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Como gerir equipes que trabalham com IA: o que mudou e o que permanece igual

Entenda como a inteligência artificial muda a gestão de equipes, a avaliação de desempenho e o papel dos profissionais nas organizações.



Em resumo:

  • A inteligência artificial reduz o tempo de execução de tarefas, mas exige que os gestores valorizem habilidades como pensamento crítico, capacidade de decisão e julgamento profissional.
  • Clareza de expectativas, confiança e feedback continuam sendo fundamentos da gestão de pessoas, especialmente em ambientes de rápida transformação tecnológica.
  • Definir responsabilidades, incentivar a revisão dos resultados gerados por IA e avaliar a evolução do julgamento profissional são medidas importantes para liderar equipes que utilizam essas ferramentas.

Veja mais informações a seguir!

A introdução da inteligência artificial (IA) generativa nas empresas tem transformado a rotina de trabalho e a maneira como os gestores acompanham o desempenho das equipes.

Atividades como análise de riscos, elaboração de relatórios e produção de atas de reunião, que antes exigiam horas de dedicação, podem ser realizadas em menos tempo com o apoio dessas ferramentas.

Em março de 2024, ao implementar soluções de IA generativa na rotina de uma equipe de gestão de projetos, observei ganhos expressivos de produtividade. Uma análise de riscos que costumava levar quatro horas passou a ser concluída em 45 minutos.

As atas de reunião começaram a ser geradas automaticamente, enquanto a produção de comunicações para stakeholders passou a exigir metade do tempo.

No entanto, os resultados técnicos vieram acompanhados de um desafio relacionado à gestão de pessoas. Uma analista sênior, com 12 anos de experiência, demonstrou preocupação com a possibilidade de suas habilidades serem substituídas.

Um gerente de projetos com certificação PMP questionou se a empresa ainda precisaria de seu trabalho em dois anos. Já um especialista em análise de riscos apresentou uma queda de produtividade após a implementação das ferramentas.

Essas reações mostram que a adoção da inteligência artificial envolve mais do que ganhos operacionais. O gestor precisa lidar simultaneamente com o aumento da produtividade e com as mudanças na identidade profissional dos colaboradores.

Uma pesquisa de Noy e Zhang, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicada em 2023, identificou ganhos de produtividade com IA em tarefas profissionais de escrita.

O estudo ajuda a compreender o potencial dessas ferramentas, mas a transformação também exige atenção aos impactos sobre a rotina e as expectativas dos trabalhadores.

Sua gestão de projetos está pronta para a inteligência artificial?

O que muda na gestão de equipes com inteligência artificial?

Antes da popularização da IA generativa, parte do valor de um analista era associada à velocidade e à qualidade com que produzia relatórios, análises, planilhas e apresentações. Com a automação de algumas dessas atividades, o tempo necessário para entregar determinados materiais diminui.

Um trabalho que antes exigia oito horas pode passar a demandar apenas duas. Nesse cenário, a questão central para o gestor é como aproveitar as seis horas economizadas.

Há dois caminhos possíveis:

  • Aumentar o volume de entregas: solicitar mais relatórios, análises e apresentações, mantendo o mesmo padrão de trabalho.
  • Ampliar a profundidade das atividades: direcionar o tempo disponível para investigar riscos, aprimorar análises, explorar diferentes cenários e fortalecer o relacionamento com stakeholders.

A segunda alternativa permite aproveitar melhor o potencial da tecnologia. Em vez de simplesmente aumentar a quantidade de entregas, o gestor pode ampliar o impacto do trabalho realizado pela equipe.

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A execução perde espaço para o julgamento profissional

A inteligência artificial consegue acelerar tarefas estruturadas, como:

  • Sintetizar grandes volumes de informação;
  • Organizar e formatar documentos;
  • Gerar alternativas para determinados problemas;
  • Identificar inconsistências em materiais;
  • Produzir versões iniciais de relatórios e comunicações.

Entretanto, essas capacidades não eliminam a necessidade de intervenção humana. O profissional continua responsável por avaliar se uma resposta faz sentido diante do contexto da organização, identificar erros nas informações geradas e considerar os interesses dos envolvidos em uma decisão.

Entre as habilidades que ganham importância nesse cenário estão:

  • Pensamento crítico;
  • Capacidade de interpretação;
  • Tomada de decisão em situações ambíguas;
  • Negociação com diferentes stakeholders;
  • Conhecimento do contexto organizacional;
  • Avaliação da qualidade das respostas produzidas pela IA.

O foco da gestão, portanto, precisa migrar da execução de tarefas para a capacidade de utilizar informações e ferramentas na resolução de problemas.

Como avaliar o desempenho de profissionais que utilizam IA?

A adoção de ferramentas de inteligência artificial também exige mudanças nos critérios de avaliação de desempenho.

Medir a produtividade exclusivamente pela quantidade de documentos, relatórios ou análises produzidos pode levar a conclusões equivocadas. Afinal, a tecnologia permite gerar esses materiais em menos tempo.

O gestor precisa considerar indicadores que demonstrem a contribuição efetiva de cada profissional, como:

  • Qualidade das decisões tomadas;
  • Impacto das entregas nos resultados do projeto;
  • Capacidade de identificar erros e limitações da IA;
  • Profundidade das análises realizadas;
  • Habilidade para adaptar respostas genéricas a situações específicas.

A produtividade continua importante, mas precisa ser analisada em conjunto com a qualidade e o impacto do trabalho.

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O que permanece igual na gestão de pessoas?

Apesar das transformações tecnológicas, alguns fundamentos da gestão de equipes continuam essenciais. Clareza de expectativas, confiança e feedback de qualidade permanecem entre os principais elementos para manter profissionais alinhados e engajados.

Clareza de expectativas

A definição de responsabilidades se torna ainda mais importante em ambientes nos quais as ferramentas mudam rapidamente.

Os profissionais precisam compreender quais atividades podem ser aceleradas com IA, quais exigem maior participação humana e quais decisões não devem ser delegadas à tecnologia.

Sem essa orientação, cada integrante pode adotar critérios diferentes para utilizar as ferramentas. O resultado tende a ser uma rotina inconsistente, com riscos para a qualidade das entregas.

Cabe ao gestor estabelecer diretrizes sobre:

  • Quais tarefas podem ser realizadas com apoio da IA;
  • Em quais etapas é necessária a revisão humana;
  • Quais informações exigem verificação antes de serem utilizadas;
  • Quais decisões dependem da experiência e da responsabilidade do profissional.

Essa clareza ajuda a reduzir dúvidas e permite que a equipe compreenda como contribuir em um ambiente de trabalho transformado pela tecnologia.

Confiança entre gestores e colaboradores

A confiança continua sendo um dos pilares da gestão de pessoas. No contexto da inteligência artificial, porém, ela também depende da transparência sobre os impactos da tecnologia.

Evitar conversas sobre possíveis mudanças nas funções profissionais ou apresentar a IA como uma solução sem limitações pode prejudicar a relação entre gestores e colaboradores.

O caminho mais adequado é abordar as transformações com honestidade. Isso significa reconhecer os ganhos de produtividade, mas também discutir os desafios, as limitações das ferramentas e as habilidades que precisarão ser desenvolvidas.

Quando os profissionais entendem o que está mudando e quais são as expectativas da organização, conseguem se preparar melhor para as novas demandas.

Feedback de qualidade

O feedback continua sendo uma ferramenta importante para orientar o desenvolvimento profissional. O que muda é o tipo de contribuição que precisa ser avaliada.

Em vez de destacar somente a quantidade de entregas realizadas, o gestor deve observar como o colaborador utilizou a inteligência artificial e qual foi sua contribuição para melhorar o resultado.

Alguns exemplos de aspectos que podem ser avaliados são:

  • Identificação de informações incorretas ou inconsistentes;
  • Adaptação de respostas geradas pela IA ao contexto do projeto;
  • Inclusão de perspectivas que não estavam contempladas na análise inicial;
  • Fundamentação de decisões diante de informações incompletas;
  • Capacidade de questionar resultados e recomendações da ferramenta.

Um feedback sobre a capacidade de identificar um risco que passou despercebido pela IA, por exemplo, pode ser mais relevante do que um elogio baseado exclusivamente no volume de relatórios produzidos.

Suas equipes executam atividades ou geram valor estratégico?

Como lidar com a ansiedade dos profissionais diante da IA?

A preocupação dos colaboradores com a própria relevância profissional não deve ser tratada como resistência injustificada à tecnologia.

No exemplo da analista sênior, parte das habilidades desenvolvidas ao longo de 12 anos de experiência, como velocidade, consistência e conhecimento sobre a produção de documentos, passou a ser parcialmente reproduzida por ferramentas de IA.

A dúvida sobre o valor da experiência profissional nesse novo contexto é legítima. Afinal, se uma ferramenta consegue executar determinadas atividades em poucos minutos, quais características diferenciam um profissional experiente de alguém que está começando na carreira?

A resposta está nas habilidades que vão além da execução. Em ambientes de trabalho com IA, a experiência profissional pode fazer diferença na capacidade de:

  • Identificar erros e limitações nas respostas geradas;
  • Formular perguntas que ajudem a investigar problemas mais complexos;
  • Aplicar conhecimentos específicos sobre a organização e seus processos;
  • Interpretar informações considerando diferentes cenários;
  • Tomar decisões e assumir responsabilidade por seus resultados.

Essas competências não eliminam a necessidade de aprender a utilizar novas ferramentas. Pelo contrário, tornam o domínio da IA mais produtivo quando combinado com conhecimento técnico e experiência.

Por isso, o gestor precisa conversar abertamente com a equipe sobre as mudanças. Quando a ansiedade não é discutida, pode se manifestar por meio de resistência passiva, queda na qualidade das entregas ou até mesmo saída de profissionais experientes.

Por que algumas ideias nunca se transformam em projetos reais?

Três mudanças práticas para gerir equipes que utilizam IA

A adaptação da gestão de pessoas não precisa começar com grandes transformações estruturais. Algumas medidas ajudam a estabelecer critérios de utilização da tecnologia e a valorizar a contribuição humana.

1. Defina quais etapas exigem participação humana

Estabeleça diretrizes para cada tipo de entrega, identificando quais atividades podem ser aceleradas pela IA e quais exigem julgamento profissional.

Em um relatório de análise de riscos, por exemplo, a ferramenta pode organizar informações e sugerir possíveis ameaças. A avaliação da relevância de cada risco, considerando as características do projeto, continua dependendo da análise dos profissionais envolvidos.

O objetivo não é restringir o uso da tecnologia, mas esclarecer onde ela contribui e em quais etapas a participação humana é indispensável.

2. Incentive a identificação e a correção de erros da IA

Uma equipe que nunca identifica problemas nas respostas geradas por inteligência artificial pode estar deixando de verificar os resultados adequadamente.

O gestor deve incentivar os colaboradores a compartilhar situações em que encontraram informações incorretas, inconsistências ou recomendações inadequadas.

Essa prática ajuda a desenvolver uma cultura de revisão e responsabilidade. Também permite que a organização identifique limitações recorrentes das ferramentas e aprimore seus processos de utilização.

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3. Avalie a evolução do julgamento profissional

As avaliações de desempenho precisam reconhecer situações em que o colaborador demonstrou capacidade de análise e tomada de decisão.

Entre os indicadores possíveis estão:

  • Identificação de problemas que não foram apontados pela IA;
  • Apresentação de análises que foram além das respostas mais óbvias;
  • Questionamento fundamentado de recomendações;
  • Resolução de conflitos entre diferentes stakeholders;
  • Tomada de decisões considerando o contexto específico do projeto.

Ao incluir esses critérios na avaliação, a organização demonstra que valoriza o julgamento profissional e não apenas a capacidade de produzir entregas em grande volume.

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A gestão de equipes com IA continua sendo, acima de tudo, gestão de pessoas

A inteligência artificial transforma processos, reduz o tempo de execução de tarefas e modifica as competências exigidas em diferentes funções. No entanto, a tecnologia não elimina a necessidade de liderança, comunicação e desenvolvimento profissional.

Os gestores precisam adaptar os critérios de desempenho, estabelecer expectativas claras e criar um ambiente no qual os colaboradores possam aprender a utilizar as ferramentas sem perder de vista sua própria contribuição.

A principal mudança está na maneira de reconhecer o valor do trabalho. Quando a IA assume parte da execução, ganham espaço habilidades como pensamento crítico, interpretação, negociação e tomada de decisão.

Os fundamentos da gestão de pessoas permanecem. O desafio é aplicá-los a uma realidade em que as ferramentas evoluem rapidamente e exigem uma nova compreensão sobre produtividade, experiência e contribuição profissional.


Sobre o autor

Mario H. Trentim é membro do Board of Directors do PMI, Reitor da Allevo Tech / Qeevo Group, doutorando do ITA e autor de 13 livros sobre gestão e execução estratégica.

Atua como conselheiro e conector estratégico em organizações em transformação.

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