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Literatura

Gregório de Matos

Laisa Ribeiro
Publicado por Laisa Ribeiro
Última atualização: 21/8/2018

Introdução

Você conhece o “Boca do Inferno”? Pois vai conhecer agora! Gregório de Matos foi o grande poeta barroco brasileiro

Este movimento literário foi marcado pela culpa religiosa, pela angústia referente ao amor e à miséria da condição humana, pela tentativa de unir o terreno ao divino e por uma literatura rebuscada e ornamentada.

Gregório escreveu poemas líricos, sacros, todavia, ficou famoso com seus poemas satíricos. Neles, o autor criticava, sem medo, a corrupção política dos governadores da Bahia e a corrupção moral do clero.

Poesia satírica

Devido às suas sátiras poéticas, Gregório de Matos ficou conhecido como Boca do Inferno. Seu lado mais satírico, que entra em contraste com o lado religioso do barroco, ocorre devido ao fato de que Gregório de Matos nasceu em um meio privilegiado.

Ele era filho de senhor de engenho e pôde estudar Direito em Coimbra, onde entrou em contato com a escola humanista.

O humanismo era um movimento literário que focava no ser humano e o colocava como parâmetro para todos os acontecimentos. Dos autores dessa escola literária, Gregório de Matos foi um leitor de Camões, por exemplo.

Olhar crítico

As palavras realmente têm poder. As poesias satíricas de Gregório de Matos não apenas lhe deram fama como também fizeram com que ele fosse exilado da Angola em 1694.

Mas o que havia nessas poesias? Com um olhar crítico, ele fez um retrato da Bahia: o autor denunciou comportamentos considerados errôneos, como, por exemplo, a corrupção cometida por políticos e padres.

Ele não tinha medo de ofender esses indivíduos tampouco deixava de provocá-los, usando o humor em suas obras.

Descrevo que era Realmente Naquele Tempo a Cidade da Bahia

A cada canto um grande conselheiro,

Que nos quer governar cabana e vinha; 

Não sabem governar sua cozinha, 

E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um bem frequente olheiro, 

Que a vida do vizinho e da vizinha 

Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha, 

Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados, 

Trazidos sob os pés os homens nobres, 

Posta nas palmas toda a picardia,

Estupendas usuras nos mercados, 

Todos os que não furtam muito pobres 

E eis aqui a cidade da Bahia.

Poesias eróticas

Diante de uma sociedade extremamente conservadora e católica, ele também deve ter ganhado esse apelido devido ao fato de que escrevia poemas eróticos.

Nestes, a mulher era descrita como um ser angelicale, ao mesmo tempo, diabólico.

Necessidades Forçosas da Natureza Humana

Descarto-me da tronga, que me chupa,

Corro por um conchego todo o mapa,

O ar da feia me arrebata a capa,

O gadanho da limpa até a garupa.

Busco uma freira, que me desemtupa

A via, que o desuso às vezes tapa,

Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,

Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.

Que hei de fazer, se sou de boa cepa,

E na hora de ver repleta a tripa,

Darei por quem mo vase toda Europa?

Amigo, quem se alimpa da carepa,

Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,

Ou faz da mão sua cachopa.

Poesia lírica

Sua poesia lírica também traz esses vestígios humanistas e classicistas quando recupera temas do clássico antigo. Há o antigo dilema entre espírito versus matéria.

Apesar do texto barroco ser uma obra essencialmente cheia de ornamentações e palavras rebuscadas, em sua poesia lírica, Boca do Inferno ainda trazia mais um vestígio do humanismo e do classicismo: ele nunca deixava a razão de lado. Preocupava-se com a forma, mas também se preocupava com o conteúdo.

Ele seguiu a mesma tradição iniciada por Shakespeare e Camões: compara a beleza das mulheres às características belas da natureza.

À mesma d. Ângela

Anjo no nome, Angélica na cara!

Isso é ser flor, e Anjo juntamente:

Ser Angélica flor, e Anjo florente,

Em quem, senão em vós, se uniformara:

Quem vira uma tal flor, que a não cortara,

De verde pé, da rama fluorescente;

E quem um Anjo vira tão luzente,

Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,

Fôreis o meu Custódio, e a minha guarda,

Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,

Posto que os Anjos nunca dão pesares,

Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

Poesia sacra

Em sua juventude, Gregório de Matos escreveu muitos poemas satíricos e eróticos, o que gerou muito escândalo na sociedade baiana. 

Além disso, ele também desafiou os poderes divinos. Todavia, após a maturidade, perto de sua morte, ele passou a escrever poemas sacros, ou seja, de cunho religioso.

Esses poemas falavam sobre o pecado e a fragilidade humana. Seus sonetos mostravam um certo temor pela morte e pela condenação eterna que o ser humano poderia sofrer no inferno, local apontado em seu próprio apelido.

Na poesia sacra de Gregório de Matos surge o fusionismo: o eu lírico, vendo que será acolhido pela misericórdia divina, quer se unir, quer fundir-se, ao Cristo crucificado. Quer que ser humano e Jesus sejam um só.

Buscando a Cristo

A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa cruz sacrossanta descobertos

Que, para receber-me, estais abertos,

E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados

De tanto sangue e lágrimas abertos,

Pois, para perdoar-me, estais despertos,

E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,

A vós, sangue vertido, para ungir-me,

A vós, cabeça baixa, p’ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,

A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme.

Influência

O legado deixado pelo autor foi muito importante. Até hoje, no Brasil, muitas críticas à política e ao clero são feitas com o uso do humor e da sátira – exemplos são os cartuns e as charges –, herança de Gregório de Matos.


Exercícios

Exercício 1
(ENEM/2014)

Quando Deus redimiu da tirania

Da mão do Faraó endurecido

O Povo Hebreu amado, e esclarecido,

Páscoa ficou da redenção o dia.

Páscoa de flores, dia de alegria

Àquele povo foi tão afligido

O dia, em que por Deus foi redimido;

Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia.

Pois mandado pela Alta Majestade

Nos remiu de tão triste cativeiro,

Nos livrou de tão vil calamidade.

Quem pode ser senão um verdadeiro

Deus, que veio estirpar desta cidade

o Faraó do povo brasileiro.

(DAMASCENO, D. Melhores poemas: Gregório de Matos. São Paulo: 2006)

Com uma elaboração de linguagem e uma visão de mundo que apresentam princípios barrocos, o soneto de Gregório de Matos apresenta temática expressa por

Ilustração: Rapaz corpulento de camiseta, short e tênis acenando

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