Dia Mundial de Combate ao Bullying: como orientar crianças que presenciam agressões
No Dia Mundial de Combate ao Bullying saiba como orientar crianças que presenciam a violência, acolher o relato e as responsabilidades da família e da escola
Entenda como pais e escolas podem ajudar estudantes a interromper o ciclo de violência sem colocá-los em risco.
Em resumo:
Testemunhas ajudam quando não riem, não filmam, apoiam a vítima e procuram um adulto de confiança;
Pais e responsáveis devem acolher o relato, registrar as informações e comunicar a escola sem expor a criança;
A escola precisa prevenir, apurar e acompanhar os casos, enquanto a família fortalece o diálogo e a empatia.
O Dia Mundial de Combate ao Bullying, lembrado em 20 de outubro, reforça que enfrentar essa violência exige a participação de toda a comunidade escolar. Isso inclui não apenas quem sofre e quem pratica a agressão, mas também os estudantes que assistem, recebem mensagens ou ficam sabendo do episódio.
A dimensão do problema aparece na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024. Quatro em cada dez adolescentes de 13 a 17 anos afirmam já ter sido vítimas de bullying na escola, segundo a pesquisa, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em março de 2026.
O percentual recorrente subiu de 23% em 2019 para 27,2% em 2024. As diferenças entre escolas públicas e privadas foram pequenas, o que mostra que o bullying atravessa diferentes realidades.
A seguir, o texto explica por que as testemunhas são tão importantes e como estudantes, famílias e escolas podem agir em casos de bullying ou cyberbullying.
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O que é o Dia Mundial de Combate ao Bullying?
O dia 20 de outubro funciona como uma mobilização para conscientizar a sociedade sobre o bullying, suas consequências e as formas de prevenção. A data ajuda escolas e famílias a trazerem conversas sobre respeito, diversidade, empatia e segurança.
Ela não deve ser confundida com outras duas referências:
primeira quinta-feira de novembro: Dia Internacional contra a Violência e o Bullying na Escola, incluindo o Cyberbullying, reconhecido pela Unesco.
Mais importante do que concentrar ações em uma data é manter um trabalho contínuo. O combate ao bullying depende de protocolos conhecidos, canais de ajuda acessíveis e adultos preparados para ouvir e intervir.
Como diferenciar bullying de um conflito pontual?
A Lei nº 13.185/2015 define bullying como uma violência física ou psicológica intencional e repetitiva, praticada em uma relação marcada pelo desequilíbrio de poder.
Um desentendimento isolado entre colegas com condições semelhantes de se defender não caracteriza automaticamente bullying. Isso não significa que o conflito deva ser ignorado, mas a identificação correta ajuda a escola a escolher a intervenção adequada.
O bullying pode envolver:
insultos, ameaças e apelidos pejorativos;
exclusão deliberada e isolamento;
agressões físicas;
boatos e difamação;
destruição ou subtração de pertences;
comentários racistas, capacitistas, sexistas ou LGBTQIA+fóbicos;
exposição, perseguição e humilhação no ambiente digital.
Por que as testemunhas são importantes no combate ao bullying?
O bullying costuma envolver uma dinâmica coletiva. Além da vítima e de quem pratica a agressão, há estudantes que riem, filmam, compartilham, incentivam, observam em silêncio ou tentam ajudar.
A reação do grupo pode mudar o rumo do episódio. Quando colegas aplaudem ou divulgam a agressão, aumentam a exposição da vítima e indicam que aquele comportamento tem aprovação. O silêncio também pode transmitir a sensação de que ninguém se importa.
A testemunha, porém, não precisa enfrentar fisicamente quem agride. Ela pode recusar a posição de plateia, buscar ajuda e acolher a vítima depois do ocorrido.
Postura da testemunha
Possível efeito
Rir, comentar ou incentivar
Reforça a agressão e amplia a humilhação
Filmar ou compartilhar
Prolonga a violência e aumenta a exposição
Ignorar repetidamente
Pode aumentar o isolamento da vítima
Chamar um adulto
Permite uma intervenção mais segura
Apoiar a vítima depois
Reduz a sensação de abandono
Relatar apenas o que viu
Ajuda a escola a apurar o caso com precisão
Uma criança pode permanecer em silêncio por medo de virar o próximo alvo. Por isso, adultos não devem tratá-la como culpada.
O objetivo é mostrar que pedir ajuda representa uma atitude de proteção, e não uma forma de “dedurar” colegas.
O que a criança ou o adolescente pode fazer ao presenciar bullying?
A orientação precisa considerar a idade, a maturidade e o risco do momento. O estudante não deve assumir sozinho a responsabilidade de interromper uma situação perigosa.
Algumas ações podem envolver:
1. Não reforçar a agressão
A primeira atitude consiste em não rir, não provocar, não filmar e não compartilhar o conteúdo. Também é importante evitar comentários que culpem a vítima ou minimizem o episódio.
2. Procurar um adulto de confiança
A criança pode comunicar um professor, coordenador, diretor, inspetor ou responsável. Quando o primeiro adulto não toma providências, ela deve procurar outra pessoa de confiança.
3. Intervir diretamente somente quando houver segurança
Em situações leves e sem risco físico, um grupo de estudantes pode dizer com firmeza que aquela conduta não é aceitável e convidar a vítima a sair do local.
Quando existem agressões físicas, ameaças, armas ou um grupo hostil, a testemunha não deve entrar no confronto. A atitude mais segura é afastar-se e chamar imediatamente um adulto ou serviço de emergência.
4. Acolher a vítima depois do episódio
Frases simples, como “isso não foi culpa sua” e “pode contar comigo para procurar ajuda”, podem fazer diferença. A testemunha também pode acompanhar a vítima até a coordenação ou outro adulto.
5. Contar somente o que presenciou
Ao relatar o caso, a criança deve diferenciar aquilo que viu ou ouviu diretamente de rumores recebidos de terceiros. Essa separação evita boatos e facilita a apuração.
Como os pais devem reagir quando o filho conta que presenciou bullying?
A primeira resposta da família influencia a disposição da criança para continuar falando. Broncas por ela não ter reagido ou cobranças para “resolver sozinha” podem encerrar o diálogo.
Imagem gerada com auxílio de Inteligência Artificial.
Uma reação acolhedora inclui:
Agradecer a confiança: contar uma situação de violência pode exigir coragem;
Ouvir sem interromper: o relato deve ocorrer no ritmo da criança;
Fazer perguntas objetivas: o que aconteceu, quando, onde, quem estava presente e se existe risco imediato;
Não prometer segredo absoluto: a família pode explicar que envolverá apenas os adultos necessários para proteger os estudantes;
Registrar as informações: data, local, ações observadas e nomes mencionados ajudam a organizar a comunicação;
Procurar a escola por escrito: a mensagem deve solicitar acolhimento, apuração, proteção e acompanhamento;
Observar o bem-estar da testemunha: medo, culpa, ansiedade, alterações de sono ou recusa escolar também merecem atenção.
Pais e responsáveis devem evitar confrontar diretamente a outra criança ou sua família. Essa atitude pode expor a testemunha, aumentar o conflito e prejudicar a análise da escola.
Quando o sofrimento emocional persiste ou interfere na rotina, a família pode buscar orientação de psicólogo, pediatra ou outro profissional qualificado. Essa procura não substitui as medidas que a escola precisa adotar.
O que fazer quando a agressão acontece na internet?
O cyberbullying pode ocorrer em redes sociais, jogos, grupos de mensagens e outras plataformas. Como o conteúdo circula rapidamente, uma única publicação pode gerar compartilhamentos e humilhações repetidas.
Por isso, ao tomar conhecimento de casos de cyberbullying, a testemunha e a família podem seguir estes passos:
não responder com novas ofensas;
não curtir, comentar ou encaminhar o conteúdo;
preservar capturas de tela, links, perfis, datas e horários;
denunciar a publicação à plataforma;
bloquear o perfil ou contato depois de guardar os registros;
comunicar os responsáveis e a escola quando houver estudantes envolvidos;
oferecer apoio à vítima sem redistribuir o material.
A página sobre cyberbullying na escola apresenta outras orientações para reconhecer e enfrentar a violência digital.
Quando o conteúdo envolve imagens íntimas de crianças ou adolescentes, ele não deve ser enviado a terceiros nem mesmo como tentativa de comprovação. A família deve preservar os registros disponíveis e procurar orientação especializada.
Em situações de ameaça, perseguição, risco imediato ou possível crime, a família pode acionar:
Polícia Militar: 190, em emergências;
Disque 100: denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes;
Conselho Tutelar: proteção e encaminhamento da criança ou do adolescente;
Polícia Civil ou delegacia especializada: apuração de possíveis crimes;
Canal de Ajuda da SaferNet: orientação sobre violações na internet.
Qual é a responsabilidade da escola em casos de bullying?
A escola não deve tratar o bullying como uma simples desavença que os estudantes precisam resolver sem apoio.
O artigo 5º da Lei nº 13.185/2015 determina que estabelecimentos de ensino adotem medidas de conscientização, prevenção, identificação e combate à intimidação sistemática.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação também atribui às escolas a responsabilidade de promover medidas contra a violência e o bullying e desenvolver ações voltadas à cultura de paz.
Imagem gerada com auxílio de Inteligência Artificial.
Para Victor Meirelles, doutor e mestre em Psicossociologia da Saúde, escritor e autor do livro “Bullying. Qual é a graça?” a prevenção na escola funciona melhor quando esse trabalho faz parte da proposta pedagógica e da cultura da instituição:
A escola deve ser um espaço de convivência democrática, onde o respeito às diferenças seja valorizado. Isso pode ser feito por meio de projetos pedagógicos que promovam a empatia, a cooperação e o combate aos preconceitos.
A capacitação dos adultos também ocupa um papel central. Segundo Victor:
Os educadores devem ser capacitados para reconhecer e intervir em situações de bullying e violência, utilizando abordagens restaurativas e não punitivas.
A atuação não deve se limitar à vítima. Quem praticou a agressão precisa assumir responsabilidade, compreender os danos causados e receber acompanhamento para mudar o comportamento.
As testemunhas também precisam de proteção para participar da solução sem medo de exposição ou retaliação.
Na prática, a instituição deve:
oferecer um canal seguro e acessível para relatos;
acolher separadamente vítima, testemunhas e autor da agressão;
registrar e apurar a ocorrência;
preservar a identidade dos envolvidos;
adotar medidas imediatas para evitar retaliações;
comunicar às famílias conforme o caso;
acompanhar a vítima e as testemunhas;
trabalhar a responsabilização e a mudança de comportamento;
avaliar se preconceitos ou discriminações motivaram a agressão;
acionar a rede de proteção quando necessário..
A criminalização do bullying pela Lei nº 14.811/2024 também não transforma toda ocorrência escolar em pena de prisão. A resposta depende das circunstâncias, da gravidade, da idade dos envolvidos e da existência de outros atos ilícitos.
A escola continua responsável pelo trabalho pedagógico e protetivo.
Qual é a responsabilidade da família em casos de bullying?
A família deve oferecer escuta, proteção e orientação. Também precisa cooperar com a escola e evitar a reprodução de preconceitos que sustentam humilhações relacionadas à raça, gênero, classe social, deficiência, aparência, religião ou orientação sexual.
Victor Meirelles explica que construir uma relação de confiança dentro de casa é uma das principais medidas de prevenção:
É fundamental que as famílias criem espaços de diálogo aberto e acolhedor, onde crianças e adolescentes se sintam seguros para expressar suas emoções e relatar situações de violência. A escuta ativa e a validação dos sentimentos dos filhos são essenciais para construir relações de confiança.
Essa abertura permite que crianças e adolescentes contem o que sofreram ou presenciaram antes que o problema se agrave.
As famílias devem incentivar o desenvolvimento da inteligência emocional das crianças, ensinando-as a identificar e expressar suas emoções de forma saudável. Isso inclui trabalhar a resiliência, a capacidade de resolver conflitos e a empatia.
Livros, filmes, jogos e atividades artísticas podem ajudar a abordar emoções, diversidade e conflitos de forma adequada à idade, sem transformar a conversa em um interrogatório.
Como encontrar uma escola comprometida com segurança, respeito e acolhimento?
O combate ao bullying também faz parte da avaliação de uma escola. Antes da matrícula, a família pode perguntar como a instituição recebe denúncias, protege testemunhas, acompanha vítimas, orienta autores de agressões e trabalha a diversidade no cotidiano.
A Quero Escola permite comparar instituições, propostas pedagógicas e oportunidades para diferentes etapas da Educação Básica.
Mais do que uma campanha anual, o Dia Mundial de Combate ao Bullying exige uma comunidade escolar que escute, intervenha e ensine cada estudante a não ocupar o papel de plateia diante da violência.
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