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Aprendizagem na educação básica avança, mas Matemática ainda preocupa

Estudo Todos Pela Educação mostra avanço da aprendizagem em 20 anos, mas só 8,5% atingem nível adequado em Matemática no Ensino Médio



Em resumo:

  • A aprendizagem avançou em todas as etapas avaliadas entre 2005 e 2025;
  • Os melhores resultados estão nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental;
  • No Ensino Médio, somente 8,5% alcançam aprendizagem adequada em Matemática;
  • Quase seis em cada dez concluintes estão abaixo do nível básico na disciplina;

A aprendizagem na educação básica avançou no Brasil entre 2005 e 2025, tanto em Língua Portuguesa quanto em Matemática. A melhora, porém, perde força conforme os estudantes avançam na trajetória escolar.

Esse é o principal alerta de um novo estudo do Todos Pela Educação, divulgado nesta quinta-feira (20 de agosto) elaborado com base nos resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2005 a 2025.

O cenário mais preocupante aparece no Ensino Médio. Na rede pública, apenas 8,5% dos estudantes da 3ª série atingiram o nível adequado em Matemática. Isso significa que mais de 90% chegam ao fim da Educação Básica sem alcançar o desempenho esperado na disciplina.

O levantamento mostra que o país avançou em duas décadas, mas ainda enfrenta dificuldades para garantir a consolidação dos conhecimentos, sobretudo em matemática nas etapas finais.

Professora orienta estudante do Ensino Médio durante atividade de Matemática em sala de aula.
Imagem criada com auxílio de Inteligência Artificial.

O que mostra o estudo Todos Pela Educação?

O levantamento analisou o desempenho dos estudantes da rede pública no 5º e no 9º ano do Ensino Fundamental e na 3ª série do Ensino Médio.

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Além das notas médias, a pesquisa separou os resultados em níveis de aprendizagem. Entre eles estão o adequado, que representa o desempenho esperado para a etapa, e o abaixo do básico, que indica lacunas mais acentuadas.

Os dados de 2025 mostram uma diferença importante entre o começo e o fim da trajetória escolar:

Etapa avaliadaAdequado em Língua PortuguesaAdequado em MatemáticaAbaixo do básico em Língua PortuguesaAbaixo do básico em Matemática
5º ano do Ensino Fundamental60,7%50,6%11%16,9%
9º ano do Ensino Fundamental38,3%18,8%15,7%29,3%
3ª série do Ensino Médio35,2%8,5%31,2%58,6%

De acordo com o estudo, os Anos Iniciais do Ensino Fundamental foi a etapa que mais avançou em aprendizagem nas últimas décadas, pouco mais da metade dos estudantes alcançou o nível adequado em Matemática. 

No 9º ano, a proporção caiu para menos de um em cada cinco. Já no Ensino Médio, ficou abaixo de um em cada dez.

O resultado não significa que cada estudante brasileiro tenha exatamente esse desempenho. O indicador apresenta um retrato coletivo da aprendizagem na rede pública e ajuda a identificar desafios para escolas e políticas educacionais.

A aprendizagem realmente melhorou nos últimos 20 anos?

Sim. Entre 2005 e 2025, o percentual de estudantes com aprendizagem adequada aumentou em todas as etapas e disciplinas analisadas.

No 5º ano, a proporção quase triplicou em Língua Portuguesa e mais que triplicou em Matemática. No 9º ano, mais do que dobrou em Português e dobrou em Matemática.

No Ensino Médio, a aprendizagem adequada em Língua Portuguesa também mais que dobrou. Em Matemática, entretanto, o avanço foi bem menor: passou de 5,2% em 2005 para 8,5% em 2025.

O dado mostra que houve progresso, mas em velocidade insuficiente para superar as dificuldades acumuladas. A própria análise do Todos Pela Educação destaca que o país avançou sem chegar ao patamar necessário para garantir o direito à aprendizagem.

“O Brasil avançou e esses avanços devem ser reconhecidos, mas ainda estamos muito longe de onde precisamos chegar”, afirma Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação.

Segundo Corrêa, a evolução resulta do trabalho de diferentes profissionais e de políticas públicas desenvolvidas ao longo de vários governos. O especialista ressalta, porém, que muitos estudantes ainda concluem a Educação Básica sem a aprendizagem adequada, o que exige acelerar o ritmo de melhoria.

Por que o resultado de Matemática no Ensino Médio é tão crítico?

O percentual de 8,5% significa que menos de um em cada dez estudantes da rede pública conclui o Ensino Médio com aprendizagem matemática adequada.

Ao mesmo tempo, 58,6% terminam essa etapa com desempenho abaixo do básico. Isso significa que esses jovens podem apresentar dificuldades para interpretar gráficos, trabalhar com porcentagens, compreender funções e aplicar conceitos matemáticos na resolução de problemas.

estudante frustrado por não entender lousa com cálculos matemáticos

Essa defasagem também afeta situações fora da escola. No dia a dia, a Matemática é utilizada para comparar preços, interpretar pesquisas, analisar informações financeiras e tomar decisões baseadas em dados. E com esses números na aprendizagem da disciplina, situações cotidianas também podem ser comprometidas. 

A questão é que o problema não começa necessariamente no Ensino Médio. Muitas dificuldades são construídas ao longo dos anos, quando conteúdos fundamentais não são compreendidos ou recuperados no momento adequado.

Por que a dificuldade aumenta ao longo da trajetória escolar?

A aprendizagem matemática é cumulativa. Para compreender álgebra, funções ou trigonometria, o estudante precisa mobilizar conhecimentos anteriores, como operações, frações, proporcionalidade e porcentagem.

Quando essas bases não estão consolidadas, cada novo conteúdo pode aumentar a distância entre o que o aluno já sabe e o que precisa aprender.

Entre os fatores que ajudam a explicar esse cenário estão:

  • lacunas acumuladas desde os primeiros anos;
  • dificuldade para interpretar enunciados;
  • memorização de fórmulas sem compreensão dos conceitos;
  • pouca conexão entre os conteúdos e situações reais;
  • medo de errar e ansiedade diante da disciplina;
  • falta de diagnóstico e recuperação contínua;
  • diferenças no ritmo de aprendizagem dos estudantes;
  • limitações de recursos e formação continuada nas redes de ensino.

Por isso, a dificuldade em Matemática não deve ser interpretada automaticamente como falta de esforço ou capacidade. O desempenho pode refletir uma combinação de fatores pedagógicos, emocionais e sociais.

Você pode entender melhor sobre esse tema neste outro artigo do blog sobre aprendizagem da Matemática no Brasil.

Como tornar a Matemática mais acessível aos estudantes? 

Tornar a Matemática mais acessível exige ir além da repetição de exercícios e da memorização de fórmulas.

Quando o conteúdo aparece apenas como uma sequência de regras, o estudante pode até chegar ao resultado correto, mas ter dificuldade para explicar o raciocínio ou aplicar o conceito em uma situação diferente.

Para Jalman Lima, mestre em Matemática e gerente de Negócios Acadêmicos da CASIO Brasil, na divisão CASIO Educação, compreender a disciplina envolve interpretar tabelas, gráficos e expressões, estabelecer relações e avaliar se uma resposta faz sentido.

“Um estudante pode, por exemplo, saber aplicar uma fórmula sem conseguir explicar o que muda quando uma das variáveis aumenta, por que determinado resultado faz sentido ou como o mesmo conceito aparece em uma tabela, em um gráfico ou em uma expressão algébrica”, explica o especialista.

Atividades investigativas podem ajudar a deslocar o foco da repetição para a construção do raciocínio. Nesse tipo de proposta, a tecnologia funciona como um recurso de exploração, e não apenas como um meio de obter respostas prontas.

A calculadora, por exemplo, pode ser utilizada como recurso para verificar previsões, comparar resultados e observar como a mudança de um valor interfere em uma expressão, função ou gráfico. Dessa forma, explica o especialista, parte do tempo gasto com operações repetitivas pode ser direcionada à interpretação e à discussão dos conceitos.

Para que o uso da tecnologia não termine no número apresentado pela tela, Jalman sugere organizar a atividade em três momentos:

  1. Prever: antes de utilizar a calculadora, o estudante analisa o problema e formula uma hipótese;
  2. Testar: a previsão é verificada com a ferramenta, comparando valores e explorando diferentes possibilidades;
  3. Explicar: o aluno interpreta o resultado, confronta-o com a hipótese inicial e justifica a conclusão.

Nesse processo, calculadoras e outros recursos digitais não substituem o desenvolvimento do pensamento matemático. Quando utilizados com planejamento pedagógico, eles ajudam o estudante a testar hipóteses, identificar padrões e visualizar relações entre diferentes conceitos.

“A tecnologia agiliza uma parte do processo, mas a construção de sentido continua sendo humana e pedagógica”, afirma Jalman.

O objetivo, portanto, não é apenas encontrar uma resposta mais rapidamente. A tecnologia deve ampliar as possibilidades de investigação e abrir espaço para que o estudante explique a estratégia utilizada, avalie se o resultado é coerente e compreenda o conceito envolvido.

Como a família pode ajudar na aprendizagem de Matemática?

A família não precisa dominar todos os conteúdos para oferecer apoio. O primeiro passo é observar a dificuldade com calma e procurar entender quais habilidades ainda não foram consolidadas.

Algumas atitudes podem ajudar:

  • conversar sobre quais conteúdos causam mais insegurança;
  • acompanhar as orientações e avaliações da escola;
  • organizar revisões curtas e frequentes;
  • valorizar a estratégia utilizada, mesmo quando a resposta estiver errada;
  • evitar comparações com irmãos e colegas;
  • usar situações cotidianas envolvendo preços, receitas, horários e medidas;
  • incentivar o estudante a explicar como chegou ao resultado;
  • manter contato com professores e coordenação pedagógica.

O erro pode funcionar como uma pista sobre o raciocínio do aluno. Em vez de apenas apresentar a resposta correta, a família pode perguntar qual foi a estratégia utilizada e em que momento surgiu a dúvida.

Quando a família deve procurar apoio da escola?

O diálogo com a escola é indicado quando a dificuldade persiste, aparece em diferentes conteúdos ou começa a afetar a participação, a autoestima e a rotina do estudante.

A família pode solicitar informações mais específicas sobre as habilidades que precisam ser retomadas. Saber se a dificuldade envolve operações, interpretação, proporcionalidade ou leitura de gráficos torna o apoio mais direcionado.

Quando houver sofrimento emocional intenso, mudanças de comportamento ou suspeita de um transtorno de aprendizagem, a avaliação de profissionais qualificados pode ser necessária. Uma nota baixa isolada não permite estabelecer qualquer diagnóstico.

O que as escolas podem fazer para melhorar esse cenário?

O avanço da aprendizagem exige ações que acompanhem o estudante durante toda a Educação Básica. Recuperar conteúdos apenas no fim do Ensino Médio pode ser insuficiente diante de lacunas construídas ao longo de vários anos.

professora ajudando aluna na tarefa de matemática

Entre as medidas importantes estão:

  • realizar avaliações diagnósticas periódicas;
  • oferecer recuperação ao longo do ano letivo;
  • trabalhar diferentes representações de um mesmo conceito;
  • relacionar a Matemática a problemas concretos;
  • avaliar o raciocínio, além da resposta final;
  • utilizar tecnologias com intencionalidade pedagógica;
  • garantir formação continuada aos professores;
  • acompanhar os estudantes em maior situação de defasagem.

Os resultados de estados e municípios nos índices do Saeb também mostram que a melhora é possível. Entre 2023 e 2025, todos os estados avançaram na aprendizagem adequada em Matemática no Ensino Médio, embora somente dez tenham reduzido a proporção de estudantes abaixo do básico.

O que os dados indicam para o futuro da aprendizagem?

Como vimos, a pesquisa divulgada pelo Todos Pela Educação apresenta duas mensagens importantes. 

A primeira é que políticas educacionais consistentes podem melhorar a aprendizagem. A segunda é que o ritmo de avanço ainda não garante que todos os estudantes cheguem ao fim da Educação Básica com os conhecimentos necessários.

Para as famílias, o caminho passa por acompanhar a aprendizagem desde os primeiros anos, conversar com a escola e buscar ambientes que valorizem diagnóstico, recuperação e compreensão conceitual.

Na escolha de uma escola de Educação Infantil, Ensino Fundamental ou Ensino Médio, também é importante conhecer a proposta pedagógica, a formação dos professores e as estratégias de apoio oferecidas aos estudantes. 

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