
Metodologia não basta: o que determina o sucesso dos projetos
| 08/09/26Projetos não falham por falta de metodologia. Dados do PMI e do Standish Group revelam o peso da governança, estratégia, decisões e business acumen.
Projetos não falham por falta de metodologia. Dados do PMI e do Standish Group revelam o peso da governança, estratégia, decisões e business acumen.
Em resumo:
Veja mais informações a seguir!

Existe uma explicação conveniente para o fracasso de projetos: faltou metodologia.
Ela é conveniente porque oferece uma solução igualmente simples. Mais um treinamento, mais uma certificação, mais um framework e, aparentemente, o problema estaria resolvido.
Os dados contam uma história diferente.
A gestão de projetos possui metodologias, processos, frameworks e profissionais certificados em quantidade.
Ainda assim, organizações continuam tendo dificuldades para entregar iniciativas dentro das expectativas de prazo, custo, escopo e, principalmente, geração de valor.
O problema, portanto, não parece ser a ausência de metodologia.
A questão é outra: como as organizações escolhem, priorizam, estimam, governam e tomam decisões sobre seus projetos?
Essa diferença é fundamental para entender por que projetos falham.
+ Por que projetos falham e o que separa os que entregam dos que não entregam
O famoso número de que “70% dos projetos falham” aparece com frequência em apresentações, treinamentos e materiais comerciais. Mas essa formulação simplifica categorias que são diferentes.
Na classificação apresentada pelo Standish Group, há três grupos:
Colocar as três categorias dentro de um mesmo rótulo de “fracasso” produz uma leitura distorcida.
Um projeto que termina com atraso não é necessariamente equivalente a um projeto cancelado. As causas podem ser diferentes. As decisões necessárias também.
Existe ainda outro dado que considero particularmente importante: o tamanho do projeto altera radicalmente a probabilidade de sucesso.
Projetos pequenos apresentam taxa de sucesso próxima de 90%. Entre projetos grandes, acima de US$ 10 milhões, a taxa de sucesso cai para menos de 10%.
Se esses números forem observados em conjunto, uma conclusão se torna difícil de ignorar:
o problema não é simplesmente gestão de projetos. É, em grande medida, gestão de complexidade.
Um projeto de pequeno porte e uma transformação de dezenas ou centenas de milhões de dólares podem compartilhar conceitos de gerenciamento, mas não apresentam o mesmo ambiente decisório.
Quanto maior a iniciativa, maior tende a ser a quantidade de stakeholders, dependências, interfaces, incertezas e decisões irreversíveis.
Aplicar a mesma lógica para todos os projetos é ignorar essa diferença.
O argumento de que projetos falham porque falta metodologia apresenta um problema empírico.
Organizações que possuem metodologias formais também falham.
Isso não significa que metodologia seja inútil. Ela é necessária. O problema é acreditar que seja suficiente.
A diferença entre organizações com maior e menor desempenho parece estar em fatores que vão além do conhecimento de processos e ferramentas.
O PMI Pulse of the Profession 2025 aponta uma diferença expressiva entre PMOs de alto e baixo desempenho: 89% de sucesso entre os primeiros, contra 34% entre os segundos.
Se metodologia fosse a variável determinante, seria difícil explicar essa distância apenas pela existência de frameworks.
O que muda é a capacidade da organização de conectar projetos à estratégia, administrar o portfólio, tomar decisões e desenvolver profissionais capazes de compreender o negócio.
É aqui que entra o business acumen.
O PMI identificou que apenas 18% dos profissionais de gestão apresentam alto nível dessa competência.
Business acumen significa compreender o negócio para além da execução do projeto: saber qual problema está sendo resolvido, qual resultado justifica o investimento e como uma mudança no contexto deve alterar a decisão.
Essa competência é diferente de conhecer um framework.
A analogia que costumo usar é simples: uma receita não garante o prato.
A metodologia é a receita. Ela ajuda a organizar o trabalho, mas não substitui os ingredientes, a capacidade de execução nem a estrutura da cozinha.
O mercado costuma vender mais receitas.
O problema é que muitas organizações precisam melhorar o chef e a cozinha.
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Se metodologia não explica sozinha o fracasso, onde está o problema?
Na minha experiência, cinco fatores aparecem com frequência.
Um projeto pode ter cronograma, orçamento, equipe e patrocinador e ainda assim não ter uma conexão suficientemente clara com a estratégia.
Quando ninguém consegue explicar por que aquela iniciativa é importante para a organização, ela perde força diante da primeira urgência.
Isso acontece com frequência em ambientes nos quais os projetos são tratados como iniciativas isoladas, e não como instrumentos para executar uma estratégia.
A pergunta não deveria ser apenas “o projeto está avançando?”.
Deveria ser:
“Que resultado estratégico este projeto precisa produzir?”
Sem essa resposta, fica muito mais difícil decidir o que fazer quando recursos, prioridades ou condições de mercado mudam.
Um dos maiores problemas de gestão não está dentro de um projeto específico.
Está na quantidade de projetos que a organização decide executar simultaneamente.
Se 40 iniciativas são tratadas como prioridade, a palavra prioridade perde significado.
Recursos são distribuídos entre projetos demais. Pessoas são compartilhadas entre equipes. Dependências aumentam. O trabalho é fragmentado.
No fim, a organização tenta fazer tudo e reduz a capacidade de entregar aquilo que realmente importa.
Governança de portfólio é, portanto, também a capacidade de dizer não.
Decidir quais projetos não serão executados pode ser tão importante quanto escolher aqueles que receberão investimento.
Há uma diferença entre ter um patrocinador no organograma e ter um patrocinador atuante.
O patrocinador efetivo precisa remover impedimentos que estão além da autoridade do gerente do projeto, mobilizar áreas da organização e tomar decisões quando o projeto chega a um ponto que exige autoridade superior.
Quando isso não acontece, problemas relativamente simples podem permanecer semanas aguardando uma decisão.
O projeto continua existindo no cronograma, mas sua capacidade de avançar diminui.
Patrocínio não é presença no kick-off.
É responsabilidade durante a execução.
Existe um erro recorrente na elaboração de cronogramas e orçamentos: construir o futuro a partir do melhor cenário possível.
Daniel Kahneman e Amos Tversky descreveram esse comportamento como Planning Fallacy.
Em vez de considerar a distribuição de resultados observada em projetos semelhantes, gestores tendem a construir estimativas a partir daquilo que esperam que aconteça.
O problema é que projetos anteriores já produziram informações valiosas.
Quanto tempo iniciativas semelhantes levaram? Quanto custaram? Quais riscos apareceram? Onde ocorreram os maiores desvios?
Ignorar esse histórico significa abrir mão de uma das melhores fontes disponíveis para melhorar uma estimativa.
O caso do Denver International Airport é frequentemente utilizado para ilustrar esse problema. O aeroporto foi inaugurado 16 meses depois do previsto e com custo 300% superior ao inicialmente projetado.
O ponto não é atribuir o resultado simplesmente à incompetência.
É entender como estimativas podem se afastar da realidade quando o planejamento não considera adequadamente experiências anteriores e incertezas.
Uma das decisões mais difíceis em qualquer organização é cancelar um projeto.
Existe investimento realizado. Há pessoas envolvidas. Há expectativas criadas. Há interesses políticos e profissionais.
Sem critérios definidos antecipadamente, continuar quase sempre parece mais fácil do que interromper.
É assim que surgem os projetos zumbis: iniciativas que continuam consumindo recursos mesmo depois de perderem relevância ou demonstrarem baixa probabilidade de gerar valor.
Um critério de cancelamento definido antes do início muda essa dinâmica.
“Se X acontecer até Y, interrompemos o projeto.”
A decisão deixa de depender exclusivamente da pressão do momento.
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Os dados do PMI sobre PMOs de alto e baixo desempenho ajudam a deslocar a discussão.
A diferença não precisa ser procurada em um framework secreto.
Ela aparece na forma como a organização transforma gestão de projetos em capacidade de execução.
Quatro práticas merecem atenção.
Governar o portfólio significa revisar continuamente quais iniciativas ainda fazem sentido.
Isso inclui priorizar, redistribuir recursos e cancelar projetos quando necessário.
A pergunta central não é apenas “quais projetos devemos fazer?”.
É também:
“Quais projetos devemos deixar de fazer?”
Essa é uma das decisões mais importantes e mais difíceis da gestão.
O gerente precisa compreender o negócio que está por trás do projeto.
Isso significa conhecer os resultados esperados, entender os impactos financeiros e operacionais e reconhecer quando uma mudança no contexto altera a lógica do investimento.
Um gerente que domina processos, mas não compreende o motivo econômico ou estratégico do projeto, pode executar corretamente uma iniciativa que deixou de fazer sentido.
Projetos dependem de decisões que frequentemente ultrapassam a autoridade do gerente.
Por isso, patrocinadores precisam ter poder real, disponibilidade e disposição para agir.
A velocidade da decisão influencia diretamente a velocidade da execução.
Uma organização que não aprende com seus projetos repete os mesmos erros.
Dados de projetos anteriores deveriam alimentar novas estimativas, avaliações de risco e decisões de portfólio.
É assim que uma organização começa a reduzir os efeitos da Planning Fallacy.
Não por acreditar que o próximo projeto será melhor.
Mas porque possui dados para estimar melhor o próximo projeto.
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Talvez a parte mais importante desse diagnóstico seja esta: nenhuma dessas mudanças exige a criação de um novo framework.
Elas exigem decisões de liderança.
Defina previamente quais condições justificariam a interrupção de um projeto.
Isso reduz o peso político da decisão quando o momento chegar.
O critério foi estabelecido antes de o problema existir. Portanto, a organização pode avaliar o cenário com menos influência do investimento já realizado.
Antes de definir um prazo, procure referências reais.
Quanto tempo levaram os últimos projetos semelhantes?
Quanto custaram?
Quais foram os principais desvios?
O Reference Class Forecasting parte justamente dessa lógica: utilizar o desempenho observado em uma classe de projetos comparáveis como referência para estimar o futuro.
Isso é diferente de perguntar quanto tempo o projeto deveria levar em condições ideais.
Se tudo é prioridade, nada é prioridade.
Uma carteira de projetos precisa refletir escolhas reais.
Para isso, os critérios de priorização precisam estar definidos antes que surja a próxima disputa por recursos.
Quando a organização precisa decidir entre duas iniciativas relevantes, o critério deve ajudar a decisão.
Sem isso, a priorização tende a virar negociação.
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Volto, então, à pergunta inicial: por que projetos falham?
A resposta não está em uma única metodologia.
Projetos falham quando a organização não consegue transformar estratégia em escolhas, escolhas em investimentos e investimentos em decisões consistentes.
Metodologia ajuda a estruturar o trabalho.
Não escolhe o portfólio.
Não define sozinha o que merece investimento.
Não substitui o patrocinador.
Não corrige uma estimativa construída sobre o cenário ideal.
E não decide quando um projeto deixou de fazer sentido.
Essas são responsabilidades de gestão.
Por isso, talvez seja hora de parar de perguntar qual metodologia falta à organização.
A pergunta mais útil é outra:
Temos governança suficiente para escolher os projetos certos, capacidade para compreender o negócio e coragem para tomar as decisões que esses projetos exigem?
Nenhum certificado responde isso.
E nenhum framework consegue decidir por uma organização que não sabe escolher.
+ Mario Trentim: conheça o palestrante de estratégia, gestão, PMO e IA

Mario H. Trentim é membro do Board of Directors do PMI, Reitor da Allevo Tech / Qeevo Group, doutorando do ITA e autor de 13 livros sobre gestão e execução estratégica.
Atua como conselheiro e conector estratégico em organizações em transformação.


Projetos não falham por falta de metodologia. Dados do PMI e do Standish Group revelam o peso da governança, estratégia, decisões e business acumen.

Por que projetos falham? Planejamento, decisões adiadas e indicadores que escondem problemas estão entre as causas. Mario Trentim explica o que muda o jogo.

O que é gestão de projetos? Entenda conceitos, metodologias, habilidades e tendências da área em 2026 com Mario Trentim.