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Mesóclise: quando usar o pronome no meio do verbo

Publicado por Fábio Vieira | Última atualização: 31/8/2026
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Índice

Introdução

Mesóclise é a colocação do pronome oblíquo átono no interior de uma forma verbal, como em “informar-lhe-ei”. Ela ocorre em contextos formais com o futuro do presente ou o futuro do pretérito, desde que não exista uma palavra que exija próclise.

Como é rara na fala brasileira, a construção pode parecer artificial. Ainda assim, aparece em exercícios de norma-padrão, documentos solenes e textos antigos. Entender sua formação é mais útil do que decorar exemplos inteiros.

Resumo rápido:

  • A mesóclise se liga apenas ao futuro do presente e ao futuro do pretérito do indicativo.
  • O pronome entra entre o infinitivo e a terminação que marca tempo e pessoa.
  • Uma palavra atrativa antes do verbo transforma a construção em próclise.
  • No uso atual, locuções e reformulações costumam soar mais naturais sem perder formalidade.
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Por que o futuro permite a divisão

As formas sintéticas do futuro resultam historicamente da união do infinitivo com terminações associadas ao verbo haver. Na análise escolar, isso ajuda a enxergar duas partes em “direi”: o radical ligado a “dizer” e a terminação “ei”. O pronome ocupa a fronteira: “dir-te-ei”. No futuro do pretérito, “diria” forma “dir-te-ia”.

Não é necessário reconstruir toda a história da língua para aplicar a regra. Basta reconhecer os tempos verbais. Futuro do presente indica algo posterior ao momento da fala, como “contarei”. Futuro do pretérito costuma indicar hipótese, condição ou futuro visto a partir do passado, como “contaria”.

A montagem preserva infinitivo, pronome e terminação

Em verbos regulares, separe mentalmente: apresentarei → apresentar + lhe + ei → apresentar-lhe-ei; ajudariam → ajudar + nos + iam → ajudar-nos-iam. Os hífens marcam a unidade gráfica. O pronome deve manter a função adequada: “entregar-lhe-ei o livro” usa lhe para o destinatário; “entregá-lo-ei” substitui o objeto direto masculino.

Alguns futuros têm radical irregular: fazer → farei → fá-lo-ei; dizer → direi → di-lo-ei; trazer → trarei → trá-lo-ei. Quando o pronome o, a, os ou as se liga a infinitivos terminados em r, s ou z, essas consoantes caem e o pronome assume l: fazer + o → fazê-lo. A acentuação preserva a pronúncia da forma resultante.

A palavra atrativa impede a mesóclise

Se houver elemento que exige próclise, o pronome vai antes do verbo inteiro: “não lhe direi”, e não “não dir-lhe-ei”; “quando me avisarem, partirei”, e não uma forma mesoclítica depois do relativo ou conector. A atração tem prioridade porque organiza o pronome no início do grupo verbal da oração.

Negativos, relativos, interrogativos, indefinidos, certos advérbios e conjunções subordinativas são gatilhos recorrentes. A revisão de colocação pronominal permite decidir entre as três posições a partir do contexto, em vez de tratar a mesóclise como regra isolada.

Futuro não significa mesóclise em qualquer frase

A mesóclise pertence a formas sintéticas simples, como “farei” e “faria”. Em uma locução como “vou contar”, o verbo principal está no infinitivo, e outras regras orientam a posição: “vou lhe contar”, comum no Brasil, ou “vou contar-lhe”, em registro formal. Não se abre a palavra “vou” para inserir pronome.

Também não se usa mesóclise com presente, passado, subjuntivo ou imperativo. Formas como “fal-me-ou” ou “dizer-me-ava” não existem. Antes de posicionar o pronome, identifique tempo e modo. A consulta aos verbos e suas flexões ajuda a resolver essa etapa com segurança.

Registro solene e alternativas naturais

“Enviar-lhe-ei os documentos” é possível na norma-padrão, mas soa solene para muitos falantes brasileiros. Em comunicação profissional contemporânea, “vou lhe enviar os documentos” ou “enviarei os documentos a você” costuma ser clara e formal. Adequação não significa escolher sempre a forma mais rara.

Em prova, leia o objetivo. Se a questão pede correção conforme a colocação tradicional com futuro simples e sem atrator, a mesóclise pode ser a resposta. Se analisa efeito de estilo, seu uso pode caracterizar época, cerimônia, humor ou tentativa de formalidade. A forma precisa ser interpretada no gênero.

Um roteiro curto resolve a decisão

Comece procurando atrator. Se existir, use próclise: “jamais te direi”. Se não existir, confira se o verbo está no futuro do presente ou do pretérito. Em registro normativo formal, cabe mesóclise: “dir-te-ei” ou “dir-te-ia”. Se o tempo for outro, avalie próclise e ênclise segundo o restante da oração.

Depois, confirme a função do pronome e a grafia da forma verbal. Essa sequência evita dois erros comuns: criar mesóclise em tempo inadequado e usar pronome incompatível com o complemento. O conteúdo de pronomes reforça a escolha entre o, a, lhe, me, te, nos e outras formas.

Montando a forma verbal por etapas

Questão autoral inspirada no estilo do Enem: Em um comunicado de registro formal, complete: “Assim que houver confirmação, ___ o novo cronograma.” O verbo é “enviar”, no futuro do presente, e o pronome substitui “aos participantes”.

 

  1. enviar-lhes-ei
  2. lhes enviarei
  3. enviarei-lhes
  4. enviar-ei-lhes
  5. lhes enviar-ei

 

Gabarito comentado: alternativa A. No trecho principal, não há palavra atrativa ligada a “enviar”; o futuro do presente admite mesóclise. A forma separa enviar + lhes + ei. A oração anterior não desloca o pronome da oração principal.

Uma forma rara, mas uma lógica bem delimitada

A mesóclise não é um enigma: ela depende de futuro simples, ausência de atrator e registro compatível. O pronome ocupa a fronteira entre a base verbal e a terminação, com os ajustes gráficos exigidos por algumas combinações.

Na escrita real, clareza e adequação continuam essenciais. Conheça a construção para interpretar textos e resolver questões, mas escolha uma reformulação natural quando o gênero não exigir solenidade. Um bom treino é converter “entregar-lhe-ei”, “não lhe entregarei” e “vou lhe entregar” entre registros, preservando pessoa, tempo e função do pronome. Assim, você percebe que as formas não são sinônimos perfeitos de estilo, embora comuniquem o mesmo evento básico. Inclua também uma frase no futuro do pretérito, como “entregar-lhe-ia”, e altere-a com o atrator “jamais”. O resultado, “jamais lhe entregaria”, torna visível a prioridade da próclise. Repita o teste com pessoas e pronomes diferentes para confirmar a concordância.

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Conheça o autor
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Escrito por:
Fábio Vieira

Formado em Ciências Biológicas pela Universidade de Taubaté, com especialização em Parasitologia e Microbiologia pela Instituto Butantan. Possui segunda graduação em Comunicação Social, habilitado em Jornalismo, pelo Unifatea

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