O Dia Nacional do Surdo em 26 de setembro recorda a fundação da instituição que deu origem ao atual Instituto Nacional de Educação de Surdos, em 1857;
A inclusão escolar exige acesso à comunicação, profissionais preparados, recursos visuais e respeito à cultura e à identidade surda;
A Libras é uma língua com estrutura própria e pode ocupar o lugar de primeira língua na educação bilíngue de estudantes surdos.
O Dia Nacional do Surdo, celebrado em 26 de setembro, chama atenção para uma conversa que não deveria ficar restrita a uma única data: o respeito à língua, à cultura e aos direitos das pessoas surdas.
Na escola, isso significa garantir muito mais do que a matrícula do estudante. É preciso criar condições para que o aluno surdo consiga aprender, participar das atividades, fazer amizades e se comunicar com autonomia
Por isso, a data também convida famílias e escolas a compreenderem o papel da Libras, da educação bilíngue e da convivência inclusiva na Educação Básica.
O artigo explica a origem da data e mostra como famílias e educadores podem contribuir para uma educação mais acessível.
Por que 26 de setembro é o Dia Nacional do Surdo?
O dia 26 de setembro foi escolhido por marcar a fundação, em 1857, da instituição que deu origem ao atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), no Rio de Janeiro.
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A comemoração foi instituída oficialmente pela Lei nº 11.796/2008, com o nome de Dia Nacional dos Surdos. A data propõe uma reflexão sobre direitos, acessibilidade, educação e participação social da pessoa surda.
Além de uma data para celebrar conquistas, o Dia do Surdo ajuda a dar visibilidade às barreiras linguísticas, culturais e educacionais que ainda afetam crianças, adolescentes e adultos surdos.
Também é uma oportunidade para reconhecer o protagonismo da própria comunidade surda. Essa perspectiva é sintetizada pelo lema “nada sobre nós sem nós”, que defende a participação das pessoas surdas nas decisões relacionadas à sua educação e aos seus direitos.
Qual é a importância do Setembro Surdo?
O Setembro Surdo, também chamado de Setembro Azul, é um período de valorização da cultura surda, da Libras e das conquistas da comunidade surda.
protagonismo de educadores, artistas e pesquisadores surdos;
convivência respeitosa entre estudantes surdos e ouvintes.
O termo ouvintismo descreve práticas que tomam a experiência das pessoas ouvintes como padrão e desvalorizam as formas de comunicação, aprendizagem e participação das pessoas surdas.
Reconhecer esse problema ajuda a escola a compreender que a dificuldade não está simplesmente no estudante, mas também nas barreiras criadas por ambientes que não garantem acesso linguístico e visual.
Qual é a cor do Dia do Surdo?
A cor associada ao Dia Nacional do Surdo e ao Setembro Surdo é o azul.
Em mobilizações da comunidade surda, a cor foi ressignificada como símbolo de resistência, orgulho e luta por direitos.
Sua história também remete à perseguição de pessoas com deficiência durante a Segunda Guerra Mundial, quando marcas azuis foram usadas para identificá-las.
Hoje, o azul aparece em campanhas, eventos e atividades educativas voltadas à valorização da comunidade surda.
Mais importante do que usar a cor, porém, é compreender o que ela representa e desenvolver ações com participação de pessoas surdas.
Libras é uma linguagem de sinais?
Embora a expressão “linguagem de sinais” seja comum nas buscas, o termo adequado é língua de sinais. A Libras não é um conjunto de gestos nem uma representação gestual da Língua Portuguesa.
A Língua Brasileira de Sinais (Libras) possui estrutura gramatical própria e utiliza recursos visuais e espaciais para a comunicação. Ela foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão pela Lei nº 10.436/2002.
Cada país ou comunidade pode ter sua própria língua de sinais. Por isso, a Libras não é universal e apresenta variações relacionadas a regiões, grupos e contextos sociais.
Também é importante reconhecer que a comunidade surda é plural. Nem toda pessoa surda utiliza Libras ou constrói sua identidade da mesma maneira. Há pessoas sinalizantes, oralizadas, bilíngues e com diferentes experiências linguísticas.
Qual é o papel da Libras no desenvolvimento de estudantes surdos?
Para crianças e adolescentes surdos sinalizantes, a Libras pode ser essencial para a comunicação, a aprendizagem, a construção da identidade e o sentimento de pertencimento.
Tiago Ribeiro da Silva, doutor e mestre em Educação, pedagogo e profissional do Instituto Nacional de Educação de Surdos, explica que língua, cultura e identidade estão diretamente relacionadas:
A Libras, como língua visual, é marca identitária e cultural da comunidade surda. Através dela a criança surda e o estudante surdo podem compreender de modo mais profundo, conectado com seus modos de pensar e processar o conhecimento.
O acesso à Libras não deve ficar restrito a uma disciplina ou ao acompanhamento de um intérprete. A língua precisa estar presente nas aulas, nas conversas, nos materiais, nos eventos e nos demais espaços da escola.
Esse contato também pode ser importante desde os primeiros anos de vida. Quando a criança surda encontra adultos surdos, professores bilíngues e outras crianças sinalizantes, ela amplia suas referências linguísticas, culturais e sociais.
O que é educação inclusiva para surdos?
A educação inclusiva para surdos garante condições para que o estudante aprenda, se comunique, participe das atividades e construa vínculos com autonomia.
Isso envolve remover barreiras na sala de aula e em todos os ambientes escolares. Avisos, reuniões, apresentações, avaliações e atividades extracurriculares também precisam ser acessíveis.
Já a educação bilíngue de surdos é definida pela legislação como uma modalidade na qual a Libras ocupa o lugar de primeira língua e a Língua Portuguesa escrita, o de segunda língua.
A Lei nº 14.191/2021 incluiu essa modalidade na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A oferta pode ocorrer em escolas bilíngues, classes bilíngues, escolas comuns ou polos de educação bilíngue.
Elemento
Como aparece em uma educação verdadeiramente inclusiva
Comunicação
Libras presente nas aulas e nas interações cotidianas
Ensino
Estratégias visuais, materiais bilíngues e recursos multimodais
Português escrito
Ensinado como segunda língua para estudantes surdos sinalizantes
Profissionais
Professores preparados, educadores surdos e intérpretes quando necessários
Currículo
Presença da história, da arte, da literatura e da cultura surda
Participação
Estudante incluído em aulas, eventos, avaliações e decisões escolares
Convivência
Comunicação e interação com colegas, professores e demais funcionários
A presença de um recurso isolado de acessibilidade não torna, por si só, uma escola bilíngue. A inclusão precisa fazer parte da proposta pedagógica e da rotina da instituição.
Segundo Tiago Ribeiro da Silva:
Uma escola verdadeiramente bilíngue e inclusiva compreende que a Língua de Sinais não é apenas um meio ou uma ferramenta para a aquisição do conhecimento. É muito mais do que isso! É uma marca de cultura, de identidade, de comunidade.
Pensando nisso, é importante que, antes da matrícula, familiares e responsáveis perguntem à escola:
A Libras é utilizada como língua de instrução?
Há professores bilíngues, professores surdos ou instrutores de Libras?
A instituição conta com intérprete de Libras quando necessário?
Como o Português escrito é ensinado ao estudante surdo?
Os materiais didáticos utilizam vídeos, imagens e outros recursos visuais?
A cultura e a história da comunidade surda aparecem no currículo?
A família recebe orientação e pode participar das decisões pedagógicas?
O estudante surdo é ouvido sobre suas necessidades e preferências?
As respostas precisam ser analisadas de acordo com o perfil linguístico e as necessidades de cada estudante. A família também pode solicitar uma conversa com a coordenação pedagógica e conhecer a rotina antes de tomar a decisão.
Por que inclusão e convivência são importantes para a educação do surdo?
A convivência inclusiva favorece vínculos, participação e troca de conhecimentos. Quando existe comunicação acessível, o estudante surdo pode conversar diretamente com colegas, fazer perguntas, expressar opiniões e participar dos trabalhos em grupo.
A inclusão também beneficia os estudantes ouvintes. O contato com a Libras e com a cultura surda amplia o respeito às diferenças e mostra que existem diferentes maneiras de perceber, comunicar e produzir conhecimento.
No entanto, convivência não significa apenas colocar estudantes surdos e ouvintes no mesmo ambiente. Sem acesso linguístico, a criança pode estar fisicamente presente e, ainda assim, permanecer isolada das conversas e das experiências escolares.
Para Tiago Ribeiro da Silva, a relação deve partir do reconhecimento da autonomia da pessoa surda:
O primeiro passo é entender que a pessoa surda é um sujeito de conhecimento, cultura e direito. Não é um coitado. As dificuldades e barreiras existentes são imposições sociais, não são próprias da pessoa surda.
Como famílias e colegas podem contribuir com a inclusão?
Aprender Libras é uma das formas mais significativas de ampliar a comunicação. O aprendizado não deve ser tratado como caridade, mas como uma abertura para conversar diretamente e participar de uma comunidade linguística e cultural.
Outras atitudes também fazem diferença no relacionamento com a pessoa surda:
✔️ manter contato visual durante a conversa;
✔️ garantir boa iluminação do ambiente;
✔️ evitar falar de costas ou cobrir o rosto;
✔️ não gritar nem exagerar movimentos labiais;
✔️ usar recursos escritos e visuais quando necessário;
✔️ perguntar à própria pessoa como ela prefere se comunicar;
✔️ não presumir que todo surdo faz leitura labial;
✔️ dirigir-se à pessoa surda, mesmo quando houver intérprete;
✔️ respeitar a autonomia de crianças e adolescentes;
✔️ conhecer produções artísticas, literárias e acadêmicas de pessoas surdas.
A família e a escola podem trabalhar em parceria, mas necessidades pedagógicas individuais devem ser avaliadas por profissionais qualificados e discutidas com o estudante.
O que fazer para comemorar o Dia Nacional do Surdo na escola?
As atividades precisam ultrapassar a reprodução de sinais isolados. O ideal é que tenham finalidade educativa, contem com fontes confiáveis e incluam pessoas surdas em sua organização.
Algumas possibilidades são:
Convidar profissionais surdos para rodas de conversa, oficinas e apresentações.
Realizar uma introdução à Libras conduzida por pessoa habilitada.
Apresentar livros e produções de autores surdos adequados à faixa etária.
Exibir vídeos acessíveis, com Libras, legendas e boa qualidade visual.
Estudar a história do INES e da educação de surdos no Brasil.
Analisar a acessibilidade da escola com participação dos estudantes.
Criar materiais visuais bilíngues para espaços de uso coletivo.
Debater o ouvintismo e outras barreiras, com linguagem adequada à idade.
Realizar atividades durante todo o ano, evitando limitar a inclusão ao mês de setembro.
Também é importante evitar dinâmicas que simulem a surdez, como vendar ou tampar os ouvidos. Essas experiências não representam a vida das pessoas surdas e podem reforçar uma visão baseada apenas na falta ou na limitação.
Qual é a mensagem para o Dia do Surdo?
A principal mensagem do Dia Nacional do Surdo é que pessoas surdas são sujeitos de direitos, língua, conhecimento e cultura.
Uma mensagem adequada para a data pode ser:
Respeitar a comunidade surda é garantir participação, acessibilidade linguística, educação de qualidade e protagonismo: nada sobre as pessoas surdas sem as pessoas surdas.
A homenagem ganha sentido quando vem acompanhada de atitudes concretas, como interesse em aprender Libras, ouvir estudantes surdos, formar profissionais e retirar barreiras da rotina escolar.
Como encontrar uma escola inclusiva com bolsa de estudo?
A escolha da escola para uma criança ou adolescente surdo precisa considerar a proposta pedagógica, a acessibilidade linguística, a formação dos profissionais e a participação do estudante na rotina.
Após avaliar esses aspectos diretamente com cada instituição, a família pode acessar a Quero Escola, para pesquisar colégios particulares, comparar opções e encontrar bolsas de estudo com até 80% de desconto.
A bolsa ajuda no planejamento financeiro, mas a decisão deve reunir preço, localização, etapa de ensino e condições reais de inclusão. Uma conversa detalhada com a coordenação escolar continua sendo indispensável antes da matrícula.
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