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Literatura

Condoreirismo

Laisa Ribeiro
Publicado por Laisa Ribeiro
Última atualização: 21/8/2018

Introdução

Você sabia que as iniciais de rap significam “rhythm and poetry” – que, em português, corresponde a ritmo e poesia?

Emicida, na canção “Mandume”, diz:

Eles querem que alguém

Que vem de onde nóis vem

Seja mais humilde, baixa a cabeça

Nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda

Eu quero é que eles se-!

Eles querem que alguém

Que vem de onde nóis vem

Seja mais humilde, baixa a cabeça

Nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda

Eu quero é que eles se-!

Esse tipo de poesia que aborda questões sociais é exatamente sobre o que o condoreirismo – a terceira fase do romantismo – se trata!

O Condoreirismo foi um movimento literário da terceira fase do Romantismo, que seguiu a mesma ideia da canção do Emicida: criticar a sociedade e buscar a liberdade dos povos oprimidos.

Contexto histórico

Essa estética literária foi seguida por escritores que estavam preocupados com a sociedade em que viviam. Eles não estavam tão interessados na ideia de idealização amorosa proposta pelas outras fases românticas. Desejavam debater a questão da escravidão que ainda estava presente no Brasil.

Em nosso país, desde o início, o número de escravos sempre foi superior ao número de portugueses que habitavam o local. Isso mostra como a escravidão era extremamente utilizada.

Era uma situação de violência e exploração, que foi combatida pelos abolicionistas – pessoas que não concordavam com esse sistema e queriam o fim da escravidão.

Nesse contexto, o Condoreirismo surge como uma poesia que clama pela liberdade. Sua função é denunciar os horrores da escravidão e as injustiças sociais.

Características literárias

Victor Hugo, que escreveu sobre minorias em romances como “O corcunda de Notre Dame” e “Os Miseráveis”, já dizia naquela época que a literatura não deveria buscar apenas o belo, mas o bem.

Logo, era importante, para os brasileiros influenciados por esse autor, colocar a temática da liberdade em seus versos.

Mas por que esse estilo se chama Condoreirismo? Esse movimento utilizou o condor, uma ave que voava em altas altitudes, como símbolo da liberdade.

Ave condor que foi utilizada pelo condoreirismo como símboloCondor voando

As outras estéticas literárias sempre foram feitas para o consumo do público aristocrata, nobre, rico – um público seleto. Todavia, o Condoreirismo precisava de mais. Precisava chegar a um público maior.

Por causa disso, os poetas iam declamar suas obras em teatros, nas sacadas de jornais e em praças públicas. O povo precisava saber a injustiça que grande parte da população vivia. Com isso, surge a figura do poeta-orador.

Devido à declamação, os poemas desse período usavam muitos vocativos, com as pontuações a seu favor - por exemplo as exclamações.

Eles queriam provocar impacto e despertar emoções no leitores. Logo, usavam figuras exageradas e muitas hipérboles – como o uso de “dois mil anos” no poema a seguir, de Castro Alves:

Vozes D'África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? 

Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes 

Embuçado nos céus? 

Há dois mil anos te mandei meu grito, 

Que embalde desde então corre o infinito... 

Onde estás, Senhor Deus?... 

Castro Alves

Esse importante poeta abolicionista subverteu várias temáticas do romantismo: ele trocou a presença da natureza pela da humanidade e o coração pelo pensamento.

Conhecido como “cantor dos escravos”, Castro Alves escreveu “Espumas flutuantes”, em 1870. Após sua morte, mais dois livros foram lançados: “A cachoeira de Paulo Afonso”, em 1876, e “Os escravos”, em 1883.

Seu engajamento social é visto no potente poema “Tragédia no lar”, em que ele convida o leitor a visitar, no imaginário, uma senzala:

Leitor, se não tens desprezo 

De vir descer às senzalas, 

Trocar tapetes e salas 

Por um alcouce cruel, 

Que o teu vestido bordado 

Vem comigo, mas ... cuidado ... 

Não fique no chão manchado, 

No chão do imundo bordel. 

Seu poema mais famoso é o emocionante “Navio negreiro”, em que ele denuncia a situação em que os escravos viviam dentro de um navio que os trazia para o Brasil, para uma vida de escravidão e sofrimento:

’Stamos em pleno mar… Doudo no espaço

Brinca o luar – dourada borboleta;

E as vagas após ele correm… cansam

Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento

Os astros saltam como espumas de ouro…

O mar em troca acende as ardentias,

– Constelações do líquido tesouro…

(...)

Existe um povo que a bandeira empresta

P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!…

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa… chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto!…

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança…

Perceba que no verso “Que a brisa do Brasil beija e balança”, há a repetição de palavras que se iniciam com a letra B. Essa aliteração faz com que o leitor tenha impressão de que o ritmo do poema imita o tremular da bandeira brasileira citada pelo autor.

Além de poemas sociais, Castro Alves também foi visionário em seus poemas líricos. Você deve se lembrar que, na segunda fase do Romantismo, os ultrarromânticos viam o sexo como algo errado.

Aqui, Castro Alves constrói poemas acerca do amor, com uma erotização da figura feminina.

O padrão de beleza já não é mais a moça virginal e pálida. Aqui, é a mulher real, lasciva e sedutora, que inclusive pode trocar o eu lírico por outro amante.

Adormecida

Uma noite, eu me lembro… Ela dormia

Numa rede encostada molemente…

Quase aberto o roupão… solto o cabelo

E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste

Exalavam as silvas da campina…

E ao longe, num pedaço do horizonte,

Via-se a noite plácida e divina.

Castro Alves mudou o tom do Romantismo Brasileiro e trouxe um amadurecimento para a literatura de nosso país, como se percebe em seus poemas líricos, que demonstram um amor mais real.

Conclusão

O Condoreirismo foi uma escola literária muito importante para o Brasil, país que perpetuou a escravidão por tanto tempo. Mostrou como a força das palavras tem poder de mudar a sociedade.

Você sabia que, no Rio de Janeiro, em 2016, 63,7% das mulheres que morreram eram negras? Essa é uma das consequências deixadas pela escravidão, que perpetua o preconceito e a misoginia.

Uma dica de leitura muito importante é a autora Djamila Ribeiro. Ela escreveu “Quem tem medo do feminismo negro?” e “O que é lugar de fala?”. Esses livros abordam questões muito pertinentes na sociedade brasileira e dão voz à mulher negra. Além disso, pode cair na redação do ENEM!


Exercícios

Exercício 1
(UNIFESP)

Texto I:

Perante a Morte empalidece e treme,

Treme perante a Morte, empalidece. 

Coroa-te de lágrimas, esquece 

O Mal cruel que nos abismos geme.

(Cruz e Souza, Perante a morte.)

Texto II:

Tu choraste em presença da morte?

Na presença de estranhos choraste? 

Não descende o cobarde do forte; 

Pois choraste, meu filho não és!

(Gonçalves Dias, I Juca Pirama.)

Texto III:

Corrente, que do peito destilada,

Sois por dous belos olhos despedida; 

E por carmim correndo dividida, 

Deixais o ser, levais a cor mudada.

(Gregório de Matos, Aos mesmos sentimentos.)

Texto IV:

Chora, irmão pequeno, chora, 

Porque chegou o momento da dor. 

A própria dor é uma felicidade...

(Mário de Andrade, Rito do irmão pequeno.)

Texto V:

Meu Deus! Meu Deus!

Mas que bandeira é esta, 

Que impudente na gávea tripudia?!... 

Silêncio! ...Musa! Chora, chora tanto 

Que o pavilhão se lave no teu pranto...

(Castro Alves, O navio negreiro.)

Dois dos cinco textos transcritos expressam sentimentos de incontida revolta diante de situações inaceitáveis. Esse transbordamento sentimental faz-se por meio de frases e recursos linguísticos que dão ênfase à função emotiva e à função conativa da linguagem.

Esses dois textos são:

Ilustração: Rapaz corpulento de camiseta, short e tênis acenando

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