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Mário Trentim: como criar um PMO em uma empresa em 90 dias

Como criar um PMO em uma empresa em 90 dias? Veja as etapas de diagnóstico, implantação, primeiros projetos, gestão de mudanças e expansão.



Em resumo:

  • O PMO precisa gerar valor antes de ampliar processos e controles.
  • Os primeiros 90 dias devem combinar diagnóstico, projetos-piloto, apoio do sponsor e gestão de stakeholders.
  • A continuidade do PMO depende de resultados mensuráveis, adaptação e revisão periódica de valor.

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Mario H. Trentim apresenta palestra sobre PMO diante de um slide durante evento de gestão de projetos.
Mario H. Trentim explica como o PMO evoluiu de uma função operacional para um papel estratégico na gestão de portfólio das empresas.

Criar um PMO em uma empresa não começa com templates, ferramentas ou manuais de processos. Começa pela compreensão do ambiente em que o escritório de projetos vai atuar.

O PMO que permanece depois de dois anos não é necessariamente o que começou com mais processos. É aquele que conseguiu entregar resultado, construir legitimidade e estabelecer relações antes de ampliar sua atuação.

Trabalhei mais de dez anos implantando e assessorando escritórios de projetos em organizações públicas e privadas. Vi PMOs com estruturas completas serem encerrados em oito meses.

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Também vi escritórios com poucos processos permanecerem por anos porque conseguiram gerar valor e construir alianças antes de aumentar a complexidade.

O maior erro de quem cria um PMO é tentar controlar antes de gerar valor.

Este artigo mostra como criar um PMO em uma empresa em 90 dias, do diagnóstico inicial à operação do escritório.

A abordagem parte de experiências de implantação e dos problemas que aparecem quando processos são colocados à frente das pessoas e dos resultados.

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Como criar um PMO em uma empresa: visão geral dos 90 dias

Para quem precisa de uma resposta direta, o processo pode ser dividido em três etapas:

  • Dias 1 a 30: diagnóstico, definição do modelo, mapeamento de stakeholders e aprovação do charter.
  • Dias 31 a 60: implantação de templates, projetos-piloto e primeiro relatório de portfólio.
  • Dias 61 a 90: expansão, treinamento e definição do plano de maturidade.

A sequência é importante: credibilidade antes de cobertura, aliados antes de processos e resultado visível antes de complexidade.

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Por que PMOs fracassam?

Antes de falar sobre fases, templates e relatórios, é preciso considerar um aspecto que muitas abordagens sobre implantação de PMO deixam em segundo plano: a dimensão política.

Já acompanhei escritórios de projetos com metodologias, treinamentos e ferramentas que foram encerrados em menos de dois anos.

Em alguns casos, o PMO criou transparência em ambientes que não estavam preparados para ela. Em outros, alterou relações de poder entre gestores. Também houve situações em que o sponsor deixou a organização ou deixou de apoiar o escritório.

O problema, nesses casos, não estava necessariamente na metodologia.

O PMO altera a forma como informações circulam, como projetos são acompanhados e como decisões são tomadas. Por isso, sua implantação produz beneficiados e prejudicados.

Entre os beneficiados estão gestores que passam a ter mais visibilidade sobre seus projetos, acesso a informações de portfólio e apoio metodológico.

Entre os prejudicados estão aqueles que dependiam da ausência de processos para preservar autonomia, esconder atrasos ou manter controle sobre informações.

Ignorar esse segundo grupo é um erro.

A resistência provavelmente aparecerá em frases como:

  • “O PMO cria burocracia.”
  • “Isso não funciona aqui.”
  • “Estamos perdendo agilidade.”
  • “Esse processo não faz sentido para o nosso projeto.”

A resistência precisa ser administrada antes que se transforme em oposição organizada.

Por isso, gestão de mudanças não é uma etapa adicional da implantação. Ela faz parte do trabalho de criar um PMO.

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Fase 1: dias 1 a 30

Semanas 1 e 2: entenda a organização antes de propor mudanças

A primeira coisa que faço quando chego a uma organização para estruturar um escritório de projetos não é desenhar o modelo.

É entrevistar.

Começo pelo sponsor, ou seja, pela pessoa que pediu o PMO e pode dar sustentação à sua implantação.

A primeira pergunta é simples:

Por que a organização quer um PMO?

A resposta revela o mandato real do escritório.

Se o sponsor quer controle de custos, o PMO precisa trabalhar com visibilidade financeira. Se o objetivo é acelerar entregas, as prioridades serão diferentes.

Se a dificuldade está na gestão do portfólio, o escritório precisa começar pela consolidação das informações.

Sem um mandato claro, o PMO pode acabar tentando resolver todos os problemas ao mesmo tempo.

Depois, faço entrevistas com cinco a dez stakeholders-chave, entre diretores, gerentes de projetos e outras pessoas envolvidas diretamente na execução.

Incluo pelo menos uma pessoa que não tenha pedido a criação do PMO.

Essa conversa ajuda a identificar possíveis pontos de resistência antes que eles apareçam nas reuniões de implantação.

Também faço o inventário dos projetos ativos:

  • Quantos projetos existem?
  • Quem gerencia cada projeto?
  • Em que estágio estão?
  • Quais informações estão disponíveis?
  • Quais informações não estão disponíveis?
  • Como os projetos são acompanhados atualmente?

Nesta etapa, também pode ser aplicado um modelo de diagnóstico de maturidade, como o OPM3, o P3M3 ou um questionário desenvolvido para a organização.

O objetivo não é produzir um relatório extenso.

O objetivo é descobrir em que nível a organização realmente está.

Mapeie quem ganha e quem perde com o PMO

Existe outro ponto que considero necessário nesta fase: entender quem ganha e quem perde com a criação do escritório.

Os beneficiados podem se tornar aliados.

Os prejudicados podem representar resistência.

Essa informação precisa estar disponível antes da implantação dos processos. O PMO não deve descobrir seus principais opositores apenas quando apresentar o primeiro procedimento.

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Semanas 3 e 4: defina o modelo do PMO

Depois do diagnóstico, chega o momento de definir qual modelo de PMO faz sentido para aquela organização.

O PMI classifica os escritórios de projetos em três tipos principais:

  • PMO de suporte: oferece metodologia, orientação e apoio, sem exercer autoridade direta sobre os projetos.
  • PMO de controle: acompanha a aplicação dos padrões e verifica a conformidade.
  • PMO diretivo: assume a gestão direta dos projetos.

A escolha precisa considerar a maturidade da organização, o mandato recebido e o nível de autoridade disponível.

Uma organização com baixa maturidade em gestão de projetos e resistência ao controle centralizado pode não estar preparada para um PMO diretivo.

O modelo precisa ser compatível com o contexto.

Comece com poucos processos

Também defino os primeiros templates que serão utilizados.

Não tento padronizar tudo.

Começo com dois ou três documentos que possam resolver problemas de informação existentes na organização, como:

  • status report;
  • kick-off;
  • log de riscos.

Esses documentos podem criar uma base de acompanhamento sem transformar o início da implantação em um projeto de documentação.

Crie o charter do PMO

O principal entregável dessa primeira fase é o charter do PMO.

O documento pode ter uma ou duas páginas e deve apresentar:

  • mandato do PMO;
  • modelo escolhido;
  • escopo inicial;
  • métricas de sucesso;
  • principais stakeholders;
  • responsabilidades iniciais.

O charter precisa ser aprovado pelo sponsor.

Sem essa aprovação, o PMO fica exposto quando surgirem os primeiros conflitos. O gestor do escritório precisa ter clareza sobre o mandato recebido e sobre o apoio da liderança.

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Fase 2: dias 31 a 60

Semanas 5 e 6: comece com projetos-piloto

Nesta etapa, distribuo os primeiros templates e seleciono os projetos-piloto.

A lógica de seleção pode parecer contraintuitiva: não começo necessariamente pelos projetos mais críticos nem pelos gerentes mais experientes.

Começo pelos profissionais que já demonstram disposição para utilizar o processo.

São os early adopters.

Essa escolha permite testar os processos em um ambiente com maior possibilidade de adoção.

O objetivo é produzir casos reais.

Quando o piloto funciona, o PMO passa a ter uma referência concreta para apresentar aos demais gerentes.

A frase “o PMO cria burocracia” perde força quando existem projetos mostrando como os processos ajudaram na identificação de riscos, na organização das informações ou no acompanhamento das entregas.

Começar pelos resistentes pode criar o primeiro caso negativo antes de o PMO ter construído sua base de credibilidade.

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Semanas 7 e 8: apresente o primeiro relatório de portfólio

A primeira reunião de portfólio é um momento importante da implantação.

É quando sponsor e lideranças podem ter uma visão consolidada dos projetos, incluindo:

  • status;
  • riscos;
  • recursos;
  • principais problemas;
  • necessidade de decisões.

Em muitas organizações, essa visão consolidada não existia.

Isso gera valor, mas também pode gerar desconforto.

Quando o PMO torna visível aquilo que antes não era acompanhado, problemas passam a aparecer para mais pessoas.

É nesse momento que a resistência pode aumentar.

A resposta precisa estar nos dados.

Os resultados dos projetos-piloto ajudam a mostrar o que mudou depois da implantação dos primeiros processos.

O primeiro relatório executivo

O primeiro relatório para o sponsor deve ser curto.

Uma página pode ser suficiente.

O documento pode mostrar:

  • quantos projetos passaram a ter status definido;
  • quais riscos foram identificados;
  • quais problemas passaram a ser acompanhados;
  • o que os projetos-piloto entregaram;
  • quais decisões precisam do sponsor.

O objetivo não é demonstrar a quantidade de trabalho realizada pelo PMO.

É demonstrar o que mudou.

Entregáveis da fase 2:

  • relatório de portfólio entregue ao sponsor;
  • dois projetos-piloto utilizando os templates;
  • primeiros dados sobre os resultados do processo.

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Fase 3: dias 61 a 90

Semanas 9 e 10: expanda o PMO

A expansão para os demais projetos acontece depois dos pilotos.

Agora existe uma base para responder à pergunta:

Por que os outros projetos deveriam utilizar esse processo?

A resposta deixa de ser apenas metodológica.

Existem exemplos internos.

Os resultados dos projetos-piloto ajudam a mostrar como os processos funcionam na prática e permitem ajustar os templates antes da expansão.

Treinamento geral

O treinamento geral também acontece nesta fase.

Treinar antes dos pilotos pode tornar o conteúdo abstrato.

Depois dos pilotos, os exemplos vêm de projetos da própria organização.

Os gerentes que participaram dos testes também podem contribuir para explicar o processo aos demais profissionais.

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Semanas 11 e 12: avalie o PMO e planeje os próximos 90 dias

No final dos primeiros 90 dias, avalio o que funcionou e o que não funcionou.

A metodologia precisa ser ajustada com base no uso real.

O que foi planejado na primeira semana pode não ser o que a organização precisa depois de três meses.

Por isso, produzo um plano para os próximos 90 dias, com metas de maturidade específicas e mensuráveis.

Entregáveis da fase 3:

  • PMO em operação;
  • relatório de portfólio regular;
  • processos ajustados;
  • treinamento realizado;
  • plano de maturidade para o próximo trimestre.

+ O que faz um PMO na prática? Funções, tipos e diferença para o gerente de projetos

As 5 armadilhas que podem comprometer um PMO nos primeiros 90 dias

1. Padronizar tudo antes de entregar valor

O PMO que começa com um manual de 80 páginas pode criar um problema antes de resolver outro.

Quantidade de processos não significa qualidade de gestão.

Dois ou três templates utilizados pelos projetos podem gerar mais resultado do que uma metodologia completa que não é aplicada.

2. Não ter um sponsor ativo

PMO sem apoio da liderança fica exposto quando surgem conflitos.

O sponsor precisa participar das decisões em que o mandato do escritório é questionado.

A aprovação inicial não é suficiente.

O gestor do PMO precisa construir uma relação na qual o sponsor acompanhe os resultados e participe dos momentos em que sua autoridade é necessária.

3. Ignorar quem perde com a mudança

Todo PMO altera relações existentes.

Algumas pessoas ganham visibilidade e apoio.

Outras podem perceber perda de autonomia.

A resistência pode aparecer como crítica à burocracia, à metodologia ou aos processos.

Mapear essas pessoas desde o início permite trabalhar a mudança antes que o conflito aumente.

4. Criar processos sem envolver os gerentes

O template desenvolvido pelo PMO e apresentado como definitivo tende a ser percebido como uma imposição.

Quando os gerentes participam da construção, aumentam as possibilidades de adoção.

Esse processo de co-design não significa abrir mão da metodologia.

Significa incorporar a experiência de quem utilizará o processo.

5. Medir o PMO pela quantidade de documentos

O número de relatórios produzidos não demonstra o valor de um PMO.

A pergunta mais importante é:

Os projetos acompanhados pelo PMO estão sendo gerenciados melhor do que antes?

Se a resposta for positiva, é preciso demonstrar isso com indicadores.

Se não houver resposta, existe um problema de mensuração ou de geração de valor.

Documentação é meio.

O resultado dos projetos é o que deve orientar a avaliação do PMO.

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O que fazer depois dos primeiros 90 dias?

Os primeiros 90 dias criam as condições para o PMO funcionar.

Depois disso, começa outra etapa: decidir como o escritório deve evoluir.

As organizações que mantêm PMOs ao longo dos anos precisam adaptar o escritório às mudanças da própria organização.

O PMO não deve permanecer preso ao modelo utilizado no início da implantação.

Processos podem deixar de fazer sentido.

Novas necessidades podem surgir.

A cobertura pode ser ampliada quando houver capacidade para manter a qualidade do acompanhamento.

Por isso, o plano de maturidade trimestral precisa responder a três perguntas:

  1. O que o PMO entregou que a organização não tinha antes?
  2. Quais projetos melhoraram de forma mensurável?
  3. O que precisa mudar no próximo trimestre?

Essas perguntas deslocam a discussão de processos para valor.

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Criar um PMO é criar capacidade de gestão

Saber como criar um PMO em uma empresa envolve mais do que escolher uma metodologia.

É necessário entender o contexto, definir um mandato, identificar stakeholders, começar com projetos-piloto e demonstrar resultados antes de ampliar a estrutura.

Nos primeiros 90 dias, o objetivo não deve ser criar todos os processos possíveis.

Deve ser criar as condições para que o PMO seja reconhecido como parte da gestão dos projetos e do portfólio.

A sequência faz diferença:

  • primeiro, entender;
  • depois, testar;
  • em seguida, demonstrar;
  • por fim, expandir.

O PMO começa com processos, mas precisa ser sustentado por valor.

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Sobre o autor

Mario H. Trentim é membro do Board of Directors do PMI, Reitor da Allevo Tech / Qeevo Group, doutorando do ITA e autor de 13 livros sobre gestão e execução estratégica.

Atua como conselheiro e conector estratégico em organizações em transformação.

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