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Literatura

Pós-Modernismo

Laisa Ribeiro
Publicado por Laisa Ribeiro
Última atualização: 28/9/2018

Introdução

O pós-modernismo foi um dos movimentos literários com mais vertentes diferentes! Nele, você pode encontrar desde uma poesia desconstruída até música popular brasileira.

Também conhecido como a terceira fase do modernismo brasileiro, o pós-modernismo foi um movimento que abrangeu tanto a prosa como a poesia.

Prosa pós-modernista

Dentro da prosa, houve três tendências muito fortes: a análise psicológica, o realismo mágico e o regionalismo.

  • Análise psicológica: consistia em dar ênfase aos problemas interiores das personagens. Principalmente os que eram produzidos devido às misérias e opressões da sociedade e da situação em que viviam. Para mostrar isso, os autores usavam uma linguagem objetiva, direta e forte.
  • Realismo mágico: consistia em enredos em que tudo parecia completamente normal, parecido com o nosso cotidiano, e, de repente, algo mágico ou surreal acontecia. Nesse gênero, o lógico e o ilógico coexistem sem que nenhum personagem se assombre.
  • Regionalismo: por sua vez, é uma tendência que já vinha sendo usada há bastante tempo pelos autores brasileiros e continuou firme e forte no pós-modernismo. Nele, o importante é dar foco aos indivíduos que moram no interior do país e que, muitas vezes, lidam com a miséria e a opressão. A intenção é dar voz a esses problemas sociais.

Guimarães Rosa

Guimarães Rosa é um grande exemplo de autor que soube usar, ao mesmo tempo, as três vertentes citadas. O mineiro, acostumado com o sertão de seu estado, soube traduzir como ninguém o interior de Minas Gerais em suas obras.

Para ele, o importante era falar sobre os problemas internos do ser humano e também sobre a metafísica da vida: há sentido na existência? O Bem e o Mal existem? Há um Deus?

O autor ficou conhecido por criar novas palavras, os famosos neologismos. Seu estilo era altamente estilizado e poético. Diplomata, ele chegou a estudar 24 idiomas e soube usar desse conhecimento na hora de criar e utilizar palavras já conhecidas. Apesar de conhecer tantos idiomas, ele soube transcrever muito bem a fala coloquial dos sertanejos, jagunços e vaqueiros mineiros.

Seus livros mais conhecidos são “Sagarana”, livro de contos, e sua obra-prima, o romance “Grande Sertão: Veredas”.

Confira um trecho de “Grande Sertão, Veredas”:

De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular idéia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...

Crônica

No período do pós-modernismo, a crônica ganha grande prestígio. A ideia do gênero é transcrever momentos do cotidiano, dando ênfase em seu lado pitoresco ou humorístico.

O importante não é o que aconteceu, mas o que pode ser tirado do fato, como uma crítica social ou um comentário engraçado.

Alguns cronistas importantes da época são:

Leia um trecho de Carlos Drummond de Andrade:

Eu fui mais um cronista, um amigo e companheiro da hora do café da manhã que um escritor. Um homem que registrava o cotidiano e o comentava com o possível bom-humor para não aumentar a tristeza e a inquietação das pessoas. Considerava o jornal um repositório de notícias tremendas. Então, o meu cantinho do jornal era aquele cantinho em que procurava distrair as pessoas dos males, dos aborrecimentos, das angústias da vida cotidiana.

Poesia pós-modernista

Neste momento do Modernismo, ao mesmo tempo em que a liberdade formal - conquistada pelas gerações anteriores - é aclamada pelo Concretismo, surgem outros poetas que desejam escrever de formas diferentes.

Surge, então, uma poesia mais rigorosa, disciplinada, como a de João Cabral de Melo Neto, e a poesia social, como a de Ferreira Gullar, que buscava falar sobre a situação política e os problemas internos dos indivíduos.

João Cabral de Melo Neto

Ele foi o poeta mais importante da geração de 45. Influenciado por Drummond e Murilo Mendes, logo achou sua voz única: devido à sua formação de engenheiro, colocou toda a precisão de um estudante de exatas em sua poesia.

Sua obra era seca e objetiva. Não havia floreios, mas apenas o que precisava ser dito.

Pernambucano, ele conhecia muito bem os problemas pelos quais o Nordeste brasileiro passava. Dedicou diversos livros a falar sobre a miséria e a opressão pelas quais os moradores do local vivenciavam. Alguns livros que falam sobre o tema: “O cão sem plumas”, “Morte e vida Severina” e “O rio”.

Leia um trecho do poema “Fábula de um Arquiteto”, de sua autoria:

A arquitetura como construir portas,

de abrir; ou como construir o aberto;

construir, não como ilhar e prender,

nem construir como fechar secretos;

construir portas abertas, em portas;

casas exclusivamente portas e tecto.

O arquiteto: o que abre para o homem

(tudo se sanearia desde casas abertas)

portas por-onde, jamais portas-contra;

por onde, livres: ar luz razão certa.

Concretismo

Essa forma de escrever poesia surge na década de 1950. Fundada por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, a ideia era continuar com a liberdade formal e transcendê-la - com o fim dos versos e da sintaxe tradicional.

No Concretismo, o importante era a forma visual do poema – uma referência às constantes e rápidas mudanças pelas quais o mundo passava devido aos meios de comunicação de massa.

Confira o poema de Décio Pignatari, criticando uma famosa marca de refrigerante:

COCA-COLA

B E B A C O C A C O L A

B A B E C O L A

B E B A C O C A

B A B E C O L A C A C O

C A C O

C O L A

C L O A C A

Poesia social

No pós-modernismo, ao mesmo tempo em que muitos estavam felizes com a liberdade e a experimentação do Concretismo, outros poetas só queriam uma linguagem discursiva, simples e direta.

Quem optava por esse estilo foi para a poesia social. O objetivo era falar sobre o cotidiano dos indivíduos e os problemas que existiam nele, principalmente no âmbito político.

Alguns grandes nomes desse período foram Geir Campos, Tiago de Melo, Moacir Félix e, principalmente, Ferreira Gullar, que era concretista mas migrou para a poesia social.

Veja um dos poemas de Gullar:

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Música popular

Na década de 60, houve uma ida da poesia para a música. Muitos poetas emprestaram suas poesias para serem transformadas em canções. Ou, então, já as faziam com esse propósito.

Nessa época, os festivais de música - com competições que davam prêmios às melhores canções - eram muito populares, principalmente entre os jovens.

Em plena ditadura militar, os poetas e músicos viram as canções como uma forma de protestar contra o regime e atingir muitas pessoas com seus discursos.

As canções mais conhecidas são “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré; “Cálice”, de Chico Buarque, e “Alegria”, alegria de Caetano Veloso.

Confira um trecho da canção “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré:

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Somos todos iguais

Braços dados ou não

Nas escolas, nas ruas

Campos, construções

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Conclusão

O pós-modernismo abrangeu um período muito importante da literatura brasileira. Em termos históricos, ela viu o fim da Segunda Guerra Mundial, a ditadura de Vargas e a ascensão da Ditadura Militar.

Sem falar nas mudanças tecnológicas que ocorriam cada vez com mais rapidez.

Por isso, é tão importante se debruçar diante desse movimento literário e descobrir quais eram os problemas pelos quais o Brasil passava naquele período.


Exercícios

Exercício 1
(ENEM/2015)

Leia o seguinte texto de Guimarães Rosa:

Famigerado

Com arranco, [o sertanejo] calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.

O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, insequentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá:

— Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado… faz-me-gerado… falmisgeraldo… familhas-gerado…?

(ROSA, J. G. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988)

A linguagem peculiar é um dos aspectos que conferem a Guimarães Rosa um lugar de destaque na literatura brasileira.

No fragmento lido, a tensão entre a personagem e o narrador se estabelece porque

Ilustração: Rapaz corpulento de camiseta, short e tênis acenando

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