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Literatura

O Alienista

Alanis Zambrini
Publicado por Alanis Zambrini
Última atualização: 21/12/2018

Introdução

Características do Livro

Você sabe o que é um alienista? Um alienista era um especialista da área médica durante o século XIX, sendo responsável por estudar, tratar e tentar curar diferentes doenças e síndromes psicológicas e psiquiátricas, como se fosse um tipo de pré-psiquiatra da época. Eles eram chamados assim porque se acreditava que os loucos estavam alienados, e nada mais justo do que um alienista para curá-los (de acordo com o pensamento da época).

Sabendo disso, fica muito mais fácil entender O Alienista, obra escrita por Machado de Assis e publicada em 1882. Nesse livro, Machado discute o avanço da psicologia e psiquiatria da época, além de debater sobre a linha tênue entre a loucura e a sanidade, debate este que estava em alta durante o século XIX, tendo como base as diferentes teorias psicológicas sendo desenvolvidas na Europa, principalmente na Inglaterra e na França.

Muitas pessoas consideram “O Alienista” como sendo um conto, por conta de seu tamanho pequeno, mas hoje em dia, a maioria dos críticos literários consideram que o livro seja uma novela, por sua estrutura narrativa.

Resumo da obra

O Alienista é narrado em terceira pessoa e a obra conta a história do Dr. Simão Bacamarte, que, conquistando uma boa reputação na Europa e no Brasil como médico, volta a sua cidade natal, Itaguaí, para se dedicar mais a sua profissão.

Depois de um tempo na cidade, o doutor resolve se casar com a viúva D. Evarista, que não era nem bonita e nem simpática, mas que foi escolhida pelo médico por sua saúde e boas condições de ter um filho.

No final, ela acaba não tendo nenhum filho, e Simão fecha-se em seus estudos, dedicando-se à medicina, especificamente à medicina que se relacionava com a mente humana, ou seja, passou a se tornar um alienista. Com isso, Simão pede autorização à Câmara e constrói um manicômio (um hospício) chamado Casa Verde, por conta da cor de suas janelas, que passou a abrigar todos os loucos da cidade e da região.

Em meio a isso tudo, o doutor fica obcecado com seus estudos, e passa o tempo todo analisando os tipos de loucuras que havia em seu hospício. Em um momento, Simão fica tão obsessivo com seus estudos sobre a loucura, que passa a enxergar loucura em todos que vê, mandando internar pessoas que claramente estavam sãs, mas que na cabeça do alienista estavam loucas. O médico já não comia e nem bebia, mal dormia e passava todo o seu tempo estudando a loucura e internando as pessoas.

Com o passar do tempo o clima foi fica cada vez mais pesado, até que uma rebelião de trinta pessoas estoura na cidade, liderada por Porfírio, o barbeiro. Os revoltosos protestaram na Câmara da cidade. Não foram acolhidos, mas conseguiram fazer com que o movimento crescesse, tanto que no final havia mais de trezentas pessoas protestando contra o manicômio. O que levou a maioria dos revoltosos a serem, também, internados na Casa Verde. Logo 75% da cidade estava trancafiada no hospício, incluindo o presidente da Câmara e a própria D. Evarista.

Com essa situação, Simão percebe que talvez sua teoria sobre loucura estivesse errada, e decide soltar todos os “loucos” de seu manicômio. Mais tarde, passa a fazer uma nova teoria e a internar outros tipos de pessoas, mas novamente vê que está errado e solta todos os outros que havia internado.

O final de O Alienista é impactante: vendo que suas teorias sobre loucura não funcionavam e que ninguém ao seu redor era realmente louco, o Dr. Simão Bacamarte acaba por se diagnosticar como louco, e decide trancar-se sozinho pelo resto de sua vida na Casa Verde.

Personagens Principais

Dr. Simão Bacamarte

Protagonista da história, é um médico que decide voltar para sua cidade natal e dedicar-se aos estudos da medicina e da psiquiatria, tornando-se um alienista. Acaba por construir um manicômio, em que prende quase toda a cidade, pois acreditava que todos eram loucos. No final, ele mesmo considera-se louco e tranca-se em seu hospício.

D. Evarista

Esposa de Simão, que foi escolhida por ele pela sua saúde e boa capacidade de ter filhos, pois não era nem simpática e nem bonita. Acaba não tendo nenhum filho, e no final acaba sendo internada pelo próprio marido em seu manicômio.

Crispim Soares

Boticário amigo de Simão, que apoiava e admirava os estudos do amigo, até se preso na Casa Verde.

Padre Lopes

Vigário de Itaguaí, possuía muitas virtudes, e por esse motivo acaba sendo internado na Casa Verde junto com os outros “loucos”.

Porfírio

Barbeiro da cidade, que acaba por liderar uma revolta contra as internações que ocorriam na Casa Verde. 


Exercícios

Exercício 1
(PUC-RIO)
As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia. 
- A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo. 
Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes.
Se além dessas prendas, - únicas dignas da preocupação de um sábio, - D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de
Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, - explicável mas inqualificável, - devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.

Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, - o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de "louros imarcescíveis", - expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.


Machado de Assis. O Alienista. São Paulo: Ática, 1982, pp. 9.10.

O alienista, publicado entre outubro de 1881 e março de 1882, é considerado um dos mais importantes contos de Machado de Assis. A partir da trajetória de Simão Bacamarte, protagonista da estória, Machado constrói um painel da sociedade brasileira de seu tempo, com seus valores, problemas e impasses. Tomando por base o fragmento selecionado, assinale a opção que melhor exprime a intenção do autor.
Ilustração: Rapaz corpulento de camiseta, short e tênis acenando

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