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Mercado Livre vale mais que o Itaú: o que o varejo ainda não entendeu



Em resumo:

  • O Mercado Livre ultrapassou R$ 700 bilhões em valor de mercado, tornando-se a empresa mais valiosa da América Latina.
  • A vantagem competitiva não está apenas em tecnologia ou logística, mas na eliminação de atritos ao longo da jornada do cliente.
  • Para o varejo brasileiro, o desafio é transformar a experiência do cliente em princípio operacional, e não apenas investir em ferramentas digitais.

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Mário Trentim apresenta estudo de caso sobre execução estratégica durante palestra para profissionais de gestão e liderança.
Acervo Pessoal / Mario Trentim

O Mercado Livre ultrapassou R$ 700 bilhões em valor de mercado e se tornou a empresa mais valiosa da América Latina, à frente de nomes como Petrobras, Vale e Itaú.

O dado costuma ser interpretado como uma demonstração de força tecnológica. Mas essa leitura perde o principal ponto.

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O valor de mercado é, sobretudo, um reflexo de modelo de negócio.

O que o Mercado Livre construiu e muitos varejistas tradicionais ainda tentam compreender não é apenas um algoritmo de recomendação ou uma operação logística eficiente.

É a eliminação sistemática de atritos na experiência do cliente, da descoberta do produto à resolução de problemas depois da compra.

Boa parte do varejo brasileiro investiu em vitrines digitais, aplicativos e funcionalidades.

O problema é que, em muitos casos, os processos que existem por trás dessas interfaces continuam praticamente os mesmos.

A experiência começa moderna e termina burocrática.

Leia mais: Indústria 4.0 exige gestão 4.0: por que a tecnologia não basta

A economia da conveniência como estratégia

A chamada economia da conveniência parte de uma premissa simples: em um mercado com muitas alternativas e baixo custo de troca, a fidelidade do cliente é conquistada pela redução do esforço necessário para comprar, utilizar e resolver problemas.

O produto desejado, portanto, não é a única entrega de valor. A própria facilidade para obtê-lo faz parte da proposta.

Empresas que compreenderam essa lógica passaram a redesenhar processos a partir da experiência do consumidor.

Não se trata de uma campanha de marketing, mas de uma decisão sobre como a operação deve funcionar.

A Amazon é um exemplo recorrente.

Nos Estados Unidos, a empresa construiu parte de sua estratégia a partir do conceito de customer obsession, ou obsessão pelo cliente.

A lógica é medir o sucesso não apenas pelo que a companhia vende, mas pelo que o consumidor consegue realizar com o menor esforço possível.

Essa visão aparece em decisões operacionais. Processos simplificados de reembolso, investimentos em centros de distribuição e redução dos prazos de entrega são exemplos de escolhas que priorizam a experiência.

Não são, essencialmente, decisões de TI.

São decisões de modelo de negócio.

Leia também: Transição energética no Brasil exige gestão de programa, não apenas projetos

O que o varejo brasileiro ainda não resolveu

O varejo brasileiro possui aplicativos sofisticados, sistemas de recomendação, plataformas de e-commerce e operações logísticas cada vez mais estruturadas.

O ponto de ruptura aparece quando alguma coisa dá errado.

Em diferentes operações físicas e digitais, uma simples troca ou devolução ainda pode envolver deslocamento, protocolo, prazo de resposta, múltiplos canais de atendimento e transferência entre setores.

O call center, que deveria representar uma alternativa, muitas vezes se transforma no único caminho para solucionar o problema.

O cliente entra em um chat esperando uma resposta. O atendente não tem autonomia para resolver. O caso vira um formulário. O formulário chega a outro setor. O setor estabelece um prazo. E a solução pode levar dias.

O consumidor que chegou esperando conveniência encontra burocracia.

Esse problema não é necessariamente consequência de uma tecnologia ruim. Ele costuma revelar uma escolha anterior: a operação foi estruturada para eficiência da venda, e não para o sucesso do cliente depois dela.

Quando a área de customer success existe apenas como centro de custo, a organização perde a oportunidade de utilizá-la como fonte de diferenciação.

O efeito aparece em indicadores como NPS, churn, retenção e custo de aquisição de clientes.

Se a empresa perde consumidores continuamente, precisa adquirir novos clientes apenas para sustentar a base anterior.

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Suporte ao cliente não é o mesmo que sucesso do cliente

Essa diferença é fundamental.

Suporte ao cliente resolve problemas que já aconteceram.

Sucesso do cliente procura evitar esses problemas e garantir que o consumidor alcance o resultado esperado.

A distinção muda a maneira como a empresa opera.

Um varejista orientado ao sucesso do cliente não espera que o consumidor reclame sobre um atraso. Se a operação identifica que o pedido não chegará no prazo, a organização pode avisar antecipadamente e apresentar uma solução.

Da mesma forma, informações mais precisas sobre tamanho, utilização, compatibilidade e características de um produto podem reduzir devoluções antes mesmo que elas aconteçam.

A lógica deixa de ser:

“Como resolvemos a reclamação?”

E passa a ser:

“Como evitamos que o problema aconteça?”

Essa mudança exige tecnologia, mas a tecnologia é consequência.

A causa é uma decisão estratégica sobre o que a empresa considera sucesso.

Quando o sucesso do cliente passa a ser uma métrica central, outras estruturas também precisam mudar: incentivos, indicadores de desempenho, processos, responsabilidades e autonomia das equipes que estão em contato direto com o consumidor.

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O problema está entre o front-end e o back-end

Um dos problemas mais comuns no varejo é a desconexão entre aquilo que o consumidor vê e aquilo que sustenta a operação.

O aplicativo pode permitir uma compra em poucos segundos. Mas a devolução pode continuar dependendo de processos desenhados para uma realidade anterior ao comércio digital.

O consumidor vê o aplicativo.

Mas sente o processo.

Essa diferença é decisiva.

Digitalizar o front-end sem transformar o back-end não significa necessariamente transformar o modelo de negócio. Em muitos casos, significa apenas acelerar a parte mais visível de um processo que continua lento nas etapas que o cliente não enxerga.

É nesse ponto que investimentos em tecnologia podem produzir uma falsa sensação de transformação.

A empresa apresenta uma nova interface, cria funcionalidades e moderniza a comunicação.

Entretanto, quando o consumidor precisa cancelar uma compra, trocar um produto ou resolver um problema de entrega, encontra os mesmos obstáculos de antes.

A transformação digital, nesse cenário, fica restrita à aparência.

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A pergunta que define o posicionamento do varejo

Para quem lidera uma operação de varejo, existe uma pergunta mais importante do que qualquer mapa de jornada do cliente:

Quando um cliente tem um problema depois da compra, qual é a primeira reação da organização: proteger a margem ou resolver o problema?

A resposta revela muito sobre a estratégia da empresa.

Não se trata de defender que toda solicitação do consumidor deve ser aceita independentemente de custo.

Trata-se de entender qual princípio orienta a decisão quando existe conflito entre eficiência interna e experiência do cliente.

É aí que aparece a diferença entre uma empresa que vende produtos e uma empresa que constrói um modelo de relacionamento baseado em conveniência.

O Mercado Livre não vale mais que o Itaú simplesmente porque possui tecnologia superior.

Seu diferencial está na consistência com que transformou a experiência do cliente em parte central do modelo de negócio.

O varejo brasileiro já possui tecnologia, dados e capacidade logística para avançar nessa direção. O próximo passo é mais difícil: redesenhar os processos que o cliente não vê, mas sente.

Porque, no fim, não é o aplicativo que define a experiência.

É tudo aquilo que acontece depois que o cliente aperta o botão de comprar.

O conselho que aprova tudo não governa nada


Sobre o autor

Mario H. Trentim é membro do Board of Directors do PMI, Reitor da Allevo Tech / Qeevo Group, doutorando do ITA e autor de 13 livros sobre gestão e execução estratégica.

Atua como conselheiro e conector estratégico em organizações em transformação.

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