No fim do ano de 2010 e começo de 2011, em pleno inverno no hemisfério Norte, acontecia a chamada Primavera Árabe: uma onda revolucionária de manifestações por melhores condições de vida e contra governos ditatoriais em diversos países do Norte da África e do Oriente Médio.
Manifestação com milhares de pessoas no Bahrein, em 2011 (Lewa’a Alnasr/Wikimedia Commons)
O nome Primavera Árabe faz referência à Primavera de Praga, um movimento político que ocorreu na Tchecoslováquia, em 1968, contra o regime autoritário e burocrático da União Soviética.
As manifestações da Primavera Árabe eclodiram na Tunísia, em 2010, quando o jovem tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo no próprio corpo em protesto à corrupção e repressão policial do país. Mohamed era vendedor de frutas e teve sua mercadoria confiscada pelas autoridades quando se recusou lhes pagar propina.
Charge em homagem a Mohamed Bouazizi, que se tornou um símbolo de resistência na Tunísia (Reprodução/Latuff)
A autoimolação de Bouazizi gerou revolta na população tunisiana, que tomou as ruas em protestos. Em poucos dias, o presidente Zine el-Abdine Ben Ali fugiu para a Arábia Saudita, encerrando seus mais de 20 anos de governo ditatorial.
Logo, os movimentos se espalham para outros países da região, como Egito, Iêmen, Líbia, Argélia, Jordânia, Síria, Bahrein, Djibuti, Iraque, Omã, Kuwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental.
Mapa da Primavera Árabe (Ian Remsen/Wikimedia Commons)
As causas da Primavera Árabe
A Primavera Árabe é considerada a primeira grande onda de protestos democráticos do mundo árabe no século XXI. De modo geral, a população de todos os países envolvidos protestavam contra os governos ditatoriais estabelecidos desde a década de 1970, no contexto da Guerra Fria.
Ainda vivendo as consequências da Crise Mundial de 2008, as populações árabes sofriam com altos índices de desemprego, péssimas condições de vida, injustiça política e social, repressão e corrupção dos governos.
Ciberativismo
Um elemento primordial para que as revoluções se espalhassem pelo tantos países foi a internet. Pelas redes sociais, os manifestantes – em sua maioria, jovens – criticavam o governo, se mobilizavam e organizavam atos, como protestos, comícios, passeatas e greves.
Mais de um milhão de egípcios na Praça Tahrir exigindo a remoção do regime e a renúncia de Mubarak, em 2011 (Jonathan Rashad/Wikimedia Commons)
Os revoltosos também se utilizaram das redes sociais para sensibilizar a população, atrair mais pessoas aos protestos e denunciar a opressão e censura dos governos à comunidade internacional.
Após sucesso das manifestações na Tunísia, o movimento em massa contra o governo tomou as ruas do Egito, onde o presidente Hosni Mubarak renunciou dias depois, após 30 anos de mandato.
Charge mostra Hosni Mubarak, ex-presidente do Egito, enfrentando o efeito dominó da revolução na Tunísia (Reprodução/Latuff)
Na Líbia, a revolta e violência dos rebeldes culminou no assassinato do presidente Muammar al-Gaddafi, que ficou 42 anos no poder. Além das renúncias e demissões, diante de toda instabilidade e manifestações populares na região, líderes de países como Iêmen, Iraque e Sudão, que estavam há décadas no poder, anunciaram que não tentariam reeleição.
Guerra Civil na Síria
Na Síria, a Primavera Árabe resultou numa guerra civil que perdura até hoje. Lá, o governo de Bashar al-Assad, cuja família está no poder desde a década de 1970, reagiu com violência às manifestações por mais liberdade política, massacrando a população revoltosa.
Cidade de Aleppo destruída por bombas durante Guerra Civil na Síria (Foto: Basma/Wikimedia Commons)
Para resistir à repressão, civis e militares desertores formaram exércitos rebeldes. Os conflitos se intensificam pela interferência e financiamento de países estrangeiros, com destaque para a Rússia e o Irã, a favor de Bashar al-Assad, e Estados Unidos, do lado dos rebeldes. A guerra se agravou ainda mais com o surgimento grupo terrorista Estado Islâmico.
Apesar da queda de diversos ditadores, os movimentos da Primavera Árabe resultaram em instabilidade política, crise econômica, violência, calamidade social e guerras civis no mundo árabe, num período denominado Inverno Árabe.
O Inverno Árabe, sobretudo devido à Guerra Civil da Síria e atuação do Estado Islâmico, já vitimou milhões de pessoas e levou outras milhões a buscaram asilo em países vizinhos, gerando a maior crise migratória pós-Segunda Guerra Mundial.
A resposta é: sim! O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) já abordou sobre a Primavera Árabe em 2011 e, para Lucas Paulino, professor de Geografia e fundador da iniciativa Geo nas Redes, o tema pode se repetir.
Questão sobre Primavera Árabe no Enem de 2011 (Reprodução/Inep)
“O principal enfoque utilizado pelo Enem para a Primavera Árabe é o acesso a internet e como ele possibilita novas formas de manifestação das identidades e necessidades políticas. Porém, isso não impede que o exame relacione o tema com o aumento de tensões na região, processos como a onda migratória de 2010, diversidade étnica, dentre outras abordagens”, explica o professor.
Para mandar bem no tema, a dica do professor Lucas é se atentar às causas estruturais e consequências políticas, econômicas e sociais desse processo: “As questões abordadas no Enem, geralmente, trabalham com relações de causa e consequência. Então, é importante prestar atenção em fenômenos como a morte de ditadores na região, a busca por democracia, as guerras internas e as intervenções e interesses estrangeiros no mundo árabe”.