdução

Você já teve a ideia de fazer um poema sobre o porquinho-da-índia que você ganhou quando tinha 6 anos? Tarde demais... Manuel Bandeira já escreveu esse poema!

Quem foi Manuel Bandeira?

Ele foi um escritor pernambucano – mas que se mudou para o Rio de Janeiro ainda criança – da primeira fase da geração modernista. Também foi crítico de arte, historiador literário, professor e tradutor.

Ele é visto como o grande influenciador dos artistas que criaram o movimento moderno no Brasil, afinal, ele já estava criando poemas com liberdade formal e versos livres.

Os sapos da Semana de Arte Moderna

Manuel Bandeira teve forte envolvimento com a Semana da Arte Moderna, mesmo sem comparecer presencialmente. Seu poema “Os Sapos” abriu o evento e chocou o público burguês com sua crítica aos parnasianos.

Veja um trecho do poema:

Os sapos (trecho do poema)

Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,

Berra o sapo-boi:

- "Meu pai foi à guerra!"

- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: - "Meu cancioneiro

É bem martelado.

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos.

O meu verso é bom

Frumento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

Tuberculose, solidão e saudade

A carreira de Manuel Bandeira ficou marcada por seus problemas de saúde. Quando ainda era um jovem cursando a faculdade de arquitetura, em 1903, o autor descobriu que tinha tuberculose. Sua vida voltou-se para a cura da doença. Com isso, ele começa a se dedicar à literatura e muito do sofrimento sentido pela doença se transformou em poemas.

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

— Diga trinta e três.

— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…

— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

A vida em reclusão devido à tuberculose fez com que ele se tornasse um homem solitário e muito saudosista em relação ao passado. Esses temas foram muito trabalhados em sua obra poética.

No poema a seguir, o autor fala sobre o porquinho-da-índia que tivera na infância com ternura e saudade:

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos

Ganhei um porquinho-da-índia.

Que dor de coração me dava

Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele prá sala

Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos

Ele não gostava:

Queria era estar debaixo do fogão.

Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

Uma utopia: Pasárgada

Imerso em uma vida cheia de dor, Manuel Bandeira teve tempo para sonhar com um mundo utópico. Pasárgada tornou-se um dos lugares mais famosos da literatura brasileira devido ao talento de Bandeira em descrever tal local:

Vou-me Embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcaloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

Literatura

Os livros de poesia publicados por Manuel Bandeira foram:

  • A Cinza das Horas (1917)
  • Carnaval (1919)
  • Libertinagem (1930)
  • Estrela da Manhã (1936)
  • Lira dos Cinquent'anos (1940)

Sua literatura, como toda obra modernista, ficou marcada por uma poética dedicada à transgressão, aos versos livres, sem formalidades, com temáticas do cotidiano e com linguagem coloquial.

Seus temas mais usados sempre foram a doença, a morte, a saudade e a infância.

Conclusão

Manuel Bandeira influenciou os modernistas mais jovens que criaram a Semana de Arte Moderna, logo, ele se tornou uma espécie de figura paternal para o movimento. Seu talento e seu lirismo delicado ao lidar com temas tão brutais faz com que, até hoje, seja muito importante e muito intenso ler seus poemas.


Exercícios

Exercício 1
(Enem/2011)

Estrada

Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,

Interessa mais que uma avenida urbana.

Nas cidades todas as pessoas se parecem.

Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a gente.

Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.

Cada criatura é única.

Até os cães.

Estes cães da roça parecem homens de negócios:

Andam sempre preocupados.

E quanta gente vem e vai!

E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:

Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso.

Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,

Que a vida passa! que a vida passa!

E que a mocidade vai acabar.

BANDEIRA, M. O ritmo dissoluto. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.

A lírica de Manuel Bandeira é pautada na apreensão de significados profundos a partir de elementos do cotidiano. No poema Estrada, o lirismo presente no contraste entre campo e cidade aponta para:

Ilustração: Rapaz corpulento de camiseta, short e tênis acenando

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