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Indústria 4.0 exige gestão 4.0: por que a tecnologia não basta



Em resumo:

  • A Indústria 4.0 não se resume à tecnologia: sensores, sistemas e dashboards só geram valor quando os dados coletados são incorporados aos processos de decisão da empresa.
  • O principal desafio está na gestão: muitas indústrias modernizaram a infraestrutura tecnológica, mas mantiveram processos, critérios e níveis de autoridade tradicionais, criando uma distância entre informação e ação.
  • A gestão 4.0 fecha o ciclo da digitalização: é preciso redesenhar processos de decisão, dar autonomia às equipes e medir os impactos dos dados sobre produtividade, qualidade, manutenção e resultados operacionais.

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Entre 2018 e 2024, a indústria brasileira ampliou os investimentos em tecnologias associadas à Indústria 4.0.

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Sensores de IoT, sistemas SCADA, plataformas MES integradas ao ERP, robôs colaborativos e gêmeos digitais passaram a fazer parte da realidade de muitas plantas industriais.

Os dados estão sendo coletados. Os dashboards estão disponíveis. Mas uma questão permanece: as empresas estão usando essas informações para mudar a forma como tomam decisões?

Em muitas plantas industriais que visitei, no Brasil e no exterior, a definição sobre quando realizar a manutenção preventiva de um equipamento crítico ainda depende da experiência do técnico e de um calendário previamente estabelecido.

Não necessariamente dos dados que a própria empresa investiu para coletar.

O problema, portanto, não é apenas tecnológico. É de gestão e de processo decisório.

Leia também: Transição energética no Brasil exige gestão de programa, não apenas projetos

Indústria 4.0: o investimento que não fecha o ciclo

A lógica da Indústria 4.0 pressupõe um ciclo contínuo:

  • coletar dados do processo físico;
  • analisar informações em tempo real;
  • identificar padrões e oportunidades;
  • tomar decisões com mais rapidez e precisão;
  • agir sobre o processo;
  • usar os novos resultados para alimentar o ciclo novamente.

O valor não está apenas no dado. Está na decisão que o dado permite tomar.

É justamente nessa etapa que muitas iniciativas parecem perder força. A empresa investe na coleta e no armazenamento de informações, mas mantém os mesmos processos, critérios e níveis de autoridade que existiam antes da digitalização.

O resultado é uma estrutura tecnológica sofisticada operando sobre uma estrutura de decisão tradicional.

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Tecnologia instalada não significa transformação concluída

Pesquisas e estudos sobre transformação digital nas organizações apontam para um problema recorrente: a tecnologia, isoladamente, não garante ganhos de produtividade.

Erik Brynjolfsson, do MIT, por exemplo, estudou o chamado efeito de J-curve, segundo o qual investimentos em novas tecnologias podem levar algum tempo para produzir ganhos de produtividade.

Isso acontece porque a organização precisa adaptar processos, competências e formas de trabalho para capturar o valor da inovação.

Em outras palavras, comprar o sensor é uma etapa. Mudar a decisão tomada a partir do sensor é outra.

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O Brasil já tem um ecossistema de inovação industrial

O debate sobre gestão 4.0 também precisa considerar que o Brasil não parte do zero.

O país possui instituições, centros tecnológicos e mecanismos de financiamento voltados à inovação e à digitalização da indústria. Entre eles estão:

  • FINEP, com linhas de financiamento e instrumentos de apoio à inovação;
  • BNDES, com programas relacionados à modernização e à transformação tecnológica;
  • Sebrae, com iniciativas direcionadas à transformação digital de empresas;
  • ITA, com pesquisa aplicada em engenharia, sistemas e tecnologia;
  • Polos de inovação e parques tecnológicos, que aproximam empresas, universidades e centros de pesquisa.

São José dos Campos é um exemplo desse ecossistema. A cidade reúne instituições como ITA, INPE e Embraer, além de empresas de alta tecnologia e organizações de pesquisa.

Esse ambiente mostra como a integração entre engenharia, pesquisa, indústria e inovação pode criar condições para transformar conhecimento técnico em aplicação prática.

O desafio é fazer com que esse conhecimento chegue a um número maior de empresas e, principalmente, que a tecnologia seja acompanhada por mudanças na gestão.

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O que é gestão 4.0 na prática?

Gestão 4.0 não é simplesmente colocar mais tecnologia dentro da empresa.

É utilizar informação, conectividade e análise de dados para transformar a maneira como a organização decide, executa e acompanha seus processos.

Na indústria, isso significa que decisões como:

  • quando interromper uma linha de produção;
  • quando realizar uma manutenção;
  • quando alterar o mix de produtos;
  • quando investigar uma anomalia;
  • quando corrigir um problema de qualidade;

precisam estar associadas a dados, critérios claros e autoridade para agir.

Imagine um equipamento que apresenta sinais de desgaste identificados por sensores. O sistema consegue detectar a tendência, mas o operador não tem autonomia para interromper a produção.

Nesse cenário, a tecnologia identificou o problema. A gestão não conseguiu transformar a informação em ação.

Esse é o ponto central.

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O papel da engenharia na gestão industrial

Estou no doutorado em Engenharia Mecânica e Aeronáutica no ITA, e essa formação oferece uma perspectiva particularmente útil para compreender o problema.

Na engenharia de controle, existe uma diferença fundamental entre monitorar um sistema e controlá-lo.

Um sistema de monitoramento coleta informações e apresenta o que está acontecendo.

Um sistema de controle utiliza essas informações para interferir no comportamento do sistema.

A mesma lógica pode ser aplicada à gestão industrial.

Uma empresa pode ter sensores, dashboards, sistemas integrados e inteligência analítica. Mas, se as informações não alteram as decisões e as ações, existe principalmente um sistema de monitoramento, e não um sistema de gestão orientado por dados.

A diferença não é apenas conceitual.

É a diferença entre saber o que está acontecendo e conseguir agir sobre o que está acontecendo.

O investimento em treinamento corporativo no Brasil nunca foi tão alto. E o impacto nunca foi tão difícil de medir.

Como transformar tecnologia em resultado?

Para empresas que já investiram em infraestrutura digital, a próxima etapa não precisa necessariamente ser a compra de uma nova tecnologia.

Pode ser a revisão dos processos de decisão.

Uma agenda possível começa por três movimentos:

  1. Mapear decisões críticas
    Identificar onde a organização ainda decide sem utilizar dados que já estão disponíveis.
  2. Redesenhar processos de decisão
    Definir quais informações devem ser consideradas, quem possui autoridade para agir e em quais situações um determinado dado deve provocar uma ação.
  3. Medir o resultado operacional
    Avaliar o impacto sobre indicadores como disponibilidade, produtividade, qualidade, manutenção e tempo de resposta — e não apenas sobre a utilização do sistema de tecnologia.

Esse processo também ajuda a identificar por que os dados não estão sendo utilizados.

O problema pode estar na falta de acesso às informações, na ausência de autoridade, em processos mal definidos ou simplesmente na falta de treinamento.

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A segunda metade da Indústria 4.0

A indústria já investiu muito para digitalizar a operação. A próxima etapa é garantir que essa digitalização seja incorporada à gestão.

Essa mudança exige mais do que TI. Envolve processos, pessoas, autoridade, indicadores e cultura de decisão.

A pergunta que deveria acompanhar a próxima reunião de orçamento não é apenas quanto a empresa ainda precisa investir em tecnologia.

É outra:

O retorno esperado da tecnologia instalada depende apenas de ela funcionar ou exige que a organização mude a forma como toma decisões?

Se a resposta estiver na segunda alternativa, a transformação ainda não terminou.

A Indústria 4.0 pode fornecer os dados. Cabe à gestão 4.0 transformar esses dados em decisões e resultados.

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Sobre o autor

Mario H. Trentim é membro do Board of Directors do PMI, Reitor da Allevo Tech / Qeevo Group, doutorando do ITA e autor de 13 livros sobre gestão e execução estratégica.

Atua como conselheiro e conector estratégico em organizações em transformação.

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