Mudanças intensas, combinadas ou persistentes no comportamento merecem atenção;
Escutar sem críticas fortalece o vínculo, mas não substitui avaliação profissional;
Falas sobre morte, autolesão ou desesperança devem ser levadas a sério.
Cuidar da saúde mental de crianças e adolescentes nem sempre é simples. Durante o Setembro Amarelo, essa atenção ganha ainda mais importância, mas precisa continuar presente durante todo o ano.
Entre mudanças de humor, pressões escolares, conflitos com amigos e o desejo crescente de privacidade, muitos responsáveis se perguntam quando um comportamento faz parte do desenvolvimento e quando ele merece mais atenção.
A saúde mental de crianças e adolescentes é construída diariamente por meio de vínculos seguros, diálogo, rotina equilibrada e acesso ao cuidado profissional quando necessário.
Neste guia, pais e responsáveis encontram orientações para acolher os filhos, reconhecer sinais de sofrimento emocional e saber onde buscar ajuda com segurança.
Atenção: diante de risco imediato, a criança ou o adolescente não deve permanecer sozinho. A orientação é procurar uma UPA, um pronto-socorro ou hospital, ou acionar o SAMU pelo número 192. O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas por dia, como serviço de apoio emocional.
Imagem criada com auxílio de Inteligência Artificial para fins editoriais.
O que o Setembro Amarelo representa para crianças e adolescentes?
O Setembro Amarelo coloca a prevenção ao suicídio e o cuidado com a saúde mental em evidência. Para quem convive com crianças e adolescentes, a campanha também pode ser um convite para observar a rotina com mais atenção e abrir espaço para conversas que nem sempre surgem espontaneamente.
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Nem todo filho ou filha consegue dizer claramente que não está bem. O sofrimento pode aparecer como irritação, silêncio, queda nas notas, dificuldade para dormir, afastamento dos amigos ou recusa em participar de atividades antes prazerosas.
Nesse contexto, a família não precisa ter todas as respostas. O mais importante é demonstrar disponibilidade, ouvir sem julgamento e procurar apoio especializado quando necessário.
Como explica Marta Relvas1, doutora e mestre em Psicanálise, pedagoga e especialista em neurociências aplicadas à educação:
O amor, a escuta, a segurança emocional e o acolhimento não substituem tratamentos especializados quando necessários, porém constituem fatores de proteção fundamentais.
A fala ajuda a compreender que acolhimento e tratamento não são caminhos opostos. O vínculo familiar pode oferecer segurança para que a criança consiga falar sobre o que sente, enquanto psicólogos, psiquiatras, pediatras e outros profissionais avaliam suas necessidades.
Estar presente, portanto, não significa assumir sozinho a responsabilidade pelo tratamento. Significa perceber mudanças, levar o sofrimento a sério e acompanhar a criança ou o adolescente durante a busca por ajuda.
O que pode afetar a saúde mental de crianças e adolescentes?
O sofrimento emocional não costuma ter uma causa única. Fatores individuais, familiares, escolares, sociais e ambientais podem se combinar de maneiras diferentes em cada pessoa.
transtornos mentais que precisam de acompanhamento.
Durante a adolescência, mudanças corporais, necessidade de aceitação, construção da identidade e cobranças acadêmicas também podem intensificar as emoções.
As redes sociais merecem atenção especial. Elas podem aproximar pessoas e oferecer espaços de expressão, mas também favorecem comparações constantes, exposição a padrões inalcançáveis, cyberbullying e medo de exclusão.
Essas experiências podem aumentar a vulnerabilidade emocional, mas não determinam que uma criança desenvolverá um transtorno mental ou apresentará comportamento suicida.
Por que o sofrimento emocional não deve ser minimizado?
Crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo recursos para compreender emoções, avaliar consequências e lidar com frustrações. Por isso, situações que parecem pequenas para um adulto podem ser vividas de maneira intensa.
Segundo Marta Relvas, o cérebro em desenvolvimento da criança e do adolescente apresenta grande capacidade de adaptação, mas também pode ser especialmente sensível a experiências adversas:
Situações de negligência emocional, violência, perdas, bullying, abuso, conflitos familiares persistentes, isolamento social e exposição prolongada ao estresse podem alterar circuitos neurais relacionados à regulação das emoções, ao processamento do medo, à tomada de decisões e ao controle dos impulsos.
Isso não significa que uma experiência difícil determinará o futuro de um jovem. A própria especialista ressalta que essas situações aumentam a vulnerabilidade, mas não definem, isoladamente, o desenvolvimento de um transtorno mental ou comportamento suicida.
A mensagem para os responsáveis é de atenção, não de culpa. Quanto mais cedo o sofrimento for identificado, acolhido e avaliado, maiores serão as possibilidades de construir uma rede de proteção adequada.
Quais sinais de sofrimento emocional merecem atenção?
Nem toda mudança de humor indica um problema de saúde mental. O contexto, a duração, a intensidade e a combinação dos sinais precisam ser considerados.
Veja o que pode ser observado:
Sinal observado
Como pode aparecer na rotina
Como a família pode agir
Isolamento
Afastamento de familiares, amigos ou atividades
Aproximar-se com calma e perguntar como a criança está
Perda de interesse
Abandono de brincadeiras, esportes ou hobbies
Observar outras mudanças e oferecer companhia
Tristeza ou irritabilidade
Choro, impaciência ou explosões frequentes
Evitar punições imediatas e tentar compreender o contexto
Alterações no sono ou apetite
Insônia, sono excessivo ou mudança importante na alimentação
Registrar a frequência e procurar orientação profissional
Dificuldade escolar
Queda de rendimento, faltas ou recusa em ir à escola
Conversar com o estudante e com a equipe pedagógica
Desesperança
Falas de inutilidade, culpa ou falta de perspectiva
Levar a fala a sério e buscar avaliação
Autolesão ou fala sobre morte
Ferimentos intencionais, despedidas ou comentários recorrentes
Manter a pessoa acompanhada e procurar ajuda imediatamente
Também merecem atenção:
abandono repentino de amizades;
medo intenso de frequentar a escola;
queixas físicas frequentes sem causa identificada;
aumento do consumo de álcool ou outras drogas;
pesquisas recorrentes sobre morte;
doação incomum de objetos importantes;
falas de culpa, inutilidade ou falta de esperança.
Um sinal isolado não permite concluir que existe uma crise. A preocupação aumenta quando vários comportamentos aparecem juntos, persistem ou interferem na vida escolar, familiar e social.
Esses sinais também não devem ser usados para fazer um diagnóstico em casa. Eles indicam que a criança ou o adolescente precisa ser ouvido e, conforme o caso, avaliado por um profissional qualificado.
Por que falas sobre morte precisam ser levadas a sério?
Frases como “minha vida não faz sentido”, “vocês seriam mais felizes sem mim” ou “queria dormir e não acordar” nunca devem ser tratadas como brincadeira, exagero ou tentativa de manipulação.
Marta Relvas reforça:
Toda comunicação relacionada à morte merece acolhimento e avaliação.
Na prática, acolher significa manter a calma, escutar até o fim e evitar broncas ou reações de choque. O responsável pode perguntar diretamente como o jovem está se sentindo e se existe intenção de se machucar.
Avaliar significa buscar ajuda profissional. Falar sobre morte ou suicídio pode expressar um nível profundo de sofrimento, mesmo quando a criança ou o adolescente não apresenta um plano definido.
Caso exista risco imediato, a prioridade é garantir segurança. O jovem deve permanecer acompanhado, sem acesso a medicamentos, armas ou outros meios de ferimento, enquanto a família busca atendimento de urgência.
Como conversar com uma criança ou adolescente em sofrimento?
A conversa pode começar de forma simples e direta. Em vez de pressionar ou fazer um interrogatório, o responsável pode mencionar uma mudança concreta que observou.
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Algumas perguntas possíveis são:
“Percebi que você está mais quieto nos últimos dias. Aconteceu alguma coisa?”
“Como você tem se sentido na escola?”
“O que tem sido mais difícil ultimamente?”
“Existe alguma coisa deixando você com medo ou sem esperança?”
“Como podemos te ajudar agora?”
Durante a conversa, é importante deixar o celular de lado, respeitar pausas e ouvir até o fim. Nem sempre a criança conseguirá organizar os sentimentos ou explicar imediatamente o que está acontecendo.
Frases como “isso é fase”, “todo mundo passa por isso”, “você tem tudo” ou “é preciso ser forte” podem fazer com que o jovem se sinta incompreendido.
Uma resposta mais acolhedora seria: “Talvez nossa família ainda não entenda tudo o que está acontecendo, mas o que você está sentindo importa e vamos buscar ajuda”.
Acolher uma emoção não significa concordar com todas as atitudes. Significa reconhecer que o sofrimento existe e demonstrar que a criança ou o adolescente não precisará enfrentá-lo sozinho.
Caso surjam falas sobre morte ou suicídio, a família pode perguntar claramente se o jovem pensa em se machucar. O Ministério da Saúde orienta conversar em um lugar calmo, ouvir com abertura e incentivar a procura por atendimento.
Como cuidar da saúde mental dos filhos no dia a dia?
O cuidado não depende de uma conversa única. Ele aparece na rotina, na qualidade dos vínculos e na maneira como a família reage às dificuldades. Veja algumas dicas para cuidar da saúde mental do seu filho ou filha:
1 – Manter uma rotina possível
Horários razoavelmente regulares para dormir, estudar, descansar e fazer refeições ajudam a organizar o cotidiano. A rotina não deve ser rígida a ponto de se transformar em mais uma fonte de cobrança.
2 – Criar momentos de convivência
Refeições em família, passeios e atividades compartilhadas podem abrir espaço para conversas espontâneas. A presença frequente tende a facilitar o diálogo quando um problema surge.
3 – Acompanhar a vida digital
O acompanhamento deve considerar a idade e respeitar a privacidade progressiva. Responsáveis precisam conhecer as redes utilizadas e conversar sobre comparações, exposição, cyberbullying e segurança digital.
4 – Evitar cobranças desproporcionais
Notas e resultados escolares não definem o valor de uma criança. Quando o desempenho cai, a primeira pergunta deve ser o que está acontecendo, e não qual punição será aplicada.
5 – Incentivar vínculos e atividades prazerosas
Convivência com amigos, movimento corporal, brincadeiras, arte, música e descanso podem favorecer o bem-estar. Essas práticas ajudam na rotina, mas não substituem tratamento quando há sofrimento intenso.
6 – Cuidar da saúde mental dos adultos
A maneira como os responsáveis lidam com frustrações, conflitos e pedidos de ajuda também ensina. Buscar apoio para si pode melhorar o ambiente familiar e diminuir a sobrecarga de quem cuida.
Qual é o papel da escola na saúde mental dos estudantes?
A escola não deve diagnosticar transtornos, mas pode observar mudanças, acolher o estudante e participar da rede de proteção.
Professores e coordenadores convivem com o aluno em situações diferentes das observadas em casa. Por isso, podem perceber isolamento, conflitos entre colegas, faltas frequentes, queda de rendimento ou alterações de comportamento.
Informações sobre saúde mental devem ser tratadas com discrição. O sofrimento de um aluno não pode se transformar em assunto público na turma ou na comunidade escolar.
A escola também precisa evitar ações superficiais ou inadequadas durante o Setembro Amarelo. Atividades devem ser planejadas por profissionais preparados, com linguagem compatível com a faixa etária e orientação clara sobre onde buscar ajuda.
A avaliação profissional é recomendada quando as mudanças persistem, ficam mais intensas ou prejudicam os estudos, o sono, a alimentação, os vínculos e outras atividades cotidianas.
A busca deve ser imediata diante de:
autolesão;
tentativa de suicídio;
fala sobre planos de morrer;
despedidas incomuns;
agitação ou desespero intenso;
incapacidade de garantir a própria segurança.
Nessas situações, o responsável deve permanecer ao lado da criança ou do adolescente, restringir o acesso a meios de ferimento e procurar atendimento de urgência.
Em situações sem risco imediato, a rede de cuidado pode começar por pediatra, psicólogo, psiquiatra da infância e adolescência ou Unidade Básica de Saúde.
O tratamento é individualizado. Dependendo da avaliação, pode incluir psicoterapia, acompanhamento médico, terapia familiar, orientações para a escola e mudanças na rotina.
Onde encontrar atendimento gratuito em saúde mental?
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diferentes portas de entrada:
UBS ou unidade de Saúde da Família: primeiro acolhimento e encaminhamento;
CAPS e CAPSi: cuidado especializado, sendo o CAPSi voltado ao público infantojuvenil;
UPA, pronto-socorro ou hospital: atendimento de urgência;
SAMU 192: emergências, inclusive psiquiátricas;
CVV 188: apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia.
Os CAPS trabalham em regime de porta aberta para o primeiro acolhimento. Para localizar a unidade mais próxima, a família pode procurar a Secretaria Municipal de Saúde ou uma UBS, conforme orientação do Ministério da Saúde.
Adolescentes e jovens de 13 a 24 anos também podem acessar o Pode Falar, canal gratuito e anônimo apoiado pelo UNICEF. A iniciativa oferece escuta e orientação sobre saúde mental, mas não substitui os serviços de emergência.
Como o acolhimento pode favorecer a recuperação?
O sofrimento emocional não precisa ser enfrentado como um destino permanente. Vínculos seguros, tratamento apropriado, apoio escolar e intervenções precoces podem ajudar crianças e adolescentes a desenvolver novas formas de lidar com emoções e desafios.
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Marta Relvas chama atenção para essa capacidade de adaptação:
A boa notícia da Neurociência é que o cérebro possui extraordinária capacidade de adaptação.
Isso não significa que o jovem precisa superar o problema sozinho ou apenas “pensar positivo”. A recuperação pode envolver psicoterapia, avaliação médica, participação da família, adaptações na rotina e diálogo com a escola.
A especialista acrescenta:
Relações afetivas consistentes, psicoterapia baseada em evidências, tratamento adequado dos transtornos mentais quando presentes, apoio familiar, escola acolhedora e intervenções precoces favorecem a reorganização funcional de circuitos cerebrais envolvidos na regulação emocional.
A fala reforça que o cuidado deve funcionar como uma rede. Família, escola e profissionais de saúde desempenham papéis diferentes, mas complementares, na proteção e no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.
¹ Autora dos livrosNeurociência e transtornos de aprendizagem e Fundamentos Biológicos da Educação, Marta Relvas é membro efetiva da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento e especialista em diversas áreas da Educação e Neurociência.
Como escolher uma escola que também valorize o bem-estar dos alunos?
O cuidado com a saúde mental de crianças e adolescentes também passa pelo ambiente onde elas estudam. Uma escola acolhedora deve combater o bullying, manter diálogo com as famílias e saber agir diante de mudanças emocionais ou comportamentais.
Durante a escolha de uma escola, os responsáveis podem perguntar como a instituição conduz conflitos, quais canais de escuta oferece, como comunica situações sensíveis e quais medidas adota para equilibrar aprendizagem, convivência e bem-estar.
A existência de projetos socioemocionais pode ser positiva, mas não deve ser o único critério. É importante observar como a escola atua no cotidiano, como acolhe diferenças e se possui procedimentos claros para situações de violência ou sofrimento emocional.
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