
Medicina baseada em evidências: o que é e como orienta decisões clínicas
| 18/09/26Entenda o que é medicina baseada em evidências, seus quatro componentes, a hierarquia dos estudos e como avaliar pesquisas para apoiar decisões clínicas.
Em resumo:
Cuidar da saúde mental de crianças e adolescentes nem sempre é simples. Durante o Setembro Amarelo, essa atenção ganha ainda mais importância, mas precisa continuar presente durante todo o ano.
Entre mudanças de humor, pressões escolares, conflitos com amigos e o desejo crescente de privacidade, muitos responsáveis se perguntam quando um comportamento faz parte do desenvolvimento e quando ele merece mais atenção.
A saúde mental de crianças e adolescentes é construída diariamente por meio de vínculos seguros, diálogo, rotina equilibrada e acesso ao cuidado profissional quando necessário.
Neste guia, pais e responsáveis encontram orientações para acolher os filhos, reconhecer sinais de sofrimento emocional e saber onde buscar ajuda com segurança.
| Atenção: diante de risco imediato, a criança ou o adolescente não deve permanecer sozinho. A orientação é procurar uma UPA, um pronto-socorro ou hospital, ou acionar o SAMU pelo número 192. O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas por dia, como serviço de apoio emocional. |

O Setembro Amarelo coloca a prevenção ao suicídio e o cuidado com a saúde mental em evidência. Para quem convive com crianças e adolescentes, a campanha também pode ser um convite para observar a rotina com mais atenção e abrir espaço para conversas que nem sempre surgem espontaneamente.
Nem todo filho ou filha consegue dizer claramente que não está bem. O sofrimento pode aparecer como irritação, silêncio, queda nas notas, dificuldade para dormir, afastamento dos amigos ou recusa em participar de atividades antes prazerosas.
Nesse contexto, a família não precisa ter todas as respostas. O mais importante é demonstrar disponibilidade, ouvir sem julgamento e procurar apoio especializado quando necessário.
Como explica Marta Relvas1, doutora e mestre em Psicanálise, pedagoga e especialista em neurociências aplicadas à educação:
O amor, a escuta, a segurança emocional e o acolhimento não substituem tratamentos especializados quando necessários, porém constituem fatores de proteção fundamentais.
A fala ajuda a compreender que acolhimento e tratamento não são caminhos opostos. O vínculo familiar pode oferecer segurança para que a criança consiga falar sobre o que sente, enquanto psicólogos, psiquiatras, pediatras e outros profissionais avaliam suas necessidades.
Estar presente, portanto, não significa assumir sozinho a responsabilidade pelo tratamento. Significa perceber mudanças, levar o sofrimento a sério e acompanhar a criança ou o adolescente durante a busca por ajuda.
O sofrimento emocional não costuma ter uma causa única. Fatores individuais, familiares, escolares, sociais e ambientais podem se combinar de maneiras diferentes em cada pessoa.
Entre as situações que merecem atenção estão:
Durante a adolescência, mudanças corporais, necessidade de aceitação, construção da identidade e cobranças acadêmicas também podem intensificar as emoções.
As redes sociais merecem atenção especial. Elas podem aproximar pessoas e oferecer espaços de expressão, mas também favorecem comparações constantes, exposição a padrões inalcançáveis, cyberbullying e medo de exclusão.
Essas experiências podem aumentar a vulnerabilidade emocional, mas não determinam que uma criança desenvolverá um transtorno mental ou apresentará comportamento suicida.
Crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo recursos para compreender emoções, avaliar consequências e lidar com frustrações. Por isso, situações que parecem pequenas para um adulto podem ser vividas de maneira intensa.
Segundo Marta Relvas, o cérebro em desenvolvimento da criança e do adolescente apresenta grande capacidade de adaptação, mas também pode ser especialmente sensível a experiências adversas:
Situações de negligência emocional, violência, perdas, bullying, abuso, conflitos familiares persistentes, isolamento social e exposição prolongada ao estresse podem alterar circuitos neurais relacionados à regulação das emoções, ao processamento do medo, à tomada de decisões e ao controle dos impulsos.
Isso não significa que uma experiência difícil determinará o futuro de um jovem. A própria especialista ressalta que essas situações aumentam a vulnerabilidade, mas não definem, isoladamente, o desenvolvimento de um transtorno mental ou comportamento suicida.
A mensagem para os responsáveis é de atenção, não de culpa. Quanto mais cedo o sofrimento for identificado, acolhido e avaliado, maiores serão as possibilidades de construir uma rede de proteção adequada.
Nem toda mudança de humor indica um problema de saúde mental. O contexto, a duração, a intensidade e a combinação dos sinais precisam ser considerados.
Veja o que pode ser observado:
| Sinal observado | Como pode aparecer na rotina | Como a família pode agir |
| Isolamento | Afastamento de familiares, amigos ou atividades | Aproximar-se com calma e perguntar como a criança está |
| Perda de interesse | Abandono de brincadeiras, esportes ou hobbies | Observar outras mudanças e oferecer companhia |
| Tristeza ou irritabilidade | Choro, impaciência ou explosões frequentes | Evitar punições imediatas e tentar compreender o contexto |
| Alterações no sono ou apetite | Insônia, sono excessivo ou mudança importante na alimentação | Registrar a frequência e procurar orientação profissional |
| Dificuldade escolar | Queda de rendimento, faltas ou recusa em ir à escola | Conversar com o estudante e com a equipe pedagógica |
| Desesperança | Falas de inutilidade, culpa ou falta de perspectiva | Levar a fala a sério e buscar avaliação |
| Autolesão ou fala sobre morte | Ferimentos intencionais, despedidas ou comentários recorrentes | Manter a pessoa acompanhada e procurar ajuda imediatamente |
Também merecem atenção:
Um sinal isolado não permite concluir que existe uma crise. A preocupação aumenta quando vários comportamentos aparecem juntos, persistem ou interferem na vida escolar, familiar e social.
Esses sinais também não devem ser usados para fazer um diagnóstico em casa. Eles indicam que a criança ou o adolescente precisa ser ouvido e, conforme o caso, avaliado por um profissional qualificado.
Frases como “minha vida não faz sentido”, “vocês seriam mais felizes sem mim” ou “queria dormir e não acordar” nunca devem ser tratadas como brincadeira, exagero ou tentativa de manipulação.
Marta Relvas reforça:
Toda comunicação relacionada à morte merece acolhimento e avaliação.
Na prática, acolher significa manter a calma, escutar até o fim e evitar broncas ou reações de choque. O responsável pode perguntar diretamente como o jovem está se sentindo e se existe intenção de se machucar.
Avaliar significa buscar ajuda profissional. Falar sobre morte ou suicídio pode expressar um nível profundo de sofrimento, mesmo quando a criança ou o adolescente não apresenta um plano definido.
Caso exista risco imediato, a prioridade é garantir segurança. O jovem deve permanecer acompanhado, sem acesso a medicamentos, armas ou outros meios de ferimento, enquanto a família busca atendimento de urgência.
A conversa pode começar de forma simples e direta. Em vez de pressionar ou fazer um interrogatório, o responsável pode mencionar uma mudança concreta que observou.

Algumas perguntas possíveis são:
Durante a conversa, é importante deixar o celular de lado, respeitar pausas e ouvir até o fim. Nem sempre a criança conseguirá organizar os sentimentos ou explicar imediatamente o que está acontecendo.
Frases como “isso é fase”, “todo mundo passa por isso”, “você tem tudo” ou “é preciso ser forte” podem fazer com que o jovem se sinta incompreendido.
Uma resposta mais acolhedora seria: “Talvez nossa família ainda não entenda tudo o que está acontecendo, mas o que você está sentindo importa e vamos buscar ajuda”.
Acolher uma emoção não significa concordar com todas as atitudes. Significa reconhecer que o sofrimento existe e demonstrar que a criança ou o adolescente não precisará enfrentá-lo sozinho.
Caso surjam falas sobre morte ou suicídio, a família pode perguntar claramente se o jovem pensa em se machucar. O Ministério da Saúde orienta conversar em um lugar calmo, ouvir com abertura e incentivar a procura por atendimento.
O cuidado não depende de uma conversa única. Ele aparece na rotina, na qualidade dos vínculos e na maneira como a família reage às dificuldades. Veja algumas dicas para cuidar da saúde mental do seu filho ou filha:
Horários razoavelmente regulares para dormir, estudar, descansar e fazer refeições ajudam a organizar o cotidiano. A rotina não deve ser rígida a ponto de se transformar em mais uma fonte de cobrança.
Refeições em família, passeios e atividades compartilhadas podem abrir espaço para conversas espontâneas. A presença frequente tende a facilitar o diálogo quando um problema surge.
O acompanhamento deve considerar a idade e respeitar a privacidade progressiva. Responsáveis precisam conhecer as redes utilizadas e conversar sobre comparações, exposição, cyberbullying e segurança digital.
Notas e resultados escolares não definem o valor de uma criança. Quando o desempenho cai, a primeira pergunta deve ser o que está acontecendo, e não qual punição será aplicada.
Convivência com amigos, movimento corporal, brincadeiras, arte, música e descanso podem favorecer o bem-estar. Essas práticas ajudam na rotina, mas não substituem tratamento quando há sofrimento intenso.
A maneira como os responsáveis lidam com frustrações, conflitos e pedidos de ajuda também ensina. Buscar apoio para si pode melhorar o ambiente familiar e diminuir a sobrecarga de quem cuida.
A escola não deve diagnosticar transtornos, mas pode observar mudanças, acolher o estudante e participar da rede de proteção.
Professores e coordenadores convivem com o aluno em situações diferentes das observadas em casa. Por isso, podem perceber isolamento, conflitos entre colegas, faltas frequentes, queda de rendimento ou alterações de comportamento.
A atuação conjunta pode incluir:
Informações sobre saúde mental devem ser tratadas com discrição. O sofrimento de um aluno não pode se transformar em assunto público na turma ou na comunidade escolar.
A escola também precisa evitar ações superficiais ou inadequadas durante o Setembro Amarelo. Atividades devem ser planejadas por profissionais preparados, com linguagem compatível com a faixa etária e orientação clara sobre onde buscar ajuda.
Para aprofundar o assunto, as famílias podem consultar os conteúdos sobre cyberbullying na escola e sobre como escolher uma escola para adolescentes.
A avaliação profissional é recomendada quando as mudanças persistem, ficam mais intensas ou prejudicam os estudos, o sono, a alimentação, os vínculos e outras atividades cotidianas.
A busca deve ser imediata diante de:
Nessas situações, o responsável deve permanecer ao lado da criança ou do adolescente, restringir o acesso a meios de ferimento e procurar atendimento de urgência.
Em situações sem risco imediato, a rede de cuidado pode começar por pediatra, psicólogo, psiquiatra da infância e adolescência ou Unidade Básica de Saúde.
O tratamento é individualizado. Dependendo da avaliação, pode incluir psicoterapia, acompanhamento médico, terapia familiar, orientações para a escola e mudanças na rotina.
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diferentes portas de entrada:
Os CAPS trabalham em regime de porta aberta para o primeiro acolhimento. Para localizar a unidade mais próxima, a família pode procurar a Secretaria Municipal de Saúde ou uma UBS, conforme orientação do Ministério da Saúde.
Adolescentes e jovens de 13 a 24 anos também podem acessar o Pode Falar, canal gratuito e anônimo apoiado pelo UNICEF. A iniciativa oferece escuta e orientação sobre saúde mental, mas não substitui os serviços de emergência.
O sofrimento emocional não precisa ser enfrentado como um destino permanente. Vínculos seguros, tratamento apropriado, apoio escolar e intervenções precoces podem ajudar crianças e adolescentes a desenvolver novas formas de lidar com emoções e desafios.

Marta Relvas chama atenção para essa capacidade de adaptação:
A boa notícia da Neurociência é que o cérebro possui extraordinária capacidade de adaptação.
Isso não significa que o jovem precisa superar o problema sozinho ou apenas “pensar positivo”. A recuperação pode envolver psicoterapia, avaliação médica, participação da família, adaptações na rotina e diálogo com a escola.
A especialista acrescenta:
Relações afetivas consistentes, psicoterapia baseada em evidências, tratamento adequado dos transtornos mentais quando presentes, apoio familiar, escola acolhedora e intervenções precoces favorecem a reorganização funcional de circuitos cerebrais envolvidos na regulação emocional.
A fala reforça que o cuidado deve funcionar como uma rede. Família, escola e profissionais de saúde desempenham papéis diferentes, mas complementares, na proteção e no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.
¹ Autora dos livros Neurociência e transtornos de aprendizagem e Fundamentos Biológicos da Educação, Marta Relvas é membro efetiva da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento e especialista em diversas áreas da Educação e Neurociência.
O cuidado com a saúde mental de crianças e adolescentes também passa pelo ambiente onde elas estudam. Uma escola acolhedora deve combater o bullying, manter diálogo com as famílias e saber agir diante de mudanças emocionais ou comportamentais.
Durante a escolha de uma escola, os responsáveis podem perguntar como a instituição conduz conflitos, quais canais de escuta oferece, como comunica situações sensíveis e quais medidas adota para equilibrar aprendizagem, convivência e bem-estar.
A existência de projetos socioemocionais pode ser positiva, mas não deve ser o único critério. É importante observar como a escola atua no cotidiano, como acolhe diferenças e se possui procedimentos claros para situações de violência ou sofrimento emocional.
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