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Literatura

Simbolismo

Laisa Ribeiro
Publicado por Laisa Ribeiro
Última atualização: 28/9/2018

Introdução

Você já assistiu ao filme “As patricinhas de Beverly Hills” (1995)? Você já imaginou se esse filme teria algo em comum com o movimento literário do Simbolismo? Pois ele tem!

Em uma das cenas, a protagonista diz que uma das garotas presentes em uma festa é como um quadro do pintor impressionista Monet: “de longe, ela é bonita; de perto, ela é uma bagunça”.

Os roteiristas brincaram justamente com esse sentimento de percepção sensorial que era tão característico do impressionismo. De longe, você consegue ver a imagem; de perto, você vê como o pintor usou o pontilhado e outras técnicas semelhantes para criar a unidade da imagem.

O Simbolismo se influenciou fortemente no impressionismo, gerando essa ênfase na percepção sensorial humana, só que na literatura!

Contexto histórico

Com o fim do século XIX, todo o otimismo dera lugar a um estado de reflexão e pessimismo. Com a chegada do século XX, os conflitos apenas se intensificaram e, logo, duas guerras mundiais (Primeira e Segunda Guerra Mundial) chegariam.

Os artistas já não queriam utilizar nem o sentimentalismo romântico nem o uso da razão. Eles desconfiavam da realidade e queriam outra forma de tentar desvendá-la.

O momento de incerteza e indefinição foi transmitida por imagens mais abstratas, sem contornos definidos. Tudo passou a ser fluido e retratado de formas mais vagas. O quadro de Manet é um bom exemplo disso:

quadro "Boating" de MonetQuadro "Boating" de Monet

Características

Os artistas queriam desvendar o desconhecido utilizando símbolos. Por isso, a estética literária ficou conhecida como Simbolismo.

Alegorias eram constantemente usadas para mostrar a relação entre o mundo em que vivemos e vemos com os nossos próprios olhos e esse outro mundo misterioso e das essências, cujo o qual nós não temos contato.

A arte simbolista queria que o ser humano entendesse a realidade por meio das sensações, e não por meio da razão, como havia acontecidos nos últimos anos.

Influência do impressionismo

O impressionismo, difundido no mundo da pintura, foi uma grande influência para a literatura simbolista. Pintores como Monet, Renoir, Degas, Cézanne, Manet e Van Gogh deixaram os contornos nítidos do Realismo de lado e fizeram algo mais fluido e vago.

Eles apreciavam o jogo de luz e sombra e davam ênfase ao uso das cores. A preocupação era a mesma da do final do século XIX: capturar o momento. Nessa época, começaria um momento de abstração da arte, que seria algo bastante marcante na arte contemporânea.

Quer entender melhor como essa arte conseguia ser menos definida do que as pinturas realistas?

Você pode perceber essas características ao assistir ao filme “Com amor, Van Gogh” (2017). O filme inteiro foi feito com a mesma técnica da pintura a óleo e, além de perceber as técnicas artísticas, você poderá conhecer um pouco mais sobre a vida desse fascinante pintor – e até mesmo se emocionar! O filme está disponível na Netflix.

Van Gogh é um ótimo exemplo de como os artistas usavam os símbolos. Para o pintor, a natureza simbolizava a solidão e a tristeza.

Quadro "Colheita em Provence" por Van Gogh.Quadro "Colheita em Provence" por Van Gogh.

Literatura simbolista

No campo da literatura, o Simbolismo encontra sua origem ao mesmo tempo que o parnasianismo. Os dois são influenciados pela literatura decadentista, que valorizava o pessimismo, a estética do feio e a ilusão do real – um exemplo é a obra “Flores do mal”, de Baudelaire.

Contudo, o termo Simbolismo só aparece pela primeira vez em 1886, quando Jean Moréas afirma que a função do Simbolismo é sugerir a ideia em vez de revelá-la ao público.

Para ele, o público precisa perceber a realidade por meio de uma experiência sensorial que apenas a arte poderia proporcionar.

Ideias platônicas

O Simbolismo segue a mesma ideia que o filósofo Platão tinha: além do mundo em que nós vivemos e enxergamos, há um mundo ideal, onde tudo que nós conhecemos também existe.

Todavia, nesse mundo platônico, os objetos são feitos de sua pura essência, portanto, são perfeitos. O que nós vemos, em nosso mundo, são apenas representações dos objetos perfeitos do mundo ideal.

Assim sendo, essa estética literária pregava que, para entender algo, você precisa adentrar a sua essência. Na literatura, isso era feito a partir de um trabalho minucioso com a forma e a linguagem. A arte teria que produzir o belo.

Misticismo e magia

Mas, apesar de todo esse apreço por ideias filosóficas, os simbolistas apreciavam mesmo era o misticismo e o mistério. Tudo o que invocasse a imagem de mágico e etéreo.

Nada de romance sentimental

Com uma postura antirromântica, o mistério, a literatura e a arte eram vistas como superiores à ciência, à realidade e à vida. Era notável a crítica que os simbolistas faziam a uma sociedade dominada por ideias repletas de tecnologia e ciência em detrimento da criatividade e da arte.

Por isso, davam tanto valor às sensações, às impressões e à intuição – tudo o que não era racional.

Essa postura fez com que os simbolistas fossem chamados de nefelibatas. Ou seja, eram tidos como pessoas que vivem nas nuvens e fogem da realidade. Na verdade, Realidade, com letra maiúscula, já que uma das características usadas pelos simbolistas era o das maiúsculas alegorizantes.

Palavras que, comumente não são escritas com letra maiúscula – como amor e verdade – ganhavam o uso dessa maiúscula na escrita simbolista.

A sensação era alcançada por meio de uma literatura focada nos sentidos humanos – como paladar, tato, audição –, e elementos que enfatizassem a percepção sensorial, como perfumes e uso de cores.

Sinestesia

Uma consequência disso é o uso da sinestesia nas poesias simbolistas. Ela ocorre quando duas formas de percepção se confundem. Por exemplo, na frase “voz macia”, você percebe que um elemento da audição (voz) tem uma característica referente ao tato (macia).

Essa mistura era muito utilizada pelos poetas para intensificar a experiência sensorial. Além disso, é extremamente poético dizer que seu crush tem um perfume doce e olhos tão quentes que acalentam seu coração...

Simbolismo no Brasil

Cruz e Sousa

O autor de “Missal e Broquéis” foi o poeta mais popular do Simbolismo. Tão popular que até ganhou o apelido de “Cisne Negro”.

Cinco anos após a abolição da escravidão, Cruz e Sousa, autor negro e filho de pais que foram escravos, lançava suas obras.

O autor, que conheceu a crueldade e o preconceito da sociedade de perto, passou para o papel toda a sua dor. Seus poemas são marcados por sua profundidade filosófica e por sua angústia metafísica.

Confira o poema “Alucinação”:

Ó solidão do Mar, ó amargor das vagas,

Ondas em convulsões, ondas em rebeldia,

Desespero do Mar, furiosa ventania,

Boca em fel dos tritões engasgada de pragas.

Velhas chagas do sol, ensanguentadas chagas

De ocasos purpurais de atroz melancolia,

Luas tristes, fatais, da atra mudez sombria

Da trágica ruína em vastidões pressagas.

Para onde tudo vai, para onde tudo voa,

Sumido, confundido, esboroado, à-toa,

No caos tremendo e nu dos tempo a rolar?

Que Nirvana genial há de engolir tudo isto —

— Mundos de Inferno e Céu, de Judas e de Cristo,

Luas, chagas do sol e turbilhões do Mar?!

Além disso, algo muito forte em sua temática é o uso da cor branca. Há sempre figuras de névoa, palidez, luar, figuras alvas, neve e lírios em sua poesia. Elas aparecem para mostrar sua busca incessante pela “pureza das Formas etéreas e das Essências das coisas”.

Alphonsus de Guimaraens

Outro autor brasileiro muito famoso nessa estética é Alphonsus de Guimaraens.

O poeta mineiro soube trabalhar muito bem sua adoração pela morte na poética simbolista. A morte de sua noiva Constança o influenciou fortemente, e seu poema mais famoso fala justamente sobre a morte de uma jovem.

Veja “Ismália”:

Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu,

Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu

As asas para voar...

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar...

A série “Tudo o que é sólido pode derreter” tem um episódio exclusivo para esse episódio. Está disponível no YouTube:

Conclusão

Entre razões e emoções, a saída encontrada pelo Simbolismo é encontrar uma compreensão do mundo no mistério e no misticismo. Ele quer que o leitor sinta e perceba esse mundo através de sensações novas.

Isso pode ser alcançado por meio do cinema também! O filme “Sonhos” (1990) mostra diversos sonhos que o diretor realmente teve, com um clima surreal e misterioso, como o Simbolismo pregava.


Exercícios

Exercício 1
(ENEM/2014)

Leia o seguinte texto para responder à questão:

Vida obscura

“Ninguém sentiu  o  teu espasmo obscuro

ó ser humilde entre os humildes seres,

embriagado, tonto de prazeres,

o mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro

a vida presa a trágicos deveres

e chegaste ao saber de altos saberes

tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sofrimento inquieto,

magoado, oculto e aterrador, secreto,

que o coração te apunhalou no mundo,

Mas  eu que sempre te segui os  passos

sei que a cruz infernal prendeu-te os braços

e o teu suspiro como foi profundo!

(SOUSA, C. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova  Aguilar, 1961)

Com uma obra densa e expressiva no Simbolismo brasileiro, Cruz e Souza transpôs para seu lirismo uma sensibilidade em conflito com a realidade vivenciada. No soneto, essa percepção traduz-se em:

Ilustração: Rapaz corpulento de camiseta, short e tênis acenando

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