Negócios

Por que projetos falham? Flyvbjerg mostrou que menos de 1% entregam prazo, custo e benefícios

Mario H. Trentim analisa o que a pesquisa de Bent Flyvbjerg muda para gestores de projetos e para quem quer construir carreira na área.

Em resumo:

  • Bent Flyvbjerg e Dan Gardner analisaram mais de 16 mil projetos em 136 países.
  • Apenas 0,5% entregaram prazo, custo e benefícios completos ao mesmo tempo.
  • Projetos bem-sucedidos tendem a planejar melhor, modularizar entregas e usar experiência de referência.
  • Para gestores de projetos, o valor profissional passa menos pela crise e mais pela prevenção.
  • Formação, dados históricos e lições aprendidas estruturadas ganham peso na carreira, veja análise de Mario Trentim.

O número é difícil de assimilar na primeira leitura. Em um estudo com mais de 16.000 projetos em 136 países, Bent Flyvbjerg e Dan Gardner, autores de How Big Things Get Done (2023), identificaram que apenas 0,5% dos projetos entregam simultaneamente prazo, custo e benefícios completos.

Na prática, isso significa que o fracasso em projetos complexos não é exceção. Ele aparece como um padrão estatístico recorrente.

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Para Mario H. Trentim, Board Member do PMI Global (2025-2027) e pesquisador no ITA, o dado é relevante porque mostra que décadas de metodologias, certificações e frameworks ainda não resolveram o problema central da profissão: transformar intenção estratégica em entrega real.

Mario Trentim faz análise sobre o porquê de certos projetos falharem ao longo da gestão.

Acervo Pessoal

Por que tantos projetos falham?

Projetos falham quando estimativas, decisões e incentivos organizacionais empurram a iniciativa para a execução antes de haver clareza suficiente sobre escopo, riscos, prazo, custo e benefícios esperados.

A pesquisa de Bent Flyvbjerg mostra que a falha costuma surgir antes da obra, do sistema, do produto ou da transformação começar de fato. Ela nasce na fase de aprovação, quando custos são subestimados, prazos são comprimidos e benefícios são superestimados.

Segundo Trentim, o problema não é apenas falta de conhecimento técnico.

“O problema não é ausência de conhecimento. O problema é que o conhecimento existe fora da organização e o viés existe dentro dela. Toda organização que vai aprovar um projeto grande tem incentivos para subestimar custo e prazo — quem apresenta os números realistas frequentemente não consegue aprovação. Flyvbjerg chama isso de bluff estratégico. É racional para o indivíduo e destrutivo para o sistema.”

Esse comportamento se conecta à falácia do planejamento, conceito associado a Daniel Kahneman. Trata-se da tendência de subestimar tempo, custo e risco em projetos futuros, mesmo quando experiências anteriores mostram outro resultado.

+ Leia também: 99% dos grandes projetos falham: o que um gerente pode fazer a respeito?

O que a pesquisa de Flyvbjerg revela sobre projetos bem-sucedidos?

A pesquisa de Flyvbjerg não se limita a mostrar por que projetos falham. Ela também identifica o que aparece com frequência nos raros casos de sucesso.

Os projetos que entregam o que prometem tendem a reunir três características principais:

CaracterísticaO que significaImpacto na gestão de projetos
Pensar devagar, agir rápidoPlanejar com rigor antes de comprometer recursos relevantesReduz decisões apressadas e aumenta previsibilidade
ModularizaçãoDividir o projeto em partes replicáveisPermite aprendizado acumulado e menor exposição ao risco
Experiência de referênciaUsar histórico real de projetos similaresSubstitui otimismo institucional por dados comparáveis

Esses elementos ajudam a explicar por que alguns projetos conseguem escapar do padrão de atraso, estouro de orçamento e entrega parcial de benefícios.

O que significa “pensar devagar, agir rápido” em gestão de projetos?

“Pensar devagar, agir rápido” significa investir mais tempo na fase anterior ao início da execução. O objetivo é definir melhor o problema, testar hipóteses, revisar estimativas e comparar o projeto com experiências semelhantes.

Projetos que falham costumam comprimir o planejamento para iniciar logo a execução. Essa escolha cria a sensação de velocidade, mas aumenta a chance de retrabalho, mudanças de escopo e decisões emergenciais.

Em gestão de projetos, pensar devagar envolve:

  • definir critérios claros de sucesso;
  • validar estimativas de prazo e custo;
  • mapear riscos antes do comprometimento político;
  • comparar o projeto com casos semelhantes;
  • estabelecer critérios de continuidade, pausa ou cancelamento.

A execução rápida só funciona quando a preparação é robusta. Sem isso, a velocidade inicial pode apenas antecipar problemas.

Por que a modularização reduz o risco dos projetos?

A modularização reduz o risco porque transforma um projeto grande em partes menores, repetíveis e mensuráveis. Em vez de tratar cada iniciativa como totalmente única, a organização passa a construir componentes que podem ser testados, ajustados e replicados.

Essa lógica é comum em setores que acumulam aprendizado a cada ciclo. Quanto mais uma equipe repete um módulo, maior tende a ser sua capacidade de prever custo, prazo, qualidade e riscos.

Em projetos complexos, a modularização pode aparecer em:

  • entregas faseadas;
  • protótipos;
  • pilotos controlados;
  • padrões técnicos reutilizáveis;
  • ciclos curtos de validação;
  • componentes replicáveis em diferentes unidades ou regiões.

Para o gestor de projetos, isso muda a pergunta central. Em vez de perguntar apenas “como entregar esse projeto?”, passa a ser necessário perguntar “que partes desse projeto podem ser repetidas, aprendidas e melhoradas?”.

Como a experiência de referência ajuda a evitar estimativas irreais?

A experiência de referência ajuda porque desloca a análise da opinião interna para dados históricos. Em vez de estimar um projeto apenas com base no plano atual, a equipe observa como projetos semelhantes se comportaram no passado.

Flyvbjerg chama essa abordagem de outside view. A lógica é simples: antes de perguntar “como este projeto deve acontecer?”, a organização precisa perguntar “como projetos parecidos aconteceram?”.

Segundo Trentim, esse é um dos antídotos mais eficazes contra o otimismo institucional.

“A saída não é pessimismo. É o que Flyvbjerg chama de outside view: em vez de perguntar ‘como vai ser esse projeto?’, perguntar ‘como foram projetos similares a esse?’ O dado histórico é o antídoto mais eficaz contra o otimismo institucional.”

Essa prática é especialmente relevante em projetos de infraestrutura, tecnologia, transformação digital, expansão operacional e mudanças organizacionais.

O que muda para o gestor de projetos?

A principal mudança é a valorização da prevenção. O gestor de projetos deixa de ser visto apenas como o profissional que resolve crises e passa a ser avaliado pela capacidade de criar condições para que crises não se tornem inevitáveis.

Na cultura tradicional do “herói do projeto”, o profissional valorizado é aquele que salva entregas sob pressão extrema. A pesquisa de Flyvbjerg sugere outra leitura: o profissional mais estratégico é quem reduz a probabilidade de crise desde o início.

Isso inclui:

  • pressionar por planejamento mais rigoroso antes da aprovação;
  • usar dados históricos para validar estimativas;
  • documentar premissas e riscos de forma objetiva;
  • estruturar lições aprendidas para decisões futuras;
  • definir critérios de cancelamento desde o kick-off;
  • conectar prazo, custo e benefícios ao valor do negócio.

O mercado ainda reconhece profissionais que gerenciam crises. No entanto, organizações mais maduras tendem a valorizar quem melhora a qualidade da decisão antes da execução.

Leia também: Quanto ganha um gerente de projetos no Brasil em 2026?

Como as lições aprendidas influenciam o sucesso de projetos?

Lições aprendidas influenciam o sucesso quando deixam de ser apenas um registro final e passam a alimentar decisões reais em projetos posteriores.

O PMI Pulse of the Profession 2025 reforça a importância de competências de negócio, aprendizagem estruturada e maturidade organizacional para aumentar a entrega de valor. O ponto central é que aprendizado não ocorre automaticamente. Ele precisa ser registrado, analisado e usado.

Uma organização com boa gestão de lições aprendidas deve responder a perguntas como:

  • quais estimativas se mostraram equivocadas?
  • quais riscos se materializaram?
  • quais decisões atrasaram a execução?
  • quais premissas não se confirmaram?
  • que padrões devem ser repetidos?
  • que práticas devem ser abandonadas?

Sem esse processo, cada projeto recomeça do zero. Com ele, a organização constrói memória operacional.

Como a formação influencia a carreira em gestão de projetos?

A formação em gestão de projetos passa a ter mais valor quando desenvolve capacidade analítica, visão sistêmica e tomada de decisão baseada em evidências.

Para quem quer atuar na área, o domínio de cronogramas, indicadores e ferramentas continua importante. Mas a pesquisa de Flyvbjerg mostra que a profissão exige mais do que controle operacional.

O profissional precisa compreender:

  • estratégia organizacional;
  • gestão de riscos;
  • governança;
  • análise de benefícios;
  • orçamento;
  • portfólio de projetos;
  • comportamento organizacional;
  • tomada de decisão sob incerteza.

Cursos de Gestão de Projetos, Administração, Engenharia, Sistemas de Informação e MBA em Gestão de Projetos podem apoiar essa formação, dependendo do nível de carreira e do setor de atuação.

Quais competências ganham peso para quem quer trabalhar com projetos?

As competências mais importantes passam a combinar técnica, negócio e governança. O gestor de projetos precisa ser capaz de operar métodos, mas também de questionar premissas e proteger a organização contra decisões frágeis.

Entre as competências que ganham peso estão:

CompetênciaPor que é relevante
Análise de dados históricosAjuda a evitar estimativas baseadas apenas em otimismo
Gestão de riscosPermite antecipar ameaças antes da execução
GovernançaDefine critérios de decisão, continuidade e cancelamento
Comunicação executivaTraduz riscos e trade-offs para lideranças
Gestão de benefíciosConecta entregas a resultados de negócio
Aprendizagem organizacionalEvita repetição de erros em projetos futuros

A certificação também pode ser um diferencial, especialmente em ambientes que adotam padrões do PMI. No entanto, ela não substitui experiência de referência e capacidade de leitura organizacional.

+ PMP vale a pena em 2026? Os números que respondem

Por que o modelo do “herói do projeto” perdeu força?

O modelo do “herói do projeto” perdeu força porque resolver crises não significa necessariamente criar projetos melhores. Muitas crises são consequência de decisões mal tomadas antes da execução.

Quando a organização premia apenas quem apaga incêndios, ela pode reforçar o ciclo que produz atrasos, estouros de orçamento e desgaste das equipes.

A gestão moderna de projetos tende a valorizar outro perfil: o profissional que constrói sistemas de prevenção, cria transparência sobre riscos e fortalece a capacidade de entrega da organização.

Isso não elimina a importância da resposta a crises. Mas desloca o centro da profissão para uma pergunta mais relevante: como reduzir a chance de que a crise seja necessária?

O que a pesquisa de Flyvbjerg ensina para organizações?

A pesquisa de Flyvbjerg mostra que organizações precisam tratar grandes projetos como decisões estratégicas baseadas em evidências, não como apostas sustentadas por estimativas convenientes.

Isso exige mudanças práticas:

  • criar bases históricas de projetos anteriores;
  • comparar novas iniciativas com referências externas;
  • revisar estimativas antes da aprovação;
  • modularizar escopo sempre que possível;
  • estabelecer governança compatível com o risco;
  • permitir cancelamento de projetos inviáveis;
  • transformar lições aprendidas em critério de decisão.

Para Trentim, essa mudança é central para a profissão. A gestão de projetos precisa sair da lógica de controle isolado e entrar na lógica de execução estratégica.

+ Mário Trentim: como o especialista desenvolveu um framework para aproximar estratégia e execução nas organizações

Quem é Mario H. Trentim

Mario Trentim fala sobre projetos que falham.

Acervo Pessoal

Mario H. Trentim é membro do Board of Directors do Project Management Institute (PMI) para o mandato 2025–2027, doutorando pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), autor de 13 livros e criador do Adapt OS.

Para mais conteúdos sobre gestão de projetos, o especialista mantém publicações no Substack Estratégia em Ação e em seu site oficial.

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