
O conselho que aprova tudo não governa nada
| 12/08/26Entenda por que conselhos que apenas aprovam propostas podem falhar na governança e quais práticas ajudam a fortalecer a atuação do conselho.
Mario H. Trentim analisa o que a pesquisa de Bent Flyvbjerg muda para gestores de projetos e para quem quer construir carreira na área.
Em resumo:
O número é difícil de assimilar na primeira leitura. Em um estudo com mais de 16.000 projetos em 136 países, Bent Flyvbjerg e Dan Gardner, autores de How Big Things Get Done (2023), identificaram que apenas 0,5% dos projetos entregam simultaneamente prazo, custo e benefícios completos.
Na prática, isso significa que o fracasso em projetos complexos não é exceção. Ele aparece como um padrão estatístico recorrente.
Para Mario H. Trentim, Board Member do PMI Global (2025-2027) e pesquisador no ITA, o dado é relevante porque mostra que décadas de metodologias, certificações e frameworks ainda não resolveram o problema central da profissão: transformar intenção estratégica em entrega real.

Acervo Pessoal
Projetos falham quando estimativas, decisões e incentivos organizacionais empurram a iniciativa para a execução antes de haver clareza suficiente sobre escopo, riscos, prazo, custo e benefícios esperados.
A pesquisa de Bent Flyvbjerg mostra que a falha costuma surgir antes da obra, do sistema, do produto ou da transformação começar de fato. Ela nasce na fase de aprovação, quando custos são subestimados, prazos são comprimidos e benefícios são superestimados.
Segundo Trentim, o problema não é apenas falta de conhecimento técnico.
“O problema não é ausência de conhecimento. O problema é que o conhecimento existe fora da organização e o viés existe dentro dela. Toda organização que vai aprovar um projeto grande tem incentivos para subestimar custo e prazo — quem apresenta os números realistas frequentemente não consegue aprovação. Flyvbjerg chama isso de bluff estratégico. É racional para o indivíduo e destrutivo para o sistema.”
Esse comportamento se conecta à falácia do planejamento, conceito associado a Daniel Kahneman. Trata-se da tendência de subestimar tempo, custo e risco em projetos futuros, mesmo quando experiências anteriores mostram outro resultado.
+ Leia também: 99% dos grandes projetos falham: o que um gerente pode fazer a respeito?
A pesquisa de Flyvbjerg não se limita a mostrar por que projetos falham. Ela também identifica o que aparece com frequência nos raros casos de sucesso.
Os projetos que entregam o que prometem tendem a reunir três características principais:
| Característica | O que significa | Impacto na gestão de projetos |
| Pensar devagar, agir rápido | Planejar com rigor antes de comprometer recursos relevantes | Reduz decisões apressadas e aumenta previsibilidade |
| Modularização | Dividir o projeto em partes replicáveis | Permite aprendizado acumulado e menor exposição ao risco |
| Experiência de referência | Usar histórico real de projetos similares | Substitui otimismo institucional por dados comparáveis |
Esses elementos ajudam a explicar por que alguns projetos conseguem escapar do padrão de atraso, estouro de orçamento e entrega parcial de benefícios.
“Pensar devagar, agir rápido” significa investir mais tempo na fase anterior ao início da execução. O objetivo é definir melhor o problema, testar hipóteses, revisar estimativas e comparar o projeto com experiências semelhantes.
Projetos que falham costumam comprimir o planejamento para iniciar logo a execução. Essa escolha cria a sensação de velocidade, mas aumenta a chance de retrabalho, mudanças de escopo e decisões emergenciais.
Em gestão de projetos, pensar devagar envolve:
A execução rápida só funciona quando a preparação é robusta. Sem isso, a velocidade inicial pode apenas antecipar problemas.
A modularização reduz o risco porque transforma um projeto grande em partes menores, repetíveis e mensuráveis. Em vez de tratar cada iniciativa como totalmente única, a organização passa a construir componentes que podem ser testados, ajustados e replicados.
Essa lógica é comum em setores que acumulam aprendizado a cada ciclo. Quanto mais uma equipe repete um módulo, maior tende a ser sua capacidade de prever custo, prazo, qualidade e riscos.
Em projetos complexos, a modularização pode aparecer em:
Para o gestor de projetos, isso muda a pergunta central. Em vez de perguntar apenas “como entregar esse projeto?”, passa a ser necessário perguntar “que partes desse projeto podem ser repetidas, aprendidas e melhoradas?”.
A experiência de referência ajuda porque desloca a análise da opinião interna para dados históricos. Em vez de estimar um projeto apenas com base no plano atual, a equipe observa como projetos semelhantes se comportaram no passado.
Flyvbjerg chama essa abordagem de outside view. A lógica é simples: antes de perguntar “como este projeto deve acontecer?”, a organização precisa perguntar “como projetos parecidos aconteceram?”.
Segundo Trentim, esse é um dos antídotos mais eficazes contra o otimismo institucional.
“A saída não é pessimismo. É o que Flyvbjerg chama de outside view: em vez de perguntar ‘como vai ser esse projeto?’, perguntar ‘como foram projetos similares a esse?’ O dado histórico é o antídoto mais eficaz contra o otimismo institucional.”
Essa prática é especialmente relevante em projetos de infraestrutura, tecnologia, transformação digital, expansão operacional e mudanças organizacionais.
A principal mudança é a valorização da prevenção. O gestor de projetos deixa de ser visto apenas como o profissional que resolve crises e passa a ser avaliado pela capacidade de criar condições para que crises não se tornem inevitáveis.
Na cultura tradicional do “herói do projeto”, o profissional valorizado é aquele que salva entregas sob pressão extrema. A pesquisa de Flyvbjerg sugere outra leitura: o profissional mais estratégico é quem reduz a probabilidade de crise desde o início.
Isso inclui:
O mercado ainda reconhece profissionais que gerenciam crises. No entanto, organizações mais maduras tendem a valorizar quem melhora a qualidade da decisão antes da execução.
Leia também: Quanto ganha um gerente de projetos no Brasil em 2026?
Lições aprendidas influenciam o sucesso quando deixam de ser apenas um registro final e passam a alimentar decisões reais em projetos posteriores.
O PMI Pulse of the Profession 2025 reforça a importância de competências de negócio, aprendizagem estruturada e maturidade organizacional para aumentar a entrega de valor. O ponto central é que aprendizado não ocorre automaticamente. Ele precisa ser registrado, analisado e usado.
Uma organização com boa gestão de lições aprendidas deve responder a perguntas como:
Sem esse processo, cada projeto recomeça do zero. Com ele, a organização constrói memória operacional.
A formação em gestão de projetos passa a ter mais valor quando desenvolve capacidade analítica, visão sistêmica e tomada de decisão baseada em evidências.
Para quem quer atuar na área, o domínio de cronogramas, indicadores e ferramentas continua importante. Mas a pesquisa de Flyvbjerg mostra que a profissão exige mais do que controle operacional.
O profissional precisa compreender:
Cursos de Gestão de Projetos, Administração, Engenharia, Sistemas de Informação e MBA em Gestão de Projetos podem apoiar essa formação, dependendo do nível de carreira e do setor de atuação.
As competências mais importantes passam a combinar técnica, negócio e governança. O gestor de projetos precisa ser capaz de operar métodos, mas também de questionar premissas e proteger a organização contra decisões frágeis.
Entre as competências que ganham peso estão:
| Competência | Por que é relevante |
| Análise de dados históricos | Ajuda a evitar estimativas baseadas apenas em otimismo |
| Gestão de riscos | Permite antecipar ameaças antes da execução |
| Governança | Define critérios de decisão, continuidade e cancelamento |
| Comunicação executiva | Traduz riscos e trade-offs para lideranças |
| Gestão de benefícios | Conecta entregas a resultados de negócio |
| Aprendizagem organizacional | Evita repetição de erros em projetos futuros |
A certificação também pode ser um diferencial, especialmente em ambientes que adotam padrões do PMI. No entanto, ela não substitui experiência de referência e capacidade de leitura organizacional.
O modelo do “herói do projeto” perdeu força porque resolver crises não significa necessariamente criar projetos melhores. Muitas crises são consequência de decisões mal tomadas antes da execução.
Quando a organização premia apenas quem apaga incêndios, ela pode reforçar o ciclo que produz atrasos, estouros de orçamento e desgaste das equipes.
A gestão moderna de projetos tende a valorizar outro perfil: o profissional que constrói sistemas de prevenção, cria transparência sobre riscos e fortalece a capacidade de entrega da organização.
Isso não elimina a importância da resposta a crises. Mas desloca o centro da profissão para uma pergunta mais relevante: como reduzir a chance de que a crise seja necessária?
A pesquisa de Flyvbjerg mostra que organizações precisam tratar grandes projetos como decisões estratégicas baseadas em evidências, não como apostas sustentadas por estimativas convenientes.
Isso exige mudanças práticas:
Para Trentim, essa mudança é central para a profissão. A gestão de projetos precisa sair da lógica de controle isolado e entrar na lógica de execução estratégica.

Acervo Pessoal
Mario H. Trentim é membro do Board of Directors do Project Management Institute (PMI) para o mandato 2025–2027, doutorando pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), autor de 13 livros e criador do Adapt OS.
Para mais conteúdos sobre gestão de projetos, o especialista mantém publicações no Substack Estratégia em Ação e em seu site oficial.


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