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Gestão universitária: por que as universidades ensinam gestão, mas ainda precisam modernizar a própria gestão

Universidades formam gestores, mas muitas ainda enfrentam estruturas de gestão lentas para acompanhar as mudanças no mercado de trabalho. O desafio passa por governança, currículos e educação contínua.



Em resumo:

  • A gestão universitária ainda enfrenta estruturas de decisão mais lentas do que as mudanças nas competências exigidas pelo mercado.
  • A educação superior caminha para um modelo que combina diploma, competências verificáveis, micro-learning e formação contínua.
  • Universidades precisarão tratar cursos e currículos como produtos que devem ser atualizados, avaliados e, quando necessário, descontinuados.

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Auditório durante evento sobre gestão de projetos, com apresentação para líderes e profissionais discutindo portfólio de projetos e capacidade de entrega nas organizações.
Evento do PMI reúne profissionais para discutir gestão de projetos, priorização de portfólio e desafios na execução estratégica das organizações.

Escrevo esta coluna de uma posição que me permite observar a educação superior por diferentes ângulos.

Sou doutorando no ITA, produzi 48 cursos para a LinkedIn Learning, com cerca de 465 mil alunos acumulados, e sou Reitor da Allevo Tech, uma instituição que não nasceu do modelo universitário tradicional.

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Essa combinação de experiências me permite enxergar um paradoxo da educação superior: a universidade brasileira avançou muito no conteúdo que ensina sobre gestão, mas ainda tem dificuldades para aplicar esses princípios à própria gestão universitária.

É comum encontrar instituições que ensinam estratégia, inovação, gestão de projetos, indicadores e transformação organizacional.

Porém, quando precisam atualizar um currículo, lançar uma nova formação ou descontinuar um curso sem demanda, os processos podem se tornar longos e complexos.

O problema não é exclusivamente acadêmico. É de governança.

Leia mais: Indústria 4.0 exige gestão 4.0: por que a tecnologia não basta

A velocidade do mercado mudou

O mercado de trabalho não espera o calendário acadêmico.

Novas tecnologias alteram funções, competências e modelos de negócio em ciclos cada vez menores.

Ao mesmo tempo, uma mudança curricular dentro de uma instituição de ensino superior pode depender de diferentes instâncias, colegiados e processos internos.

O resultado é um descompasso.

Enquanto empresas revisam suas necessidades de competências em ciclos relativamente curtos, algumas universidades ainda trabalham com horizontes de atualização que não acompanham essa velocidade.

Isso cria uma pergunta incômoda: se a universidade ensina às empresas a importância da adaptação, por que ela própria encontra tanta dificuldade para se adaptar?

O aluno acaba pagando essa diferença. Não necessariamente em dinheiro, mas em tempo, empregabilidade e aderência entre aquilo que aprende e aquilo que o mercado procura.

Leia também: Transição energética no Brasil exige gestão de programa, não apenas projetos

O que Clayton Christensen previu

Em 2011, Clayton Christensen publicou na Harvard Business Review uma análise que provocou forte debate no setor educacional.

A tese estava relacionada ao impacto da inovação disruptiva, especialmente do ensino online e de novos modelos de aprendizagem, sobre as universidades tradicionais.

A previsão sobre o fechamento de instituições nos Estados Unidos acabou sendo mais pessimista do que os acontecimentos posteriores indicaram.

Mas a questão central permanece atual: modelos tradicionais podem perder relevância quando deixam de responder às necessidades dos seus clientes e do ambiente em que estão inseridos.

No Brasil, o setor de educação superior passou por um processo significativo de consolidação. Grandes grupos educacionais cresceram por meio de aquisições, expansão de portfólios e ganhos de escala.

Esse movimento trouxe eficiência operacional.

Mas eficiência não é sinônimo de valor acadêmico.

Reduzir custos, aumentar escala e integrar operações são competências importantes.

Porém, uma instituição de ensino precisa também responder a perguntas mais difíceis:

  • O aluno está desenvolvendo as competências necessárias?
  • O currículo acompanha as transformações do mercado?
  • Os cursos continuam relevantes?
  • A formação melhora a empregabilidade?
  • A instituição consegue perceber rapidamente quando uma oferta deixou de fazer sentido?

Essas perguntas exigem uma gestão universitária diferente.

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O problema da governança acadêmica

Universidades são organizações complexas.

Em uma mesma instituição podem coexistir conselho de administração, reitoria, pró-reitorias, conselhos acadêmicos, coordenadores, colegiados e departamentos.

Cada estrutura possui responsabilidades, interesses e horizontes de decisão diferentes.

Essa complexidade tem uma razão de existir. A autonomia acadêmica é importante para a produção do conhecimento e para a qualidade da educação.

O problema aparece quando autonomia se transforma em lentidão.

Henry Mintzberg classificou universidades como burocracias profissionais, estruturas nas quais profissionais altamente especializados possuem grande autonomia sobre o trabalho que realizam.

É uma característica que tem vantagens. Mas também cria um desafio: como acelerar decisões sem eliminar a autonomia acadêmica?

Esse talvez seja um dos principais dilemas da gestão universitária contemporânea.

Um curso pode levar anos para ser concebido, aprovado, estruturado e colocado em funcionamento. O mesmo pode acontecer quando chega o momento de encerrá-lo.

O mercado, entretanto, não trabalha nesse ritmo.

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A universidade precisa começar a pensar como uma gestora de produtos educacionais

Não estou defendendo que universidades sejam administradas como empresas convencionais. Educação tem características próprias, e conhecimento não pode ser tratado apenas como uma mercadoria.

Mas há práticas de gestão que precisam ser incorporadas ao ambiente acadêmico.

Uma delas é enxergar cada curso como um produto educacional.

Isso significa acompanhar continuamente:

  • demanda do mercado;
  • desempenho e permanência dos estudantes;
  • atualização das competências;
  • empregabilidade;
  • retorno dos alunos e empregadores;
  • evolução tecnológica;
  • custo de operação;
  • aderência do currículo às necessidades profissionais.

A lógica muda.

Em vez de perguntar apenas se um curso está funcionando administrativamente, a instituição passa a perguntar se ele continua entregando valor.

E isso exige coragem para tomar decisões.

Inclusive para encerrar cursos.

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O novo modelo combina diploma e competência

O futuro da educação superior não precisa significar o fim da universidade. O movimento que observo é diferente: a redefinição do que uma instituição de ensino precisa entregar.

O diploma continua tendo valor. Mas ele passa a conviver com outras formas de comprovação de conhecimento.

Vejo três movimentos importantes.

1. Micro-learning

O primeiro é o crescimento do micro-learning.

Conteúdos modulares, objetivos e específicos permitem que profissionais desenvolvam uma competência sem necessariamente ingressar em uma formação longa.

O público não é apenas o estudante tradicional.

É também o profissional de 30, 40 ou 50 anos que precisa aprender uma ferramenta, atualizar um conhecimento ou desenvolver uma competência específica sem interromper a carreira.

Universidades que perceberem esse movimento podem criar certificações e formações modulares complementares à graduação.

2. Credenciais baseadas em competências

O segundo movimento é a valorização de competências verificáveis.

Cursos livres, certificações profissionais e programas especializados já convivem com os diplomas tradicionais em diversas áreas.

O ponto central não é simplesmente acumular certificados. É demonstrar o que a pessoa efetivamente sabe fazer.

A pergunta deixa de ser apenas “qual curso você fez?” e passa a incluir “qual competência você consegue demonstrar?”.

3. Educação contínua

O terceiro movimento é talvez o mais importante: a educação deixa de ser uma etapa isolada da vida.

A ideia de estudar até os 22 anos e passar décadas apenas aplicando o que foi aprendido já não corresponde à velocidade das transformações profissionais.

Carreiras mais longas e mudanças frequentes nas tecnologias exigem atualização constante.

Nesse cenário, a universidade pode deixar de ser apenas o lugar onde uma pessoa obtém sua primeira formação e se tornar uma parceira de aprendizagem ao longo da carreira.

Isso inclui oferecer novas oportunidades para ex-alunos, profissionais em transição e pessoas que precisam desenvolver competências específicas.

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A pergunta que a gestão universitária precisa responder

Se eu estivesse diante de um reitor, pró-reitor ou conselheiro de uma instituição de educação superior, faria uma pergunta bastante simples:

Qual é o processo para descontinuar um curso que perdeu relevância ou demanda de mercado?

A resposta diz muito sobre a gestão universitária.

Se a decisão depende de muitas instâncias, leva anos e não possui critérios objetivos, existe um problema de governança.

Não significa eliminar os colegiados. Tampouco significa substituir o conhecimento acadêmico por decisões exclusivamente financeiras.

Significa estabelecer uma arquitetura de decisão mais clara.

  • Quem decide?
  • Com quais dados?
  • Em quanto tempo?
  • Quais critérios determinam a continuidade de um curso?
  • Quais indicadores justificam uma mudança?
  • E quem pode interromper uma iniciativa que deixou de gerar valor?

Essas são perguntas de gestão.

E talvez esteja aí o grande paradoxo da educação superior: as universidades passaram décadas ensinando gestão para empresas, mas agora precisam aplicar parte dessas mesmas práticas sobre si próprias.

O desafio não é transformar a universidade em uma empresa.

É fazer com que uma instituição criada para produzir e transmitir conhecimento consiga também aprender, adaptar-se e tomar decisões na velocidade que o próprio conhecimento exige.

A gestão universitária do futuro precisará fazer exatamente aquilo que a universidade sempre ensinou aos seus alunos: avaliar resultados, aprender com os dados, adaptar estratégias e abandonar aquilo que deixou de funcionar.

Caso contrário, o mercado fará essa gestão por ela.

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Sobre o autor

Mario H. Trentim é membro do Board of Directors do PMI, Reitor da Allevo Tech / Qeevo Group, doutorando do ITA e autor de 13 livros sobre gestão e execução estratégica.

Atua como conselheiro e conector estratégico em organizações em transformação.

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